26 janeiro 2010

vigílias




O bom seria aprender a dizer todas as coisas. Como se faz nos filmes. Ter um script cheio de palavras todas claras. Eu queria saber dizer todas as coisas. Que não gosto de sair durante o dia e passo alguns minutos olhando garrafas se equilibrando dentro da geladeira e ainda observo a fila de formigas que sai de um pequeno buraco entre o vão da escada e caminha em direção a porta de nosso quarto. Hoje eu falaria tudo. Sem medo. Sabe quando se fala antes de morrer? Falar de arrependimento, pedir perdão por tantos erros e contar segredo de cofre? Eu falaria. E passaria o dia sem pensar em nada de tanto pensar em você. Passar como se passam estações, modas ou imagens pela janela do avião. E me apegar as nossas imagens no espelho, pelas ruas, de mãos dadas ou caprichando pra fazer o outro sofrer. É que amor é planta carnívora ou poema do Neruda? Não rima amor às espumas flutuantes, não desatina a se fechar como a flor temporã. Por muito tempo, tanto que se perde conta, fui sozinha imperando meus estados. Aquela coisa caótica de pós-modernista cobiçada em palestras e odiada em banheiro feminino. Até você chegar e que violência nos causa querer. Parece que falta ar, parece que o mundo tem fim, parece mesmo que me perdi e só me encontro quando você entra em casa e, alheio, toma banho e investiga fechaduras e dorme. Amor é mesmo uma bobagem. E veja como fico. Anestesiada esperando ficar calada pra dar tempo de você alcançar meu ritmo e, quando percebemos, somos dois sendo nada e sendo tanto e que inveja sentem os vizinhos quando o mundo dorme e nos cobiçamos. E a madrugada extasiada não sacia e mata mais que a fome de nossas vigílias.





Image by Leonid Afremov

25 janeiro 2010

casamento de espanhol




Nunca se viu tanta chuva por aqui como se viu dia desses. Até a casa de uma dona caiu. Dizem que tamanha fora a força do trovão que a casa tombou. Belo patrimônio histórico. E a outra dona passou a noite tirando água de dentro de casa que a água ia que batia nos joelhos e molhou até o teto. É Fantástico. E raios caíram, todos aqui pelas redondezas. No estádio de futebol, torcedores gritavam de alegria e euforia, enquanto na casa de Dona Maria a água engolia tudo que via. E até o computador comprado recente em centenas de parcelas sem juros, juro, a água levou. No outro dia pela manhã a companhia elétrica anunciou que tudo iria se resolver, que todas as geladeiras queimadas, tevês, todos os tipos de eletrodomésticos que foram danificados em recorrência da falta de energia (Esqueci de mencionar que um trovão afetou toda a rede elétrica aqui da região onde moro). Ou fora um raio? Já não sei. Continuando. Pois a companhia de eletricidade vai devolver tudo que fora perdido. Isso eu duvido. Estou pagando pra ver. Mas é isso. Ontem li Fernando Pessoa que tanto fala em espirais e mundo imaginário e me afundei em questões simples. Uma delas me fará perder a fé ou, talvez, andar por aí lendo a Bíblia. Não me admira tanta gente profetizando hoje em dia. A coisa não é fácil. E não finge não que eu sei que você tem medo também. No Haiti, preciso dizer? E o terremoto afetou nossa cidade também. E no mesmo dia, poucas horas antes, a terra também tremeu aqui em casa. Não senti nada, mas foi notícia. Logo, eu acredito. E voltando ao Fernando Pessoa que é literatura pura e clássica que me faz ficar de cabelo em pé a cada verso, penso eu que, se alguma calamidade nos atinge, se algo maior nos aflige ou se entra em curto a vida, de quê vale metáfora, arte de toda sorte e o paiol de lirismo de cada livro, se o homem tiver fim, se não mais existir gente, de quê valerá escrever então? Bobagem pensar nisso. Talvez sim, talvez não. Tudo está cercado de mistério e água de chuva e bueiro entupido. E, enquanto isso, que tal protegermos o tubarão martelo? Ele está em extinção. E não comentemos a ajuda dos artistas de Hollywood. São generosos arrecadando tanto dinheiro e aquela cantora negra tem um vozeirão. E haja dinheiro pra erguer a vida de todo mundo. Mas de quê vale ajuda se a sede é tanta e a fome é latente que o homem não se comporta mais como gente e vira bicho sem modos de estimação? De quê vale nossa língua se tudo que acreditamos existir decidir não mais fazer sentido? E onde eu estava mesmo? E onde estou? Sei que pareço imbecil, afinal de contas não sou Lya Luft em artigo da Veja, mas sou o que tanto se fala por aí. Um ponto a mais na audiência. Ouço Debussy, vou ao supermercado, penso em sexo mais do que deveria e escrevo invencionices porque em mim ainda há doses de ficcionismo e lirismo que me fazem recriar o mundo ou fugir de tudo por um minuto. E ainda acredito no amor igual. E por falar em amor, preciso pagar as contas e telefonar para minha mãe. E espero que não chova por tanto tempo amanhã senão a casa cai e leva embora a vida inteira que um dia eu tanto quis viver.




Image by cidaq

15 janeiro 2010

revelia





Um poema por dia. Calendário gregoriano sutil egípcio.
Vapor das ferrovias e cria da fértil imaginação fugidia.
Dama da noite por dias
Jasmim roubado,
Violado — violada,
Por ágil e evolutiva invenção feminina.



Minha revelia é azul, púrpura em diversos trajes colorida. De fina estampa estendida em toda esquina e vendida por ninharias e tanto me contentaria em ser contraste entre musas e ave-marias. Há muito venho errante, rosa vermelha embebida em champagne, e anuncio culpa aos gratos erros que me levam pelas mãos que não me temo por ser predador e, sendo mulher de minhas paisagens, de boca aberta cheia de palavras, vivo de falar mal em revoltas gargalhadas. Choro por nada, por violento apego, e não me eximo do desterro que ao mundo é trajeto e breve será destino. Desgarrada de meu bando, caço aos nortes e aos mares de todo o canto, meu nome, meu ego, minha desvirtuada e traiçoeira matéria, que sou feita, que sou pele, que sou muda, que sou cega, que me nomeio Panaceia e sigo outras manadas a violar estradas em próspera e desvairada epopeia.




Image by Adnil

13 janeiro 2010

do delírio dos sentidos




"Amo-te mínima como quem quer mais
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha."

(Hilda Hilst)



À tarde amena transitória vi teu corpo. E não tardei a querer o que nunca por vida havia visto. Tendo eu enxergado a ti, de minha branda voracidade de gente tímida, de um beijo de língua, de um beijo francês no qual te assumo minha parte, meu prazer, meu sudário pálido que desejo a cobrir-me em claras noites, tanto quis. E, ao volume do rádio, uma canção tardia dizendo estradas, eu queria um drink e uma fisgada de tua língua. E ainda quis mais e, por subverter o sentido das coisas, minha vontade por ti coagida, insana e verdadeira, flagelada como os imprudentes poetas marginais, deixei-me amargar em teus desejos e não movi opostas declarações espontâneas. Menti como aprendi a fingir depois de um drink e o corpo, trapézio a ti devoto, úmido se rendendo aos teus punhos, quando então abri a boca e libertei a palavra que seria de mim o maior pecado e de ti faria ser consagrado. Uma cereja entre nossas línguas e à noite não tardaria. Mas o medo em suplicar o que meus olhos tanto queriam ter fez-me partir. Abandonei o desejo por medo ou terá meu corpo realmente sentido a existência de teu corpo pleno em pungentes e imensos movimentos? Ainda a duvidar penso em ti e trago o gosto em minha boca. De delírio em dolorosa dormência de todos os sentidos.





Image by pedraxas

09 janeiro 2010

fábricas




Nuvens fabricando estrelas e há de merecê-las quem dos céus as vê. Sólidas matérias lúdicas encantam sempre nuas os olhos de quem passa, de quem se atrasa e do homem que vigia da praça as casas, preguiçosas e atrevidas, ao silêncio das galerias, a espera de um outro sol que vive por nascer. E o homem que caminha lento em seu passar avisa que há de velar o sono das bocas entorpecidas e das crianças adormecidas que cálidas repousam sem saber que fabricam as nuvens as estrelas e entre gametas surgem novas crias e o mundo dá partida ao trem que é vida e, da noite ao dia, diversificados em vastas categorias, solitários tomam-se por dois em binárias e perfeitas multiplicações.





03 janeiro 2010

equinócio



Minha casa não se ergue em rica balaustrada. Segue à risca o vapor dos rios, mantendo distante a cidade de caros homens e negociantes e nada há de sutil em minha moradia. Pobre de reentrâncias, raquítica de elegância, permite que seja vista minha casa o tempo, embora poucos façam dela a olhar atento bela vista. Ela se estreita entre o céu e o astro hemisfério, de simplórias paredes cogita distraída, e seus tijolos ferem minha pele e suas quinas paralisam minhas ventanias com suas farpas e dentes que de mim fazem ornamentação. Não exibo milagres de onde moro. Habito como se fosse animal quase sem vida arriscando ainda ver a luz do dia. E aposto com Deus que deste dia não tardarei. Porque a morte respeita a reviravolta do talhar do tempo e, reconhecido meu equinócio de momento, volto a me equilibrar. Visitas minhas não reparam na mobília, meus andares, os delírios de meu lar. Mas me percebem. Vadia a dar de ombros entre a solidão e a manhã que rompe meu sono e, se ainda recebo amor dentro de minhas vias feminis, não será porque assim o quis. É a necessidade que se adianta e assume seu canto feito relógio de parede exibido como herança. Em minha morada não há amor de sobra a dar seus olhos. Há um espírito de mulher altiva, de voz suave e seios que em leitos se desnudarão. Minha morada é a bendita reconciliação entre o esquecimento e o mover de eventos que traz de volta pessoas que destas horas se distanciam e pernoitam em mim por bruta e desumana teimosia.




Image by felix eddy