16 dezembro 2010

a caixa registradora






Money, it's a gas
Grab that cash with both hands
And make a stash
New car, caviar, four star daydream
I think I'll buy me a football team.






É este o livro. Arremessou o objeto no balcão e derrubou tudo quanto foi coisa. Calendário, maquineta de cartão de crédito, cartões de presente. A vendedora abismou-se com tamanha falta de educação. A mulher franziu a boca e depois sorriu como se pedisse desculpas à vendedora por seu estabanado ato trágico.
─ Vai levar?
─ Vou.
─ Dinheiro ou cartão?
─ Dinheiro.
Vou levar o livro a dinheiro. A mulher começou a catar os trocados em sua bolsa. Enquanto isso a vendedora se adiantou e passou a atender outro cliente. E Isadora ainda catava dinheiro. Tanto bolso e eu só me perco, pensou. E quanto mais pensava, mais pensava e mais pensava. Não parava de pensar Isadora. E nada de dinheiro aparecer. Enquanto isso a vendedora passou a atender outros clientes e passava cartão e Isadora sentiu saudade do velho barulho da caixa registradora. Aquela bem antiga mesmo que se abria e fazia plim e trim e tinha uns grampos pra prender as notas e era cor de cobre. Lembrou-se de sua vontade de organizar o dinheiro que o homem da mercearia depositava fora de ordem quando ela e sua mãe iam às compras pela manhã. Eu sempre quis organizar as notas por tamanho de quantidade. Na verdade, meu sonho era ser bancária. Por isso eu adorava jogar banco imobiliário com meus amigos. Viviane, Nice, os irmãos da Viviane e outros garotos da rua. A gente jogava tanto que perdia a noção do tempo. Chegava tudo quanto era mãe chamando todo mundo pra ir tomar banho e jantar. E nada me incomodava. Aliás, eu me sentia irritada por não conseguir comprar tantas ruas quanto meus amigos e sentia-me envergonhada quando um dos irmãos da Viviane dizia que eu estava amadurecendo. O menino (que era mais velho que Isadora) ficava olhando o corpo da menina que crescia mais que as outras. Eu sentia vergonha. Nice era sempre a mais astuta e comprava tudo. Ela e a Viviane. Parecíamos jogadores de poker intercalando olhares entre os parceiros. O ruim é que todo mundo cresceu e até o banco imobiliário mudou. O tabuleiro não é mais como era antes. E as notas de dinheiro são feias. Sei disso porque tenho um sobrinho e ele joga com seus amigos. Jogam, mas não demonstram vontade. As crianças de hoje estão ficando velhas e chatas. Insuportavelmente velhas e chatas e cheias de pretensão. No meu tempo não era assim. A Nice tinha lá seus problemas. A menina se achava bonita demais. Ela tinha o cabelo louro meio acinzentado e o rosto era lindo. Ela se exibia o tempo todo e isso também me incomodava. Mas não tanto quanto me incomoda ver a Nice gorda feito uma vaca comendo pizza na esquina. Eu a encontrei dia desses e mal acreditei quando ela gritou meu nome. Lembro que sorri, falei algumas bobagens para apaziguar meu susto. Nice, que merda aconteceu com você? Quis perguntar, mas nada saiu de mim a não ser palavras que retardam a verdade. Muita gente desanda na vida. A Viviane tá de boa, eu acho. Soube que se tornou advogada, os pais dela morreram (deve ter recebido herança) e os irmãos ainda são deliquentes. Algo de ruim sempre permanece. Nada muda totalmente. Eu não sei bem o quanto mudei. Alguns dizem que sim, que mudei muito, que isso, que aquilo mais. Eu não vejo diferença. Sinto falta de algumas coisas que já passaram por mim. Lembro de um cara que conheci e me fazia ler um monte de livro de crônica. Agora vejo o quanto ele era louco. Toda semana me levava livros. E eu lia. Que mais havia de fazer? Lia e beijava na boca. Lia e ouvia falar de uma guerra na Bósnia (era na Bósnia a guerra?). Lia e beijava na boca e olhava pros lados. Eu sempre fui idiota e sempre gostei de rir mais que o merecido. Eu costumava usar umas roupas estranhas e comecei a fumar no tempo em que algumas outras meninas viajavam pra Disney. Eu nunca quis conhecer o Mickey. Aliás, eu queria o Mickey Rourke. E por mais de nove semanas. Eu ficaria com ele até que começasse a me incomodar. Mickey Rourke teria sido a minha viagem de férias. Mas hoje não. Já reparou como ele está velho e todo remendado? O que acontece com certas pessoas? Eu nunca mais ouvi falar de alguns outros amigos. Parece que todo mundo morreu. Será este o grande mistério? Somos crianças, depois banco imobiliário, depois salto alto e depois o crime da vida de gente grande. Eu não sei o quanto cresci, mas sei o quanto vivi. E livro algum vai medir minha vida. Muito menos o dinheiro que busco. Nem esta bolsa cheia de compartimentos que de nada servem, entende? A vendedora, a esta altura do campeonato, não aguentava mais a cliente tagarela que catava dinheiro na bolsa e falava mais que respirava. E sabe de uma coisa? Não vou mais levar este livro. Se a loja tivesse uma caixa registradora antiga, daquelas que faz plim e trim, eu levaria. Mas, como não tem a tal caixa cor de cobre que faz plim e trim, levo nada. Isadora saiu da livraria coberta de nostalgia e carregou consigo o vago sentimento de que nunca mais voltaria a ser do trem o antigo vagão.








Image by jw miller

10 comentários:

Don Mattos disse...

Letícia, teus textos são muito, muito, muito bons!

Quero comprar teu livro, meu dinheiro tá separadadinho na carteira, não vou ter trabalho para encontrá-lo. Sai direto de Florianópolis para a tua caixa registradora.

Disse esses dias, no meu blogue, que gosto de escrever ouvindo música, para que meus textos tenham trilha sonora.

Teu texto me lembrou "A lista", do Oswaldo Montenegro.

Lívia Inácio disse...

Senti pena de Isadora...

de verdade!

José Ferreira Sobrinho disse...

Não é triste ver as pessoas envelhecerem fisicamente.Nosso espírito está envolto por uma carcaça com prazo de validade curto.Triste é ver pessoas de 20 e poucos anos com almas apodrecidas,guiadas pelas verdades que o poder lhes oferece.
Mickey Rourke is the man,baby!
Ótimo texto.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência,afinal,trata-se de uma obra de ficção.

Letícia Losekann Coelho disse...

Letícia,
Teus textos são ótimos! Nos fazem viajar legal, letras que se transformam em cena quase que de filme! Muito bom!!
Beijos

Felipe disse...

Lê, ouso dizer que este texto se tornou meu favorito! Estou certo de que virão outros, pois neste lugar coisas sagradas surgem de uma maneira compulsiva!

Um brinde à isso!

Beijo...Fê

Maria Rita disse...

Uau...parabéns moça escreve muito bem. Adorei muito td por aqui!

Beijos pra Ti

Mai disse...

Eu já havia lido teu texto, e o que sempre me pergunto é o que mais vamos querer...
E depois de comprar o time de futebol?

Mas vim mesmo pra te desejar um bom natal!

bjos, Letícia.

Zélia disse...

É. Eu ia falar, mais ou menos, o que Juljan falou. Se dito, não repetido. Só vou acrescentar em "mais do mesmo" na última linha do texto. Pobre são os que não entendem que existe um vagão para cada viagem que se faz na vida.

;)

Luis Eustáquio Soares disse...

quem sabe estamos mortos
e, ao pensarmos que estamos vivos,
só fazemos matar vidas...

eis a intensidade dessa natalina
prosa, mai...

feliz novos atos nascentes,

beijos

de la mancha

NDORETTO disse...

Ahhhh, eu gostei muito!
E sem ficar triste.
A gente viaja mesmo.
Bem,pelo menos quem tem vagão,viaja......rsrsr

Lindo,escritora


Beijo,Neusa