02 fevereiro 2010

stand by






Saudades irracionais, temporais e fumantes fazem fila na saída sul. Tirei o dia pra andar. Caminhar e ver o que não se mostra em artigos de revistas. Comprei dois pares de brincos, uma fivela de cinto que nunca vou usar, mas precisava comprar e tomei café enquanto pombos, em voos rasantes, deslizavam suas barrigas no piso sujo da avenida. E ninguém alimentava os pássaros. Chocada com a cena, comprei pão francês e fui alimentar os pobres coitados abandonados pombos mensageiros de tempo. Plumagem cinza, carros passam, carros estacionam e o motorista atarefado alisa a testa de suor e eu penso que não faço parte da cena. Teatro de um só. Monólogo insuportável e cantarolei um trecho de Heaven Can Wait da Charlotte Gainsbourg. Enquanto alimentava os pombos, cantarolava e me sentia louca ali na rua porque tudo que sai do ritmo é confuso e, se ninguém te entende, você tá perdido. É preciso que alguém te entenda porque, uma hora ou outra, você vai dar de cara com a necessidade de falar e falta de orgasmo causa sérios males. Eloquentes. E nem causa solidária te salva. Não adianta bancar mártir, Salvador Dalí de bigode aparado ou soldado desconhecido. Acontece esse frenesi na alma da gente e banco a louca e você me banca? Tá na cara que não sabe do que estou falando. Deixa pra lá. Essa eu deixo passar. Não explico nem recito e odeio Neruda mesmo que ele tenha poemas perfeitos eu não aguento. Neruda me faz lembrar alguém e lembrança não me faz bem agora que alimento pássaros. Quero lembrar do futuro e sei que isso é impossível. Mas eu queria lembrar de como eu estarei em alguns anos. Talvez mais serena, carregando neto e comprando Reader's Digest e lendo Saramago. E é claro que vou me importar com tudo mais no mundo e esquecer meu umbigo na porta de casa. Um dia a gente se cansa de ser egoísta, de exaurir chauvinismo, de se proteger da chuva. Sempre quis sair de casa e não levar guarda-chuva. Seria meu sexo sem proteção. Seria o eu que sou exposta e sem maldade. Mas eu sou um pouco má. Desejo coisas ruins aos meus inimigos. Coisas simples. Nada drástico. Desejo que fiquem gripados e não saiam de casa pra ver o sol se pôr e que não encontrem amor e percam as chaves de casa. Mas é só desejo mesmo. Nunca vai acontecer. E, caso aconteça, tenho álibi comprovando que sou inocente. A gente sempre é inocente durante o dia. À noite, nas horas de apagar a luz, tudo fica mais pesado. A não ser que se tenha companhia. E, mesmo assim, certas companhias são inúteis. Sabe aquela coisa de gente que tira você da solidão e não sei o quê mais lá? Pois é. Gente que nem te conhece direito, mas você leva pra casa e acaba fazendo bobeira e arrependimento não mata, mas destrói alguma coisa que só você sabe o valor e ninguém mais. Não vou falar muito nisso porque é assunto que fere e não gosto de ferir falando verdade. Eu me contento em alimentar os pássaros enquanto duas meninas passam por mim e falam alto e tudo que dizem me parece estranho. Alfinetadas em suas silhuetas, falam com sotaque agudo e contam vantagem da vida que, provavelmente, não têm. Existe gente que mente tão bem que chega a ser louvável. Mas não falo mais em mentira. Já escrevo. Sou a mentirosa completa. Pega em flagra. De arma em punho. Essa é a mentira maior. Enquanto se inflamava em mil egos a torcida do time adversário, eu olhava os pássaros em voos rasos e velhas atravessavam a rua e eu mentia com o olhar. E com as palavras mudas também. São as piores. Palavras mudas e acreditar que tudo na vida tem um sentido. Tem nada. Prefiro o abismo das múltiplas vias e vivo a vida de todo mundo e principalmente a minha que mente pelos cotovelos e trafega de um lado a outro da cidade e sou de qualquer nome e se me dispo, disposta ou não, me mata porque só vivo uma vez a cada noite e você só tem uma chance. Ou enlouquece comigo ou acorda cedo, ata bem teus nós e sai desbravando mundo descoberto há milhares de anos. Eu permaneço cantarolando e alimentando pássaros. Passa carro, passa tempo, passamos você e eu e não esqueço que o mundo não é meu somente. Ele é meu e de todo o resto que sou. Egoísta não é adjetivo em minha casa. É ordem, manifesto, medicamento manipulável e vivo de mão em mão porque se você diz que o mundo não é meu, vingativa que sou, caço paixão de todo enlevo e me detesto quando não faço drama. Armo tendas e faço demonstração que traga coragem aos tímidos dramáticos e expurgo toda gente chata que se enquadra em sonho certo. Na verdade, ainda sonho a mesma porcaria. Cerca branca, violão, sede e liberdade. Na verdade, parei no tempo desde o dia que a gente decidiu que era fim. E fim só é quando acaba a vida. Enquanto não, ainda acredito nos teus ideais imbecis e vamos vencer sim. Segura bem firme minha mão e vamos à praia de manhã bem cedo. A gente vê o sol, céu, prédios em construção e, com sorte, a gente talvez volte a acreditar que o mundo ainda é o nosso quarto, a casa dos teus pais e aquela mala antiga que você carregava dizendo que iria fazer vida. A gente sonha demais e isso é contagioso. Sem cura ou desculpa. Sonhar faz a gente ficar um pouco mais real. Talvez. Volto pra casa e acendo a luz antes de entrar na sala. O porta-retrato ainda manifesta teu rosto sorrindo, mas o resto me constrange. Não sei bem explicar porque esquecer não é meu forte. E lembrar também não. Eu gosto de pensar que um dia teus ideais terão sentido. E gosto de ler à meia luz. Mas fica certo de que nada é tão agudo quanto o que digo. Dói existir sem contemplação. Por isso alimento pássaros. Por isso me alargo no chão da sala e olho o teto marfim que nada tem de mim. Abro a geladeira e você esqueceu coisas que não são minhas. A parte mais áspera da separação é sair catando coisas pela casa e encontrar foto, peça de roupa, presentes comprados durante viagens. Decerto que você nunca será um estranho para mim. Nem amigo. Nem cão de guarda. Será lembrança de um tempo em que a gente acreditava ter muito por viver. Eu tenho. Acordo cedo e pego o trem e maquiada olho ruas e faço graça de gente que recicla tudo e, na próxima esquina, joga lixo no chão. A culpa não é tua. É que a gente se desfaz feito barquinhos de papel na chuva forte ou fraca e já chega de arrumar desculpa. Segue, mas não me esquece. O pior disso tudo é abrir mão porque perder a tua adorável plateia me olhando da janela quando eu atravessava a rua era o meu instante. Eu só queria mesmo dizer que era bom, que fui feliz, que, diante de todos os atropelos, você era o tal. Mas não digo. Não faz mais sentido. Depois que a porta se fecha e chaves são devolvidas, melhor é seguir com pressa. E rezar. Ou comprar pão francês e ver da praça que o tempo passa e leva tudo de uma vez. E de nada fica um pouco. Tudo fica. Um montante de coisa pra jogar na cara e piedade seguida de gentileza porque alguém precisa ser bom. E amizade quero não. Minha civilidade termina quando dei por tantas vezes meus dias e acabo aqui, nesse fim de linha de voz que cala, pássaros e você passeando na contramão e fingindo que não me vê, que meu viu, que tudo se resolve com o tempo. Pra ser sincera, odeio otimismo. Porque sou péssima quando finjo. Prefiro dizer que esqueço. Prefiro as ruas entregues aos carros e as pessoas que sorriem de graça quando a gente passa. Me sinto mais humana depois do fim. E, caso precise, posso ser de novo o que nunca tive coragem de ser. É que atuar na vida nos vicia. Lavo pratos e a lua parece maior, o silêncio trinca as vidraças e vou pra cama sentindo falta de quase tudo e quase nada.