05 dezembro 2010

raro amor





Escritores gostam de escrever histórias de amor.
Eu não sou escritor. Sou malabarista.
Minha vida pende em equilíbrio
Da primeira à última hora do dia.





Escrevo com medo de que você me leia. Tenho certeza que irá pensar que estou surtando, chutando barracas ou morrendo de sede frente ao poço cuja água transborda no piso da casa. Escrevo comedida de palavras e cheia de receio. Mas medo não combina comigo. Assim como passado não combina com ninguém. Os grandes poetas acabaram com tudo. Destruíram minha fé. Leio freneticamente a obra de Baudelaire. Flores não são perfumosas desde que você partiu com sua cara lavada de quem busca outras guerras. Eu não poderia impedir que você fosse. Agora eu conto tempo até o próximo outono quando, por fim, eu me desfizer em folhas e, talvez, quem sabe, com muito azar banindo a sorte, você olhe para trás e queira novamente a mulher que eu era e que já não sou mais. Fantasmas seguem outros rumos. Eu já gastei minha artilharia. A gasta pólvora de seus artifícios não mais me sacia. Cortejo outro tempo verbal e desculpa por não tê-lo avisado, em bilhete ou carta de despedida, que um dia, raro amor, eu também mudaria. Afinal de contas, somos ou não destilados da mesma refinaria?








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8 comentários:

Carol Timm disse...

Letícia,

Os poetas (quase todos nós) somos destilados da mesma artilharia: palavras - tanto sopram quanto matam - vida.

(vida, minha olha o que eu fiz. Deixei a fatia mais doce da vida... na vida dos homens de vida vazia, mas vida ali quem sabe(?) eu fui feliz... CB)

Beijos e bom domingo pra nós
Carol

PS: Eu sempre te leio! ; )

Paulinha disse...

lembrei de Machado de Assis, em Brás Cubas, "para o tempo, não importa o instante que passa, importa o instante que vem"... mas o que somos, depois de destilados, só é possível a partir do que fomos (e às vezes a gente muda e não sai do lugar...)
bjão

Mai disse...

no matter how you write, the story always will be about love and people, its wars, escapes, surrender or memories.

And Leticia, I do not analyze you, I'm just a reader attentive, cause your writing deserves.

NDORETTO disse...

Ai, que lindo!!!!
Mais uma vez você é ponto final em prosa!
Bom de se ler uma vez.
Outra e mais outra. Você descansa todas as armas desse amor.
Usei a expressão correta?
O texto entra na gente.

Neusa

Jô Moraes disse...

A vida é assim. Conjuga o verbo mudar sem pedir permissão. E o tempo é cúmplice das mudanças sem culpa, desculpa ou espera. E se o amor perder o sentido, bem possível o amor não ter dado ordens, outras raridades deram.

"Porque você não lê as minhas coisas? Leia as minhas coisas!"

Aí, eu vim aqui pra assinar e dizer que leio sim suas coisas.

Zélia disse...

Vôte! Pé de pato!!!

Eu muito gostei! É um poema. Independente da forma que tenha. Gosto do geral e gosto dos espaços:

"Assim como o passado não combina com ninguém."

O passado é uma página virada em nossas vidas. Faz parte do que somos nós. Mas não serve mais como adereço para a roupa que vestimos no presente.

Outro espaço:

"...e desculpa por não tê-lo avisado..."

Foi mal, amor! kkkkkkk

E juízo!!! :P

Letícia Palmeira disse...

Vôte mesmo.

E não é somente o pé do pato. É o pato inteiro, Zeliawski.

Luv u.

Felipe disse...

Raro Amor! Minha nossa!!!!

Genial, Lê!

Beijo!