30 abril 2010

íntimoutono



Outono, outonais e ervas daninhas se multiplicam em quintais. Tempo de colher, de carregar de volta a casa o que antes era broto e agora maduro se declara. Provo do fruto e adivinho chuva, adivinho tempos e, mais tarde, sairei pelas ruas observando ruírem tortas as folhagens dos jardins. Mas nunca vivi de angústia. Sempre tive, por obra divina, felicidade e paz em minha vida. E agora procuro o que se desfaz. Números antigos, vozes de um passado distante, tudo que está fora de alcance, tudo que não me pertence mais. Sofro? Passarei pela tortura que desnuda árvores e mostra suas vergonhas, a vergonha das plantas, a dor aguda que despedaça flores e o verde opaco das estradas que nos levam tempo afora? E transita por mim a bela menina que a cada esquina se olha em janelas de carros estacionados e se considera bonita a menina e por que ninguém a toma de assalto, de amor, de querer? A solidão que parece brotar da epiderme é companheira de outra senhora enamorada de marido morto, tolo, que um dia fora visto traindo a mulher em parque aberto sob os galhos retorcidos de uma caducifólia. Estas espécies que nos enganam, sempre nuas, quase sempre nuas, quase sempre perfeitas, carregando apenas uma dúzia de pequenas folhas em seus imensos braços. À escassez múltipla das palavras, redijo meu diário. Saio, trabalho, respiro engodo, gente de mau gosto, gente feia, sinto náuseas na frente de estranhos e sei, por mera sabedoria, que estou bem. Mas saberá de mim o tempo? Que seja outono ou que rastejem misericordiosamente os meses e logo será outro tempo de mutação entre as diversas categorias de seres que somos. Desejo apenas encerrar silente o dia e acreditar que, à madrugada, a cada instante, estarei ainda salvo respirando à janela enquanto árvores retocam suas matérias e se deixam devastar. Será a morte o início de outra vida que toma de nós tudo que temos? Tremo ao pensar. Invejo o futuro e o fruto que de mim não vingará. Meu retrato, porém, permanece íntimo das coisas que renascem ao dobrar do tempo, ao indiscreto manuseio das ausências, ao ir e vir de acontecimentos. Às árvores, o cenário. A mim, o esquecimento.




Image by pesare

28 abril 2010

obediência






Hoje ele se afundou em mim deixando sair de sua boca seu mantra masoquista, sexista, egoísta e sufocado em compaixão. Quando pensei que seria o fim, recomeça o homem a escavar meu corpo e eu não encontro formas de mover minhas mãos. Enfim, enjaulada a presa atraída por um beijo. Penso em tantas trivialidades durante o sexo. Unhas e esmaltes, livros empilhados, terremotos, serpentes, olhar bem nos olhos e fico quieta porque sei o que ele deseja. Meu silêncio, minha angústia, minha risada de quem entende e ainda me pede ordenando que eu o faça. Meu orgasmo é ato público de exibição mambembe. Contorce o corpo a mulher e chora e ama e o homem é único quando me desmancho. Eu me desfaço quando ele me eleva ao ritmo de prender respiração e beijar morrendo e o espetáculo nos ostenta e são noites e dias mudando meus hábitos e respeito ordens do meu senhor. Trêmula rastejo, lambo seus dedos e me torturo sozinha de pernas ao ar porque é assim que ele me quer. Ele que tanto me envenena ao se alojar em mim e deixar seu sangue, restos da rotina, palavras recortadas de jornais e os tons agudos de uma vida de amor e cólera. Tudo ele despeja em mim. Atiço o animal que de mim exige atenção. Uivos e manifestações de feminilidade. Salto alto, lingerie e chora meu amor que decoro seu pranto. Saio rindo ferida e aberta feito cortina rasgada que não esconde o sol. Católica e pecaminosa, beijo a boca do homem tantas vezes e penso em tocar com as mãos e tocar com os lábios e divergir e fazer com que sinta raiva porque não me abismo em tão gentil firmeza. Sofro quando me ama e sofro mais na solidão. A isca presa ao anzol. Deixa dormente e exausto meu corpo, mas é alívio servir de alimento. E todo meu querer há de ser violento. E nada em meu amor há de ter razão.






Image by weathered182

21 abril 2010

post scriptum




Que é um conto? Um trem esperando passageiros ou um homem fechando o zíper de sua calça jeans ao meio dia em pleno estacionamento de um shopping ou uma tartaruga se protegendo da chuva ou as lágrimas de uma solteirona se aglomerando dentro de um barril? Ou será o intervalo do recreio e a menina que inveja sua amiga que tem cabelos compridos e faz sucesso entre os meninos? Vejo a literatura tomar vida. Navio chegando ao cais e o asfalto cresce feito mato que não há praga no mundo que o destrua. Ele, o asfalto. Mas falando em conto. Começo, meio e fim e um monte de acontecimentos pelo meio da estrada e um clímax que pode ou não ser bom para você, mas, com certeza, será bom para mim. Acendo um cigarro e fumo. Orgasmo deveria ser mais democrático, não acha? E diz o conto que um homem, aparentando 30 anos, voz grossa e cabelo grisalho, entra na casa da Senhora M. e faz, de uma simples noite de outono, uma calamidade pública. O tal homem entra, diz que é conhecido da família, toma chá na sala de estar e logo diz a que veio. Mas, antes disso, há uma minuciosa descrição física da Senhora M. de seu marido Senhor J. e da filha do casal, a menina G. Depois das devidas descrições, a história segue letradamente, quando, enfim, a verdade apoteótica surge e abra os olhos, leitor, o conto está para contar. O homem, por motivos aqui não relatados, tira de seu casaco uma carta que muda o destino da família que morava tranquilamente no subúrbio de Paris. Fim. Conto é o que conta fatos, picota o tempo pra dar tempo e segue definitivo gerando conflito e arremata em um acontecimento crucial. Ou não. Há contos que terminam pela metade. Ou seria o fim a metade? Será que todo conto tem clímax? Será que toda narrativa segue regras ou se rebela por anomalia intelectual do escritor? São indagações dignas de um conto. Talvez gótico aterrorizante ou urbano ou metafórico ou um bote perdido no meio do oceano. E, no meio do tempo, o homem que fecha o zíper e limpa as mãos nos quadris, entra no shopping rindo de feliz. Nem suspeita o homem que sua história fora observada, descrita, lavrada e logo será contada, detalhadamente, por algum ser vivente que escreve ou mente ou talvez aumente, palavra por palavra, a vida que nos retrata diariamente.



06 abril 2010

andando pelo mundo

O Cronópios tem sido um lugar onde me faço e refaço em leituras. Quando Germano Xavier me apresentou o site, eu andava por demais ocupada com meu umbigo. É incrível como se pode esquecer que há um mundo fora de nós e que há gente trabalhando e fazendo outras histórias. Então divulgo um filme de Pipol e produzido por Elaine Xavier e Ricardo Biserra. O filme mostra fotografias, voz e sabedoria de um fotógrafo que, de forma simples, fala de um mundo de imagens que contam histórias.

Basta clicar na imagem.
E que todos tenham uma perfeita sessão de cinema de grande qualidade.







Um beijo para todos.

04 abril 2010

indecorosa




Solitárias caminham dilatadas em minha língua diversas palavras que nada dizem quando encerradas no silêncio entre a timidez e um copo beirando a água. Hermética à fonte do desassossego, confusa de pai e mãe, segue muda entre imagens e sons que povoam minha imaginação porque mal existo quando finjo ou quando despem opiniões acerca de mim, que será um dia algo, que será memória de alguém. Ela diz, ornamenta, ostenta e, entre os muitos que somos, existe ela que é a mais louca de todas as outras palavras que já ouvi. Diz que ora sim, ora não, faz sentido, sequer existe. Corajosa, ruminando o que digo, ela vai de ouvido em ouvido espalhando o dito e, me fazendo presa, esqueço que liberdade é parte e todo o resto é prisão. Se falar, despeja sobre mim seu ato que sou palco e me alucino ao ouvir palavras. Não demora, não afoga a rima em covardia nem me deixe ao desesperado vazio de uma lembrança tardia. Pois que me aborto das obrigações desse mundo e, tonta, viciada no ópio das horas, espero a palavra dizer de mim. Canta sua palavra e não se refugia em decente oratória. Palavra não cora e, mítica, nasce da vertigem entre o início e o fim de toda e qualquer história.




Image by JahazielMinor

01 abril 2010

quadro mudo





Na parede onde antes quadro havia
Ao zombar da imensidão vazia
Um prego torto desperta
O incômodo de vidas partidas.
Ausente da inebriante espera,
O tranquilo homem alveja,
Com olhares sábios de guerra,
Palavras inimigas alheias.
E não somente a parede emudece,
Muda harmoniosa lhe aborrece a verve
Maluca mordaz inquieta,
Desconcerta a vida secreta,
Do ingênuo homem que erra.
E ao zombar rindo-se do outro,
Que dentro de si vive em urgências,
Calado pálido irrevogável
Homem esfinge de farpas,
Adormece emoldurado pelo tempo.





Image by robrey