01 dezembro 2010

diacromática





Acabo de pintar as unhas de vermelho. Percebo que borrei uma delas e ouço Tchaikovsky. Nada especial. Mais da metade da população não conhece Tchaikovsky e ninguém faz questão de conhecer. Acredito, então, que não conhecer seja talvez o melhor traje para que se viva melhor. Do outro lado da rua um par de velhinhos caminha como se fosse de vidro. Vagarosos, silenciosos e gentis, os velhinhos estão sorrindo um para o outro e eu investigo olhares. E, vez por outra, descanso minha cara na televisão. Vejo a pseudo-guerra no Rio de Janeiro e penso no homem que amei durante vinte anos. Sinto-me quase triste por saber que ele vai terminar seus dias sentado em uma cadeira de balanço olhando seus netos brincarem, enquanto espera sua esposa trazer seu prato de lentilhas para que ele coma e fique bem alimentado em sua velhice. O fim é trágico. Ainda mais quando nos lembramos do início. Todo início é bom. Assim penso após pintar as unhas. E estou seriamente envolvida com um inseto que, ora pousa na tela do computador, ora pousa na luminária que me aguça a leitura. Insetos devem ser felizes. Eles não precisam dos nós que atamos para sermos isso que somos. E há muito S na sentença. Alguém lerá e dirá que alitero. Que diga. Você tem todo o direito de dizer o que pensa e eu, por minha vez, tenho todo o direito de não querer saber sua opinião. Rebelião? Onde? Em mim? Talvez. Mas há um motivo. Hoje resolvi comprar livros e tive o desprazer de ser atendida por uma vendedora que começava todas as frases com Então. Tudo era Então. Senti a impertinente vontade de saber o que ela finalmente iria concluir (Finalmente Concluir não seria pleonasmo?). Enfim, a que será que se destina? Perguntei a respeito de um autor. A vendedora disse: "Então... este tipo de livro fica na sessão de livros estrangeiros". Na dúvida, peguei o celular e liguei para alguém que poderia me ajudar na escolha do livro. O alguém não atendeu. Por que pessoas estão sempre ausentes? Estarei ausente? Você já parou para pensar quantas emergências deixou passar por simplesmente não se importar com nada além de sua vida que mal cabe em seus pensamentos? No fim das contas, comprei um único livro e saí da livraria feito desesperada. Andei depressa para me afastar do Então. Não suporto gente que começa frases dizendo então. Então o quê? Eu bem que poderia berrar palavrões para resolver de vez meus arroubos. E já estou há mais de 20 dias passando por um processo de abstinência. É uma dieta bastante saudável porque, desta forma, não corro riscos de ter de me socializar. Permaneço incólume como se fosse um baú de uma velha senhora que guarda seus pertences. Sinto-me asseada, controlada, e mergulho de cabeça em um romance que tento escrever. Estou tentando narrar a história de Dora, A Cínica Patriota. Já dei início ao que chamo de esboço. Tenho outro romance na culatra e queria muito narrar a história de um bilhete deixado pela esposa a seu marido. Chamarei de Vice-Versa. Assim como o destino. E, coincidentemente, uma cena de um texto lido ontem se repete enquanto vou à cozinha e preparo leite com café. Formigas transitam no pote de açúcar. Fazem filas. Todas em ordem e eu não me atrevo a colocar as mãos no pote de açúcar. Não incomodo formigas. Na verdade, não incomodo ninguém. A não ser pelo trombone comprado semana passada, vizinhos não podem reclamar de mim. Eu toco trombone sempre no fim da tarde. Grave, agudo, gravíssimo, sério, urgentíssimo estado em que estou. Notas musicais invadem a casa e logo não ouço mais os ruídos da rua. Apenas o trombone. É o que faço para esquecer meus contratos obrigatórios. Torno-me lúdica. Sempre sonhei em me tornar a cromática Amélie Poulain. E hoje estou coloridamente despreocupada. Sento sob a árvore e penso quinquilharias a respeito da vida. Ouço Tchaikovsky e, por um segundo, o tempo é silêncio e não há ninguém por perto. Estou a salvo, estou a mim, estou como sempre quis. Ilha deserta, pacífica, contra  todos os males, observando casais de velhos passearem pela rua e nunca comerei lentilhas sentada em uma cadeira de balanço. Prefiro a fome. Prefiro fingir loucura a me tornar comum. Não serei uma formiga cercando um pote de açúcar. Prefiro ser toda ruim. Ou boazinha e obediente feito um querubim.




Image by Triz

10 comentários:

VELOSO disse...

Continue sempre coloridamente despreocupada e talentosa ,linda prosa um ótimo dia ou noite!

Pedro Avillar disse...

Lê, se tu inventar de fundar uma igreja eu vou ser teu discípulo. Olha lá o que tu escreve. Parece que tudo jorra na cara da gente. Penso demais na vida quando leio teu afeto.
Beijo, Diacromática.

Zélia disse...

O texto vem cheio de palavras fortes. Idéias fortes. Para citar algumas:

Diacromática.
Tchaikovsky.
Alitero.

Adorei a última! Que aliteremos, então. Ôpa! nada de "entãos". Mas eu não estou iniciando uma frase. Termino, então.

Acordei pensando que não fui bem atendida em uma livraria da cidade. Vende livros importados. Mas ninguém lá endente de educação britânica, por exemplo. Saí sem comprar livro algum. Livro é igual pão. A gente pode comprar em toda esquina.

Triste, realmente, acabar os dias sentado numa cadeira de balanço a esperar um prato de lentilhas. Sugestivo a pedida. Quem sabe o prato de lentilhas não seja o punhado de esperança que faz o velho esperar pelo seu fim?

J.M.L disse...

Adorei o texto...quando sai um livro?

Tiago Hist disse...

Ontem o caos se reafirmou sobre a terra. Tive dificuldades para chegar em casa devido a um puta engarrafamento no Retão. Depois me sentei para corrigir provas e vi [ser professor é foda]. Tentei me conectar ao msn e não consegui. Li teu texto ainda na madruga, mas não consegui comentar [por motivos meus. Eu me engarrafei]. Fiquei entalado de lentilha. Vejo agora que minha opinião não difere das demais.
Beijão, Lê.

Mai disse...

A pseudo-guerra que lembra um grande amor e os amores e os amantes se destruindo com suas guerras.
Let, eu sempre levo você mais a sério que você.

bjo

Éverton Vidal Azevedo disse...

Ah, eu também nao quero terminar meus dias sentado numa cadeira de balanço, esperando minha mulher me trazer uma sopa de lentilhas... Prefiro a fome.

Felipe disse...

Bravo, Lê!!!!!

Beijo...Fê

Jonah Palmeira disse...

Também não vou esperar Lentilhas. Vou é morrer de fome se for preciso.
Você, como sempre, é fascinante com as palavras, Lelê. Beijos.

NDORETTO disse...

Mulher, você é ótima. Eu rachei de rir com seu conto na revista Novitas: Terapêutica. Muuuuito bom, e rindo muito ( mais uma vez) vim para seu blog. Aí foi, né: bom demais. Vou te ler toda, cara, pode ser? Você tem um rítmo alucinante! Muito bom!

aplausos
NDoretto