22 dezembro 2010

à luz do dia




Abriu os olhos. Sentiu-se feliz por ter acordado cedo. Espreguiçou o corpo na cama e levantou-se de forma tão veloz que chegou a sentir uma breve tontura. Sorriu. O corpo está desacostumado. Ele não aguenta movimentos bruscos. O sol despontava amarelo incandescente por uma das janelas. E ela acordada lentamente começava a funcionar. Que dia é hoje? Que dia foi ontem? Que diferença faz? Caminhou até o banheiro, urinou despreocupadamente, olhou-se no espelho. Estava bonita ainda após tantos dias. Escovou os dentes e lembrava-se de repetir os movimentos para frente e para trás lentamente e não há necessidade de força, pois as cerdas limpam os dentes sem que seja preciso esfregá-los como se esfregasse o chão. Alarmou-se. Mas é claro que devo estar feliz. Acordei cedo e posso então fazer tudo mais cedo antes que ele acorde. Ele ficará feliz ao acordar e perceber que estou pronta. Estarei limpa e, feliz de sorriso brilhante, anunciarei que a casa está limpa e eu não ficarei reclamando do tempo, da falta de tempo, da perda de tempo. Estou aliviada. A casa não estava suja, mas ela, com suas manias de limpeza e tão perfeccionista, precisava sempre do excesso para acreditar que a realidade era a mesma que observava. Tomou café ligeiro feito gente que viaja de ônibus. E não fumou. Hoje não fumarei pela manhã. Não ainda. Vestiu um colorido vestido de casa. Precisava estar leve para a limpeza. E disposta. Por isso não fumaria. Mas, assim que eu terminar de limpar a casa, vou me sentar relaxadamente e fumarei um cigarro. Será o melhor cigarro já consumido no mundo. Estarei em paz. A casa limpa. Eu estarei limpa. E ele irá acordar e ver que tudo está feito e eu estarei pronta. E começa a limpeza. Vãos e pisos e retira bem a poeira da mobília e preciso mudar de lugar este tapete. Ele já não combina mais com a sala. Carregou o enorme tapete para fora de casa e passou a tirar a poeira do tapete e que mania besta a gente tem de acreditar que o sol é bom para os tecidos. Colocou todas as almofadas ao sol. E também as camisas. E o divã. Encheu um enorme balde com água e muitos produtos de limpeza. A casa já se sentia limpa. Ela já se sentia nítida. E ele ainda dormia. Tentava limpar tudo sem fazer o mínimo ruído para que ele não acordasse antes. Era preciso mais tempo. Agradecia contente por ter acordado cedo. Não entedia como poderia ter passado tanto tempo presa à cama dormindo sonhos desvairados deixando de lado sua vida ali tão acordada feito soldado em vigília. Mas não queria pensar. Limpava, movia-se, subia e descia degraus. A poeira se dissipava, mas nunca completamente. Lembrou-se de ouvir alguém que dizer que a poeira é composta por partículas da pele que se desprendem do corpo. Sentiu náusea ao saber do fato. Mas não hoje. Que seja poeira de carne humana de todas as pessoas que passam por minha casa. Eu não me importo. Deu de ombros e passou a limpar mais frenética. Limpou armários, esfregava o chão como se tirasse nódoas das roupas dele que tanto sujava as camisas e não se preocupava se ela conseguiria ou não tirar aquelas manchas potencializadas com o passar dos dias. Sempre que algum pensamento a invadia, sacudia a cabeça para evitar que algo a desviasse do trabalho. Preciso limpar para quando ele acordar e para poder fumar um cigarro e observar a fumaça desenhar no ar meus alívios de estar limpa e em dia. Limpava, erguia-se, suava, mordiscava a boca por dentro. Sentia gosto de sangue na boca ao morder um dos lados da língua. Quis gritar. Mas não o acordaria. Estava tudo pronto em sua mente. Levaria seu café na cama e ele sorriria satisfeito e ficaria surpreso com a atitude dela. A vagarosa era talentosa enfim. E limpou mais ao vingar dos pensamentos. Limpava janelas, lustrava mesas e cadeiras, tudo brilhava límpido e a lavanda do produto de limpeza era suave e deixava a casa tão perfeitamente alva. Não sabia dizer quanto tempo, mas, enfim, havia terminado. Preciso acordá-lo feliz para que ele fique feliz e tomará seu café e verá que sou feliz. Somos todos felizes. E fumarei meu cigarro esvaindo descanso de meus lábios e ficarei mais feliz porque ele estará feliz assim como todos deveriam estar felizes. Preparou o café. Bandeja ornada de pães, suco de laranja, leite e uma fatia de bolo. A casa estava tão perfeitamente limpa. A bandeja estava tão odiosamente organizada. Ele ficaria feliz. Subiu as escadas e seus chinelos quase deslizavam sobre o piso limpo e ofuscante. Abriu a porta do quarto onde ele dormia, o único que ainda precisava ser limpo. Mas como poderia limpar se ele ainda dormia? Fingiu não se incomodar com o medonho pensamento de um quarto sujo em uma casa limpa. Mas não estava sujo o quarto. Ela o havia limpado ontem. Mas ontem não é hoje. Ontem não é lugar algum. Moveu-se para abrir as cortinas de forma que a luz não o incomodasse ao abrir os olhos. Seria apenas uma branda luz do dia para dizer que há vida e que ela já sorria enquanto ele ainda dormia. Descansou a bandeja em um baú perto da cama e apoiou-se sobre ele para acordá-lo. Acorde. Já é dia. Ele diria da alegria por vê-la acordada e tão feliz. Ela diria que felicidade estar acordada para vê-lo tão feliz. Mas o corpo inerte não sorria. A boca cerrada não dizia. As mãos fechadas não se abriam e o coração não ritmava vida. Finalmente o horror que faz ruir os sonhos. Ele estava morto enquanto eu pensava em limpar ladrinhos. Ele estava morto enquanto eu me ajoelhava para remover manchas do piso. Ele estava morto enquanto eu desejava que ele dormisse até que tudo estivesse pronto e eu faria seu café e traria à cama e ele comeria feliz e depois saltaria para o piso que agora está tão limpo e o sol faz brilhar a casa inteira. Ele está morto e eu dormi a vida inteira. Ela descansou. Observou a bandeja e o café que não mais fumegava. O suco esquentava. O pão endurecia. Tudo se esvaía. A mulher não poderia terminar infeliz após ter acordado cedo. Ela precisava celebrar a limpeza. Celebrar a urgência que a fez tombar da cama expressiva e ávida por fazer algo diferente. Ele estava morto, a casa estava limpa e ela, como se fosse feliz, desceu as escadas, caminhou até a varanda e tranquilamente fumou o primeiro cigarro do dia. Tranquilamente ela fumou enquanto ele morria, a fumaça torneava o tempo envaidecida e a casa excessivamente reluzia.







Image by Ainsworth

9 comentários:

Don Mattos disse...

Que merda, eu queria ter escrito este conto!

Eder Asa disse...

Putz! O pior é que eu começo a ver o quanto meu quarto está sujo, e a casa toda... E a alma...

Leonardo B. disse...

Por minha grande falta de jeito, mas com o desejo de também partilhar o espírito desta quadra, partilho de Vitorino Nemésio, um outro Natal,

«Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.»

Com um sincero desejo de uma quadra plena,
Um imenso abraço, Letícia

Leonardo B.

Tiago Hist disse...

E quando o sol vier socar minha cara
Com certeza você já foi embora

Veio Cazuza quando bati os olhos nesse conto fora de série.

"Mas ontem não é hoje. Ontem não é lugar algum."

Sou cobaia de teus experimentos, Letícia.

Beto Canales disse...

plac plac plac

Edilson Cravo disse...

Que delícia de conto. Parabéns por tantooooo talento. Beijooo.
Feliz Natal.

Zélia disse...

Você esteve aqui em casa hoje? Ainda bem que não. O final é diferente. Mas sabe que eu já "sabia" o que aconteceria quando ela chegasse ao quarto dele? Seria mais uma façanha de minha visão além do alcance? Ou será que conheço já os traços de tua literatura? Talvez, um pouco das duas coisas. Eu vejo longe, "é vero"! E conheço o teu desenho literário. O que não quer dizer que a tua literatura seja "previsível", entende? Sabe quando um escritor tem o seu traço delineado? É por aí...

"Vestido de casa". Um barato isso!

;)

Du disse...

Nossa, fazia tempo que não passava por aqui, falta grave, porque tu és uma das melhores escritoras que conheço! Mas tive meus motivos pra abandonar a leitura dos blogs, mesmo contra a minha vontade Letícia...

Bom... Seja no Natal ou em qualquer outra data, devemos sempre sentir a presença de Deus em nossos corações. Neste ano que passou, apesar de tudo que sofri, sempre senti que Ele me carregava no colo quando eu achava que não podia mais seguir meu caminho. 2010 foi o ano mais difícil de toda minha vida, mas ao mesmo tempo, foi o ano em que tive provas de que verdadeiras amizades ainda existem e que Deus nunca nos desampara. Talvez por isto eu tenha conseguido meu emprego tão sonhado, depois de tantas batalhas, internas e externas...

"Girando o mundo nos guia à poesia dos dias, seja com o sol, seja com a lua, ela é tua... a felicidade está em ti."

(postei esta frase no twitter quando senti que o sorriso é como uma cura... e foi. mudei minha atitude diante dos fatos e meu pensamento atraiu energias positivas)

Sou agnóstica, só pra constar, acredito em energias positivas que posso chamar do que eu quiser, inclusive de Deus, até para uma maior compreensão dos que lêem e tem outras crenças... ou até pra quem não tem nenhuma!

Beijos n'alma e que sejam felizes todos os teus dias, inclusive o de hoje!

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com