30 junho 2010

álbum de família







Eu colecionava papel de carta, sabia? E colecionava boneca de papel. Aquelas bonequinhas que eram vendidas em bancas de revista. Sempre que arranjava uns trocados, eu ficava feliz e comprava boneca de papel. Depois passei a colecionar outras coisas. Cresci. Colecionava fichas telefônicas. Não tinha telefone em casa. Saía catando orelhão que não fosse muito disputado pra poder ligar pro namorado. A gente se falava todo dia. Cada um com sua conversinha de amo você até morrer. Colecionava fichas telefônicas e conversas pra boi dormir. Assunto chato, não? Quer ver meu álbum de família? Abre o álbum com a boca cheia de saliva. Como se a vida fosse mais atrativa através de fotografias. Às vezes é.

Esta sou eu.

Aponta pra uma criança vestida de azul e um monte de gente ao redor da menina.
Eu de azul, minha avó materna, um amigo da minha mãe e meu tio. Dia de aniversário, eu acho. Vê? Minha cara de enjoada. Sempre fui assim. Tenho cura não.

Deu risada ao dizer que era desajustada.

Mas, pensando bem, todo mundo é desajustado. Você, por exemplo. Você tem parafuso solto. Pra ouvir minha conversa, só pode ter problema. Você sofre de quê?

Prende e solta o ar.
Vamos deixar de falar filosófico. Vamos às fotos.

Outra.

Minha família quase toda nesta fotografia. Dia de batizado. Tá vendo esse menino aqui com a boca cheia de aparelho? Meu melhor amigo de infância. Não sei o que a vida fez dele. Deve ter se casado, se lascado, se fodido. Os dois riram dessa vez. Por que você sempre acha que as pessoas estão sempre na pior? Tem gente que vive feliz, sabia? Outra risada. Juro que não sabia. Acho que sou compulsivamente pessimista. Meu amigo de infância deve estar bem.

Algumas fotografias depois.

Tá vendo esse velho aqui no canto? Este de camisa vermelha. Velho safado. Só agora eu lembro. Ele costumava chamar a gente, minhas amigas e eu, e dava balinha pra todo mundo e pedia pra cada uma sentar no colo dele. Hoje a lembrança me vem toda embaçada. Mas eu sei. Ele ficava me tocando e me incomodava aquilo tudo. Mas eu era criança demais pra ver maldade. Se eu pegasse esse velho hoje, quebrava a cara dele. Nunca contei isso pra ninguém. Só pra você. E não precisa guardar segredo. Não sinto vergonha. O ruim é que não lembro se o velho foi mais adiante. Só lembro das mãos e do cheiro de roupa antiga. E ele penteava meus cabelos.

Pausa para nicotina.

E foto vai, foto vem, esta sou eu caindo na noite. Era assim. Saía todo dia. Eu vivia fora de casa porque era melhor. Meu pai era insuportável com aquela cachaça. Então eu saía. E não se espanta com a minha magreza. Eu era um palito. Quase não comia, não dormia bem e ainda acordava cedo pra ir à escola. Deixa ver se acho foto da escola. Aqui. Uma foto. Todo o pessoal do grupo de teatro. Gay, gay, gay, galinha, eu, galinha, sapatão. Espera. Você é sempre assim? Sempre fala mal dos outros? Mas eu não estou falando de ninguém. Só estou falando a verdade. Meus amigos eram gays e ninguém contava nada pros pais. Naquela época não. Hoje é diferente. Tudo fica diferente tempos depois. E você? O que era então? Gay, galinha ou sapatão? O quê? Eu era avariada. Palavra concebida por uma gargalhada e os dois riram. Esquece. Não vou ficar te julgando não. São tuas fotos. Você conta a história, então.

Pausa para o beijo.

Foto de formatura, de gente que não conhecia, de prédio, avião, foto da cara, da boca, do nariz. Um monte de instantes se abrindo ali, na frente dos dois que olhavam. Examinavam roupas e diziam dos costumes. Bons tempos. Passado sempre é bom. Mesmo na maior desgraça, o passado é sempre o melhor tempo. E não sou eu quem digo isso não. Todo mundo diz. Eu concordo com você. Eu era feliz. E o pior. Era feliz e sabia.

E esta sou eu casando. Olha a igreja. Não é linda? É linda sim. E você também é linda. Pára com isso. Odeio elogio. Fico sem jeito. Eu deveria ter fotos do divórcio também. Não tenho. Por que será que a gente se esquece de ser comum em tais momentos? Eu registro tudo. Deveria ter registrado o divórcio. Parece que a gente casa pensando no fim. Você tá exagerando. Nem sempre é assim. Meus pais estão juntos até hoje. Até hoje é uma eternidade, não acha?
Pausa para o silêncio que envolve questões filosóficas, religiosas e nostálgicas.

Chega de foto. Você tá ficando pra baixo. Acho que estou mesmo. Esquece tudo isso. Fecha o álbum. Melhor. Joga no lixo. Não posso jogar no lixo. É minha vida, poxa. Minha história. Eu até concordo que seja tua história, mas não seria melhor esquecer? Acho que não. Quando a gente tenta esquecer é que a coisa existe mais. Entende?

Pausa para concordar.

Álbum fechado, cigarro apagado e uma foto para nos registrar. Click. Tempos após, revelada a fotografia e alguém sorri ao lembrar do dia. No verso, escrito com caneta cor de rosa, palavras para o futuro.

Eu e você (Seguidos de data e referência geográfica).

E, logo abaixo, escrito com letra tremida, eu e você dois dias antes de você partir. Por que será que a gente morre? Você adoraria estar aqui para me responder.

Por quê?





Image by drawManou

25 junho 2010

too much sugar for my coffee





Too much sugar for my coffee
I swear I'm strong enough
But, please my Good Lord,
Away with this misery.
I've been buried even before
Someone declare my death
I've been murdering
Guilty
Even before I shoot someone
In the eye
I'm fortunate enough to take life
Easily
But I'm too much human to take life
Completely.





Tupi or not Tupi?
Não me atrevo a traduzir.




17 junho 2010

burras criaturas







Você pensa em Deus? Pensamento intrusivo enquanto você olha pelo retrovisor e espera a multidão atravessar a rua. Todo mundo de passo largo. Um bando de objetos da mesma espécie. De pernas e braços e todos sonham recheando o futuro de cansaço. Multidão de gente igual a você. Que coça os olhos de sono e pensa que ninguém vê seus vexames de solidão, suas chances gastas de tantas tentativas, seus medos de criança que nunca irá ao médico sem a presença dos pais. Talvez você ainda seja a criança correndo no meio da noite a procura da casa de seus pais. O corpo cresce, mas todo o resto permanece feto, embrião, óvulo que seja fecundo pelo bem da família. E ao esconder as mãos nos bolsos ou acender cigarros alguém verá que sua voz embarga engasgada por tudo que faz doer sua existência e a necessidade ensaiada de ser produto que traga frutos e que seja próspero o lucro de seu trabalho. Será que Ele pensa em você? Terá Deus tempo de pensar em você? Enquanto você dorme, ou sofre suas insônias, ou açoita suas ilusões dizendo que não viverá, que não poderá, que não terá coragem de seguir o apressado ritmo das coisas. Ele estará de sobreaviso sabendo que talvez você precise? Talvez ele nem exista. Você pensa que talvez Ele não exista. Será mais fácil enfrentar a vida acaso Ele não exista? Lavar cabelos e praticar futilidades. Fazer sexo de forma suja, pornográfica, enchendo a boca da imunda oralidade das ruas vivendo sua plena e insensata forma de amor. Terá o Criador compaixão pelas burras criaturas afetadas por remédios, sedentas pela química que faz com que atravessemos dias sem que nos vejam sofrer? Saberá o Ser Maiúsculo o quanto você se arrepende frente ao desejo inconsciente de pedir perdão porque errou em desmantelo e não há mais volta? Tempo é carretel de linha curta. Se esvai na miuda costura que governa a envergadura de toda espécie. Se esvai nos costumes e na moral que nos alinha para que nada saia do enredo. Somos cúmplices da vida. E existe a vontade de ser ator e viver do improviso. Mas é um grande risco a se correr. Há perigo. E, após olhar o retrovisor, você decide esquecer tudo em que pensou. Pensar enlouquece. Melhor viver feito marionete. Melhor obedecer.





Image by Anna

13 junho 2010

dragões solitários





Cheguei, tomei outro banho, outro cigarro e você não está gordo. Está perfeito. Bonito de dar nó. E ainda não entendo por que tem vergonha de ficar sem camisa. Eu não tenho vergonha do meu corpo. Mas aí pensei: Cada um, cada um. Quando nos reencontramos (Você percebeu?) parecia que a gente se conhecia (conhece) há anos? Um casal antigo, vestindo jeans e você fica lindo com essa barba e a voz de lunático perdido no caminho. Te amo. Já te disse? Digo de novo. Te amo. E a combinação também foi perfeita. Quebra cabeça completo. Cheio de estilhaços. E a gente fala o mesmo dialeto. Língua da mesma pátria. E percebi que estava cansado querendo dormir. Mas agora você tem colchão. E travesseiros floridos. E tapete pra não molhar o quarto quando sair do banheiro. Escolhi dois tapetes. Verde e azul. Gosto destas cores. Gosto de você. Gosto não. Te amo. Já te disse? Digo de novo: Te amo. E olhamos pessoas com seus carrinhos de compras. Já reparou que todo mundo nos olha como se a gente fosse um casal colado apaixonado fazendo maluquice de andar pelas ruas escuras de seu novo bairro? E você agora tem duas cadeiras, cama, janela branca, uma mesa e o quarto do tamanho de um banheiro. E foi bom. É bom ver teu rosto aceso quando a luz adormece. Fico de ponta cabeça (cabeça pra baixo) decorando teus traços. Será que você sabe o quanto penso em você com meu coração? Um pouco de Legião Urbana pra terminar. Ou começar. Agora que é começo do mundo. Nós dois todo o tempo e nossas mentiras literárias fazendo nosso estrondo de amar por inteiro o que não pode ser metade. E sabemos o caminho de casa: Direita Esquerda Volver. Os soldados agora dormem quase em paz. Porque amor não é pacífico. É homicídio flagrante deflagrado. E te amo de novo só para deixar bem claro. E acordo tarde e faço maldade porque gosto do amor que arde. Gosto tanto que me espalho. Olhe ao redor e veja que estou em toda parte. Amaldiçoando teus dias, chovendo no molhado e engolindo o fogo de teus dragões solitários.




Image by vishal misra

06 junho 2010

hermafroditas




Tem hora, quase todas as horas, queria mesmo estar com você em qualquer lugar do mundo. E este lugar seria único. Queria estar em um quarto do tamanho de um banheiro. Queria mesmo. E neste quarto do tamanho de um banheiro (Um banheiro bem pequeno. Modelo dependência de empregada), a gente poderia viver de amor, de verdade e de mentira. Feito gente louca olhando pra lua e rindo da vida. Talvez seja exagero. Mas eu seria feliz dentro deste quarto do tamanho de um banheiro. Que não coubesse nem cama, nem cômoda, nem nada. Só dois livros. Livros que ficassem em pé. Eu já escolhi o meu. Vou ficar com O Jogo da Amarelinha. Este livro, você, e o quarto do tamanho de um banheiro. Escolhe o livro que você quer levar que é pra gente ler um pro outro. Em voz alta, minha boca roçando na tua boca, beijo de língua e o corpo feito um só. Eu não preciso de muito espaço. E não quero guarda-roupa. Fico com a roupa do corpo. Ou nua mesmo que é pra não perder tempo. E da gente já conheço o enredo. Sempre vem aquele momento de um não querer olhar a cara do outro. Ficar feito mudo com raiva de tudo. A gente é assim. E no quarto miúdo talvez não dê pra ficar sem olhar a cara do outro. A não ser que a gente fique de costas e não se olhe. Talvez por uns 15 minutos ou mais. Seria o intervalo necessário pra sentir saudade. E depois a gente se olha de novo, fala muita bobagem e você vai me contar o fim da história da mulher de vestido vermelho. Da penúltima vez que ficamos juntos, lá no apartamento onde tudo começou, você veio me contar a história da mulher. Falava feito velho. Usava tanta palavra rebuscada. Mas eu gostei. E agora que a gente já tem um quarto, mesmo sendo pequeno do tamanho de dois passos, você chega e me conta o fim da história. Vou rir. Sei que vou. E a gente aproveita pra ficar naquela coisa de abraço e beijo e eu fico de costas quantas vezes quiser porque adoro provar que pertenço. E o quarto terá janela com vista pra tudo. A gente olha chuva cair, brinca de contar passarinho em fio de alta tensão, observa avião passando e a gente pode até imaginar a ilusão na cabeça de cada passageiro daquele avião que nem imagina que a gente tem o mundo inteiro dentro do nosso quarto do tamanho de um banheiro. Nem um passo mais e eu te beijo. E não tem fuga. O quarto já existe. E a gente leva a vida na cabeça e na boca. E nos sonhos e dentro de uma taça de vinho. Ou no respaldo de mágico e teatro da fumaça do cigarro. A gente cola no outro feito irmão que nasce junto. Feito mãe e filho. Feito nós dois que sempre fomos um só desde o início. E nós já temos o quarto. Agora só nos falta enfrentar o curto e caótico percurso de acordar e dormir beijando o inimigo.



Aos que passarem
Atrás da imagem
Uma boa surpresa
Quem sabe


Image by R. laro

03 junho 2010

pré-madura



"I know what it's like to be dead.
I know what it is to be sad."

(The Beatles)


Uma semana após a explosão que não houve da bomba atômica que não fabricaram, descobri como se faz uma canoa. Madeira, pregos grandes e muita força de vontade. E também descobri que não tenho fotos de quando era criança. Aliás, recém-nascida. E isso me perturba porque é como se eu não me conhecesse. Eu não sei a cara que eu tinha quando eu nasci. Bobagem aflitiva que me causa insônia, agonia e ainda bem que a janela não me cabe. Eu me mataria para saber que cara eu tinha quando se fez dia em minha noite uterina. E não tenho mais sossego. Eles ligam todos os dias. Cartão de crédito, instituição de amparo a deficientes, meu fornecedor de ervas daninhas e eu ligo para minha própria casa para saber se alguém vai atender. Faço isso quando não estou em casa. Ligo para me certificar de que a casa ainda é minha. Que a casa não fora tomada por seres interplanetários, ladrões, familiares. Minha condição de viver é sólida.

Sozinha solitária solidária autodidata.

E aprendo coisas todos os dias.
Tais como:

Efeito dos raios ultravioleta em meus cabelos molhados: Descobri que, após 10 minutos ao sol, meus cabelos secam.

Tempo de exposição à TV: Descobri como me torno idiota assistindo noivas em busca de vestidos ou cirurgiões esticando caras e bocas. E fico idiota em pouco tempo. Dois minutos apenas.

Amor descrito por Cortázar: Leia O Jogo da Amarelinha e saberá que, se disser que sente amor, ele passa a não ser amor. Então é melhor não dizer ser amor o que é amor porque perderá efeito o sentimento se o fizer razão. Ainda estou praticando esta teoria.

Fugir das responsabilidades: Descobri a facilidade na equação. Logo, após ter me tornado idiota, percebi que todas as coisas as quais damos nomes carregam o peso que colocamos em seus ombros. Então peguei minhas responsabilidades e as considero agora coisas fúteis. Desta forma, não tenho urgência em nada. Trabalho com os pés nas costas e acordo disposta. É mais ou menos como pensar em amor.

Efeitos do sexo: Não tendo acesso a sexo, venero dias de mau humor e procuro substituir tal prática corporal com muitas doses de televisão e cigarros apagados em lugares inesperados. Logo, fumante excessiva sem orgasmo e cada dia mais idiota.

Ser idiota é bom: Não há como não ser. Dizer-se idiota é como poder soltar a respiração. Ninguém culpará você se acaso você se deixar ser idiota. Os idiotas governam o mundo. Nada melhor que viver sem receber aleluias. Teoria baseada em toneladas de carboidrato e doses de vodca.

E, por fim,
Novela das oito
Exercitar crenças
Galã ou galáctica
Modelo ou larva
E cadê a Glória Pires que ninguém mais vê?





E ouça o Revolver.




Image by aiden