29 dezembro 2010

virginianas




Canto alto música revoltada na beira da estrada. Parada obrigatória pra mulherada mijar. E mijar é feio. Diga urinar, baby. Eu já disse que não gosto de ser chamada de baby. Para com isso que todo gay gosta da palavra baby. Assim como todo gay gosta de tarô. Já percebeu? Sim. Eu já percebi. Todo gay joga tarô ou lê palma da mão ou prevê futuro em borra de café. Gay de verdade gosta de fazer crochê, falou a Ana. Falando tudo sem pausa. Você faz crochê? Esbarrei na fala da Ana pra ela parar de me açoitar os ouvidos com suas histórias. Esquece isso, Ana. Além do mais, qualquer pessoa faz crochê. E conheço muita gente que gosta de tarô. Ela ordinária ri e olha minha cara e me tasca um beijo de carinho. Acendo um cigarro e o sol chia forte no asfalto. A Ana faz questão de dizer que sou lésbica. Diz na frente de todos que é pra todo mundo saber que sua melhor amiga pode ser aceita por seus amigos como se fosse normal. Eu a deixo falar o que quiser. Encosto o corpo no capô do carro e vejo a mulherada no meio das árvores e arbustos. Uma delas foi correndo lavar as mãos no rio. Sorte ter parado aqui, perto deste rio. Onde vai dar? Não sei. Só sei que desce. Todo rio desce, Ana. Nunca vi um rio que sobe. Você fala muita porcaria, Ana. Ela limpa a cara toda com lenço umedecido. Limpa a cara e olha pra cima como se caísse água do céu. Por que não vai ao rio e lava essa cara, Ana? Vou nada. Quero ficar aqui com você. Você canta bem. Canta mais alto. Canta música pra mim. Vou cantar aquela que você gosta. Ainda ouve Dolores Duran? Ouço sim. Fui criada ouvindo as músicas que a mãe ouvia. Aí eu ouço até hoje. A Ana encolhe o corpo todo quando eu faço pergunta sobre as coisas dela. A Ana fantasia comigo. O tempo todo. Mas não diz. Marcou viagem com a mulherada da igreja e me convidou pra dirigir. Ela sabe que não gosto de igreja. Nem rezar eu sei. Deus me causa urticária. Imagina um bando de mulher na praia, algumas rezando, outras falando mal das que estão rezando e a Ana organizando tudo: Toalhinha de piquenique, guardanapo, e traz comida pra todo mundo e ainda traz criança. A Ana poderia ser santa senão fosse tão boa. É bondosa demais. Tão boa que eu deixo que ela acredite no que quiser. Até no olhar dela me querendo fingindo que não me quer. Eu canto, Ana. Qual música você quer? Ela vem corada saltitando dizendo a música. Sou vizinha da Ana desde que éramos crianças e sempre fomos assim, grudadas. A Ana usava frauda e eu cuidava dela. A Ana foi namorar menino sacana e eu fui atrás dela pra ver se o cara se comportava. Eu tomei conta da Ana até agora e não seria hoje que eu a largaria com este monte de mulher rezadeira. Não gosto de dizer à Ana que ela se deixa envelhecer antes da hora com essa coisa de andar em igreja com um monte de mulher que só reza e nada mais. Dou umas fisgadas pra ela tomar jeito. Ana, por que não veste outra coisa? Vamos sair com outras pessoas, vamos ao cinema, te ajudo a arrumar namorado. Vamos, Ana. Ela sempre diz que não pode ir. E até as roupas são sérias demais pra ela. Não sente calor com esse vestido? E a Ana corre e veste o que mando. A gente se confia demais. Por isso eu aceitei dirigir pra esse monte de mulher religiosa em pleno feriado. Porque ela pediu. E eu canto. A Ana diz que anda numa fase pra lá de MPB. Você canta? Canto. E a mulherada mijando na beira do rio e eu ali na beira da estrada cantando pra Ana. Ela me olha enquanto canto e meu mundo se completa. O mundo inteiro é um círculo sem defeito ou falha. Se isso não for amor, não sei nada de nada. A Ana finge não saber, mas entende muito bem o rumo que tomei. E eu entendo o caminho da Ana. É mistério sempre o que nos comove. Se o que sinto é descoberto, talvez a Ana tome susto. Talvez fique com vergonha. E eu não vou saber viver sem a Ana por perto. Ela me olha com vontade antes de entrar no carro e diz que sem mim estaria perdida. E eu acredito ser belo amar tanto um bicho do mesmo aspecto. Espero apenas o dia em que nós duas, após orgasmos e Altemar Dutra, possamos rezar juntas nossas ave-marias e nos beijar loucas e abertas de ternura.











Image by clara

10 comentários:

Ana SS disse...

Me senti lendo Saramago.
:)

Monday disse...

Fala quem não é e ouve quem é ... importante é que não se separem, o resto só serve mesmo para preencher página de jornal e notícia tapa-buraco de noticiário da tevê ...

Juan Moravagine Carneiro disse...

UM BELO 2011

ABRAÇOS

Tiago Hist disse...

Dolores Duran me traz lembranças. Muito boas por sinal.

Um beijo de paz e uma bandeira branca, Letícia.

Admiração não sacia, mas fazer o que? É a vida. Um dia a amiga da Ana vai encher o saco e arrumar outra. Pode apostar.

Zélia disse...

kkkkkkk
Devo ser do contra mesmo. Acho "urinar" mais feio que "mijar". Eu mijo. kkkkkkkk

Eita, vida! Eu só acho que a gente não deve se guardar tanto esperando que as coisas aconteçam por nós. Nós é que temos que ir atrás delas. Como diz o ditado, antes que seja tarde!

Felipe disse...

Minha Nossa, Lê! Bravo, Bravo, Bravo! Perfeito!!!! Sempre que venho à esse lugar, me encho de tudo que é mais belo!

Genial!

Beijo...Fê

Letícia Palmeira disse...

Zeliawski,

O ruim de tudo é ter de escolher.


Fê,

Valeu pela visita, MFHB.


Tiago,

Admiração sacia. Depende do ângulo que você veja as coisas.


Monday,

Bom te ver.


Ana SS,

Só li um livro do Saramago. Vou tentar ler mais.



Beijo para todos.

Janaina Cruz disse...

Amores escondem-se e ganham tamanho no impossível, esse é o maior encanto do amor, algumas vezes quando se torna possível sofre tanta agressão da realidade que se fragiliza, e fica em quadros de lembranças e saudades.
Ahhhhhh quem dera que eu aprendesse crochê, mas não tenho vista pra isso rsrs
Um abração Letícia, amei teu blog, sigo o, um feliz ano novo pra ti.

Letícia Losekann Coelho disse...

Lê, incrível como teus contos prendem minha atenção. É uma delícia te ler, guria!!
Esse conto está demais e eu acho urinar quase que um fardo ahahahah
Beijos

NDORETTO disse...

Ai que lindo!!!! Lindo,lindo!!! Viajei!... Posso pedir?Escreve mais histórias,assim!

Beijos,escritora

Neusa