31 julho 2010

o tal bilhete esquecido





Seremos sempre motivo. De beber vodca ou cair de bruços em uma tonelada de páginas de muitas palavras cegas, afiadas e diversos vocábulos indefinidos. Você não foi embora. E, se realmente foi, ainda não sinto. Parece que deixou a casa aberta, luzes acesas e, como li certa vez, deixou a geladeira cheia. Mas você não é suicida. É apenas louco. Horacio falando demais e fumando em francês. Tudo que leio existe você. Então, assumindo que livros são eternos (até os piores), deixo clara sua posição. Eternidade não é adquirida. Nascemos com ela. Você é uma das poucas pessoas que consegue existir o tempo todo. É difícil explicar. Mas, a cada olhar que desvio em qualquer direção, você existe. Até em um maldito jardim ensopado de chuva. Falei que seria incurável. Porque, uma vez atolados no mesmo espaço de ego e consternação, não se pode deixar. Podemos fazer mala e cuia. Podemos até apelar para divindades que nos ajudem. Que nos salvem. Talvez falar com um amigo ou dois e pedir conselho. O que está feito, está feito. Esquecer não depende de nós. Esquecer é bruxaria do tempo.




Image by Yi Ran

30 julho 2010

pluct plact zum

Aprendi com meu avô, que era caixeiro viajante, que a propaganda é a alma do negócio. Mentira. Meu avô não era caixeiro viajante. Porém, propaganda é alma.


Para os que se aventuram a ler minhas mal traçadas linhas,
estou no cronópios.


Clique na imagem e pluct, plact, zum.









E Andy Warhol estava completamente certo.

28 julho 2010

abracadabra





1

Narrarei com as duas mãos, e um pé na frente e outro atrás, a bruta capacidade que possuem meus pensamentos robustos e irracionais. Me fazem acreditar em tudo. Sétima arte, escada de emergência, redução de calorias à base de manobras sexuais banais e decadentes e traduzo, à fina língua, o filosófico francês do jogo da amarelinha. Comedores de meu juízo. Televisivos e virtuais, andam sempre em pares e, quando díspares, nunca os vi desiguais.



2

Estou alegremente ouvindo Fiona Apple às três da manhã. Hora macabra, abracadabra e meus amigos todos dando risada. Bando de gente errada. Não fazem ideia de quem eu sou. Sumo sacerdote fêmea. Dotada de incríveis poderes sobrenaturais que de nada valem. Mas veja minha ambiguidade. Sirvo a tantas bocas e minha mesa está sempre escassa.



2/5

Poema.
Deitado de lado de olhos fechados
Ainda será poema.
Aquele que o escreve, porém, que não sonhe
Sempre o poema muda o rumo de alguém.



Passional 3

Ana C. era passional
Marginal
Mulher viajada.
Tomava chá das cinco
E contava sua vida em meia palavra quebrada.
Eu, coitada
Sou nada.
Se confesso, vou pro inferno
Se viajo, o trem emperra
Por isso me calo quieta
E não dou uma de poeta.
Me deito quieta e peço a Deus
Que me guarde, me ilumine, me desgoverne
E que eu sobreviva intacta
Aos descompassados atritos da pele.



Beijo de amor número 4

Um casal beija
No meio da praça e a criançada corre
O beijo de amor
Engole a cena
Um balé aquático
Língua pra cá
Te amo pra lá
E, do ônibus, contaminado e urbano
O público nem repara
Amor não tem graça
No meio do cotidiano.



Inquietos (fim)

O homem de boca fechada acha que não diz nada. Mas eu ouço a voz do homem calada através do olhar. Ele diz que incerta, embora crente de seu plano, a palavra respira cheia de sentido, boceja de modo tranquilo e se estica a espera do que será dito. Feito gato observando a vida através da janela do décimo quinto andar.





Image by Linnea Strid

23 julho 2010

mulheres, crianças e escadas rolantes





Patrimônio decadente do espírito urbano. Passeio mundano de gente e uma menina a se embelezar. Adolescentes, convalescentes da ingenuidade, pessoas e seus troféus e acabo de comprar em mil quilates de idiotice um belíssimo anel. A jóia se aloja no anelar e caminho entre o povo para mostrar quem sou. Marionete por vontade própria e a cidade pequena pensa ser grande e não passa de mais um aglomerado de passantes sofrendo e morrendo de fome. Fome que não é física. É moral. A ética se esconde debaixo das solas dos sapatos dos gentis maridos acovardados por solenes votos conjugais. E conversam homens armados de suas carteiras cheias de notas fiscais. Mulheres copiam mulheres. Olha a bolsa que ela tem e eu não tenho e quero ter e divido em parcelas minha insatisfeita e consumista estupidez. E correm crianças aparelhadas de artefatos medonhos: telefones, micro computadores e falam em sexo e crianças cometem estupro e morrem e se calam grandes famílias de muitos sobrenomes. E, no canto externo, ao estacionar o carro, sofre assalto o jovem que acaba de se prestar ao vestibular. E é o que há. Novidade antiga que ainda é polêmica em jornal classe a. O mundo não passa de um sorriso desdentado de um deus que nunca nos ouvirá.





Image by shadymango

21 julho 2010

descafeinados






— Tá a fim de um café?

Estendeu a mão, entregando à menina uma xícara de onde fumegava o líquido escuro.

— Sim. Respondeu ainda em dúvida. Olhos procurando ver no avermelhado da parede algum formato, um floco de neve, uma bolha de sabão. Como se fosse criança procurando formato definido nas nuvens.
— Você me parece estar em outro lugar.
— Não estou. É impressão. Estou bem aqui tomando café.
— Mas você não tomou nenhum gole ainda. Respondeu o rapaz limpando a garganta a pigarrear. E engrossava a voz o cara, 22 anos, vadiando pela vida após o divórcio dos pais.
— Você tem planos? Perguntou a menina aparentemente aérea que ainda não exibira coragem de encher a cara de café e cortar assim o efeito da ervinha que fumaram juntos no fim da tarde.
— Planos? Que são planos? E desandou com seu discurso ultrapassado de hippie fora d'água dizendo que viver sem planos é viver melhor. "Planos se desfazem".
— Planos são metas, sei lá. Coisa que a gente faz pra não se perder na vida.
— Se perder na vida ou de vista?
— Você gosta de perguntas, não é?
— Prefiro perguntas. Respostas são incertas.
— E você fala igual a meu tio de 57 anos. Você parece um velho falando.
— Talvez eu seja velho. Um gole de café açucarado por três colheres cheias e acendeu cigarrinho à Phillip Morris.
— Me arranja um?
— Você quer mesmo fumar?
— Por quê? Não pode? Vai dizer que mulher fica feia quando fuma?
— Não. Fuma aí. Largou o maço de cigarros sobre a mesa e alguns cigarros rolaram e era cigarro pra todo lado.
— Não precisava exagerar.
— Desculpa. Sou meio sem jeito.

Ela riu.

— Sem jeito? Não seria efeito da maconha que teu amigo trouxe?
— Não. Maconha não me entorpece mais.
— O que te entorpece então?

O rapaz, 22 anos, boca avermelhada, olhos castanhos e cabelos invejosamente encaracolados e lindo de tudo (a ponto de fazer qualquer menina querer fumar, se embriagar, tentar suicídio), bocejou como se sentisse tédio, olhou pros lados, viu que sua casa sem seus pais era a mesma casa com seus pais. Olhou bem nos olhos da menina e disse:

— O que você faria por mim?
— Como assim?
— Como assim. Nunca te perguntaram isso?
— Não. A menina tomava café aos lotes of Love e queria mesmo era tirar a roupa e fazer o que queria fazer desde o dia que conhecera o cara no play do prédio em que moravam.
— Estranho. Com que tipo de gente você costuma andar?
— Todo tipo. Mas prefiro minhas amigas. Elas são como eu.
— Estúpidas?
— Você tá me chamando de estúpida?
— Talvez.
— Que eu te fiz, cara?
— Não me fez nada. É apenas minha opinião. Te acho estúpida.
— Então me diz o que faço pra deixar de ser estúpida.
— Me responde o que você faria por mim. E seja autêntica.

Ela pairou pelo ar da dúvida, calça jeans e muita frescura, unhas pintadinhas de lilás e camisa de banda de rock. Então saiu a resposta.

— Eu te mataria. E, como ninguém sabe que a gente tá junto, eu me mandava daqui. Ninguém iria descobrir.

Ele riu. Risada mesmo. Meio sombrio.

— Me mataria? E como seria este grande lance?
— Primeiro a gente faria sexo.

E a menina ficou corada ao dizer isso, mas, já que estava ali, meio louca e quase tensa de tesão, largou o verbo.

— Seria coisa simples. Depois do sexo, eu te beijaria muito pra poder sentir o que as meninas todas querem e não conseguem, tiraria algumas fotos da gente pra guardar de lembrança, depois iria à cozinha, pegaria uma faca e te enfiava facadas em teu corpo todo. Sei que sujaria tudo de sangue, mas eu limparia.
— E eu estaria morto e nu. Não acha óbvio?
— Um pouco. Mas seria algo feito com requinte.
— Que requinte?

Ele estava adorando sentir a vertigem que a pergunta havia causado nos dois. Era um tipo de transe. Uma forma de curtir mais a viagem. E havia o lado macabro de tudo. Aterrorizante. E ela ria de sentir prazer.

— Meu requinte seria limpar tudo. Limpar mesmo. Depois colocaria teu corpo na piscina e te deixaria lá boiando por dias. Como sei que ninguém vem aqui te visitar, até bronze você pegaria de tanto tempo que ficaria de molho na piscina.

E ria mais a menina, acabando com o café que ainda havia no fundo da xícara e fumava feliz da vida.

— E você acha que não deixaria rastro de você aqui?
— Não. Porque eu tentaria não tocar no teu corpo. E, se tocasse, usaria luvas como se faz nos filmes e a gente teria que usar camisinha. E eu sairia do apartamento friamente que não deixaria nada meu para trás.
— É. Talvez você não seja tão estúpida. Mas anda assistindo filmes ruins.
— Por que diz isso?
— Esse tipo de crime é repetido mil vezes por aí. Já imaginou a manchete? Homem encontrado morto na piscina. Há indícios de crime passional e envolvimento com tráfico.
— Não tinha pensado nisso. Porra, mas por que você ta fazendo isso comigo?
— Só estou treinando tua mente de menininha ainda crua e virgem.
— Não sou virgem. Esbravejou, como se a ofensa fosse das piores.
— É ruim ser virgem?
— Não sou virgem, seu merdinha idiota.
— Não é?

Ele partia pra cima dela deixando tonta a menina de tanto que fazia pergunta. E ele rindo era mais bonito ainda.

— Não sou. Perdi a porra da virgindade aos 14 anos e foi bom. Comigo não tem essa de ter sido ruim. Sempre é bom.

Encheu os pulmões, soltou o ar de uma só vez e ficou passando a mão na cabeça. Coisinha de quem paquera. O cabelo caía escondendo seus olhos. Ela se sentia sexy.

— E tem mais. Faço sexo como ninguém. Todo mundo diz.
— Então a torcida é grande.

O cara disse isso e a cara dele era de ironia pura. Maior cara de pau.

— É sim. Maior do que imagina.
— Quantos?
— Muitos. E começou a citar nomes de alguns caras que moravam no mesmo prédio, que estudavam com ela, e citou nome de cara mais velho, casado, algumas amigas também. A lista era longa.
— Vou te dizer... Fiquei surpreso. Sempre te vi tão quietinha, jeito de menininha, toda certinha. Já te vi com namorado e uns ficas, mas assim você me pegou.
— Surpreso é? Ou tá com ciúme?

O cara riu e acendeu outro cigarro.

A menina, com gosto de café na boca e cheiro de maconha no cabelo, sentiu raiva do cara, do jeito dele, todo irônico e aí ela começou a tirar a roupa feito louca, deitou no chão, abriu as pernas e disse:

— Vem logo. Sei que é isso que quer. Fazer parte da lista.
— Como sabe o que eu quero?
— Todos querem. A não ser que seja uma bichinha.
— Não me aceitaria se eu fosse uma bichinha?

Ele fumava e enfatizava toda palavra.

— Claro que sim. Não tenho preconceito.
— Não?
— Pára de falar e vem logo antes que eu desista.
— E você desiste?
— Cara, tô aqui desde duas da tarde, a gente fumou, riu muito, matamos larica e você vem com essa merda de café e um monte de pergunta. Faz logo o que a gente tá a fim de fazer.
— Eu estou?

A menina partiu pra cima do cara com toda raiva e impaciência e começou a beijar o cara, fazer gesto, passar o corpo no corpo dele, e assanhava o cabelo do cara e dizia palavra imprópria (muita putaria) e queria o cara mais que tudo. Ele quase não se movia. Ele assistia fazendo parte.

— Me beija logo. E com vontade.

Ela dizia. Sussurrava. Implorava. Ele só esboçava meio riso e mais nada.

— Qual é a tua, cara?
— A minha é nenhuma. Você é óbvia demais.
— Óbvia? E você é uma bichinha. Tem muito cara querendo ficar comigo. Tem gente grande me querendo, sabia?

E ela, já perdida em impaciência, disse nome de mais gente e surgiu então outro nome que causou pausa na fala da menina.

— Ele também? Perguntou o rapaz.

Ela, mesmo sabendo que não poderia ter dito aquilo, que tinha feito merda em dizer, afirmou com toda ira.

— Ele também. E ele me quer sempre. E me paga pra fazer tudo. E eu cobro caro.
— Em dinheiro?
— Em tudo. O que eu quiser.

Ele riu. Riso cheio de satisfação. Riso forte de quem havia conseguido.

— Você deve ser boa mesmo.
— Sou.

O rapaz apagou o cigarro na xícara de café, caminhou até ao balcão da cozinha, apanhou a filmadora e a menina se escandalizou ao ver que ele tinha filmado tudo. Chamou o cara de sacana, de covarde, e esmurrava as costas dele.

— Foi por isso que me chamou aqui, seu filho da puta?
— Não. Eu queria apenas fumar um baseado com você.
— Você tá mentindo. Armou tudo. Me dá essa fita, seu merda.

Ela gritava. O rapaz, mais forte que ela, se defendia e ficava rindo da menina de unha lilás. Ela já esboçava choro (coisa de fazer chantagem emocional) pra ver se ele entregava a fita pra ela e ele conseguiu se afastar e, parado perto da porta, olhou bem a menina e disse:

— Veste tua roupa e se manda daqui.

E a menina não chorava mais. Ela estava com raiva. E sentia medo. O cara era, afinal de contas, um maluco. Ela se vestiu. E limpou o rosto com as mãos.

— Agora pode ir.

Ele apontou pra porta. Gentilmente. E sorriu. O rapaz era educado. A menina se dirigiu a porta. Obedecia feito cachorro treinado. Aí ela perguntou:

— Que vai fazer com esse filme?

Ele sorriu de novo. Agora sombrio. Os olhos castanhos se agigantaram de humor negro. Ela empalideceu. E ele simplesmente respondeu:

— Não sei, não sei. Mas lembra bem que aqui quem dita as regras sou eu.

E a vida continuava perfeita ao frenético cair da tarde de mais um dia.







19 julho 2010

relógio embriagado




Amor em duas vias
Assassinadas
Esquecidas
Papel amarelado de medo
Perdido no pó da gaveta
E o jantar falho de vinho?
Na sexta-feira?
Depois do expediente
Entorpecente a língua fala
Quando deveria calar
Descobri por acaso
Tenho fraco por fracassos
Sou meu próprio anti-herói


Como se o dia ofuscasse janelas, como se deuses andassem nas ruas, como se o céu abrisse a boca em enormes clareiras, como se fosse chuva e sol, como se animais noturnos rompessem segredos, como se o medo e a devoção dos santos nos atingissem, como se o estrondo de suas mãos em minhas mãos fossem certezas, como se as ilhas solitárias do pacífico fossem nossas, invadidas e penetradas casas, como se a trajetória da queda rumo ao abismo forjasse sentido, como se não existisse você, como se não existisse eu, como se não existisse mundo nem poesia que transtorna a vida dos sentimentos escondidos dentro da voz, descobri que não somos iguais. Soldados cobertos de armais mortais. Sou traça que devora suas peças e você é a placa que sinaliza proibição. Guardo minha rebeldia quando ainda arde o dia e sente fome minha rítmica ausência de alegria. Descobri que envelheci. Sem aviso prévio, perdi a fé na velha história. Agora vivo de obrigar que se consertem as cordas e engrenagens do relógio embriagado que me pulsa e regenera. Por obrigação seguem nova ordem as linhas imaginárias da palma das mãos.


Racional é o júbilo.
Passional é a vida.
Finjo ser estátua rubra
Enquanto rugem os aviões.



16 julho 2010

reality bites





Não escreva agora o que você pode deixar para outra história. Escrever é o meu drama. Nítido e particular. Estou sempre com algumas mil palavras para colocar no papel (que nem sempre é papel). Largo tudo no Word mesmo ou, à moda antiga, tenho um diário estilo menininha e escrevo coisas quando estou por aí. E agora ando calada, acuada e castrada (adoro Ângela Rô Rô). Então estou lendo. Muitos livros. Estantes de muitos livros. Leio crítica literária, poesia, auto-ajuda e Stephenie Meyer (que é um gênio – vale salientar). Não aguentado apelos midiáticos, me intrometi a ler Amanhecer (continuação da história sobre vampiros que saem à luz do dia, têm suas imagens refletidas em espelhos e não têm medo de crucifixo e cortam até cebola). E a mulher ficou milionária escrevendo tudo isso. E, no meio de minha insônia, terminei o capítulo que é mais focado no lobisomem que não usa camiseta e tem 16 anos. E concluí que a história não é ruim. Tem lá seus altos e baixos, citações desnecessárias de Jane Austen, trechos de Shakespeare e por aí vai. Decidi, então, escrever esse treco e dizer de minha total compreensão aos escritos da autora americana que conseguiu botar Harry Potter pra tirar um cochilo. Fui ao cinema. Eu vi o filme. Conheço pessoas que nunca leram PN e agora devoram quilos de papel pra saber se Bella vai se tornar vampira ou não, se vai escolher Jacob ou Edward e etc e tal. A escritora conseguiu um grande feito. Levar gente à leitura. Para mim, já é meio caminho andado.




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13 julho 2010

adivinhação





Vivendo basicamente com duas pedras na mão. Uma que mira a matilha e outra que cai no chão. Despretensiosamente pedras miram minha sina de estar em todo lugar, exceto em mim mesmo. E vai pelo mundo minha hora que segue outra história e ricocheteia e serve anseios de todo altruísmo desvencilhado entre minhas teias. A vida é uma grande bobeira. Livro cheio de conselho que não ajuda. Rota falha de memória. E basta um bom motivo e o dia se desajeita e tudo sai do trilho. Me desequilibro e ferida maior é não cicatrizar. E me demoro em dizer a verdade porque é difícil deixar sair essa mudez intacta de não se ver. Que há além das janelas? Céu aberto, livro empoeirado e ancestrais acenando avisando que tudo está ao contrário. Não paro. Sigo todo e qualquer rastro e não há seta de destino dizendo qual melhor lugar para se viver e ter, de mão cheia, dia feliz e farta mesa. E eu que não caço, que não tenho cão nem gato, penso em comprar um passarinho. Que não se engane aquele que pensa que ileso escapa do abismo. A vida é de improviso. Cena feita sem ensaio. E atiro pela culatra o futuro que desejo.



Image by fabrini

08 julho 2010

casa de moldura




Minha tia tem uma bela casa no interior de São Paulo. Grande casa de muitas janelas enormes e a casa é toda mobiliada em estilo colonial. Minha tia tem muitos quadros e se gaba de cada quadro que tem. Mesmo que seja tudo cópia. Aliás, são réplicas. Ela corrige. Cópia é linguagem de quem não entende arte. Eu tenho réplicas perfeitas que ninguém pode botar defeito. Os vizinhos visitam minha tia em sua imensa casa no interior de São Paulo e as visitas rendem horas passadas no antigo relógio de parede que faz bléin, bléin, bléin e é bonito de ouvir o relógio cantar. De volta aos quadros, são quatro pares de pequenos painéis dispostos de acordo com o nome do artista. Matisse, Monet, Van Gogh e outro do qual não me lembro o nome. Nada entendo de arte. Por isso não me atrevo a criticar os quadros de minha tia. São bonitos e coloridos. Na sala de estar as paredes são tomadas de quadros gigantescos. A sala é grande e possui paredes imensas. Por isso minha tia decora de quadro a sala onde recebe suas visitas. Uma bela matrona é a minha tia. Parente que mora distante e é rica porque casou com homem rico. Meu tio, que já morreu, era fazendeiro. E depois de sua morte, minha tia que não tem filhos que reclamem por herança, vendeu fazenda com boi e vaca e galinha e tudo. Ela nunca gostou da fazenda. Nunca desejou a vida no campo. Casou com meu tio ainda moça. E não teve filhos. Não tendo ocupação com crianças, se tornou a mulher rica de viagem e passaporte na mão. Todo ano, país diferente. Grécia, Itália, França e repetidas viagens ao Japão. Ela sempre dizia que gostava demais da cultura oriental. E, a cada viagem, voltava cheia de novidades e presentes e mais artigos para sua enorme casa. Decorava e nunca se cansava de decorar. Ela possui vasos enormes; todos trazidos do oriente. Tapetes, pequenas imagens trazidas da Itália, perfumes franceses e muitas toalhas dos hotéis onde se hospedava. Ela tem coleção de toalhas e sabonetes dos melhores hotéis da Europa. E muitas fotos. Muitos lugares históricos e minha tia lá, posando de turista. Sempre viajava em grupo. Ela e algumas amigas. Enquanto ela viajava e passeava a ver o mundo, meu tio gerenciava a fazenda. Era um homem trabalhador. Trabalhador e chato. Falava por cima como se fosse superior. E ostentava a vida da minha tia que mora no interior de São Paulo. Dizia que a mulher tinha cultura, e fazia questão que ela fosse e voltasse em suas viagens ao redor do mundo. Aí um dia ele morreu. Calou sua boca chata e minha tia tratou de vender a fazenda. Ele nunca soube que a mulher odiava aquele lugar. Ela tinha asco de tanto boi e vaca e galinha e aqueles trabalhadores da fazenda viviam de pedir dinheiro. Ela não frequentava a fazenda. Sequer convidava amigos a conhecer o lugar. Para ela a fazenda era apenas fonte de renda. Preferia viver na cidade e viajar e comprar quadro pra decorar sua casa inteira. O quarto dela é um espetáculo. Da varanda às janelas, o lugar é belíssimo. No centro do cômodo, uma enorme cama colonial onde dorme minha tia. Quarto de finas cortinas, luminárias trazidas de suas viagens e muitos outros quadros e jóias e tapeçarias. Há corredores, quartos de hóspedes, banheiros, lavabos, cozinha, área de recreação, jardim, piscina e minha tia. Tudo há em sua casa no interior de São Paulo. Inclusive boa categoria de gente fina. E, por este motivo, ela nunca me receberia em sua enorme casa de muitos quadros e coisas finíssimas. Porque sou pobre, moro longe, sou balconista de farmácia e, apenas sei de minha tia porque, minha mãe, sua irmã Ermínia, faz questão de contar a história na hora da visita. Minha mãe está morrendo no leito de um hospital. Já tentei ligar pra minha tia e avisar que sua única irmã está de partida. Mas ela não se importa. Sempre inventa desculpa pra não tomar parte na história. Minha mãe fala de minha tia como se ela fosse a única beleza que possui na vida. E, enquanto minha mãe morre de doença forte, penso em minha tia que vive de quadro e viagem e me parece estar sempre feliz. Ouço minha mãe se encantar ao falar de sua irmã. Acompanho a voz trêmula da mulher e só não durmo com ela porque na enfermaria não há leito disponível para acompanhante e não me permitem dormir no chão. E, ao voltar pra casa no fim da noite, percebo como a vida é discrepante. Nem todos compram quadros, roupas elegantes, jóias caras e tapetes deslumbrantes ou sequer passam dias ornamentando a casa para encher de inveja os olhos de seus visitantes.





Image by Adrian Ball

04 julho 2010

eletrostática





Eletrostática e minha pátria se dissolveu. Entre a fome burocrática de quem busca emprego e o término da partida de futebol, furioso penso em você. Pois meu sentimento não está guardado em cartas devolvidas. Não exerço papel de amante em simplicidade. Devastei tua ingenuidade desde o dia em que me conheceu. Tonificado de vaidade, costumava olhar os avessos da cidade e as vulgares mulheres retalhavam-se a me querer. E eu despenquei a ser todo bruto, bebendo em toda fonte, esquecido que estava do tempo futuro que nos prega peças e nos faz arrependidos ou até mesmo patéticos da forma como agora me vejo. E eu, quando silenciavam as festas, sozinho nas madrugadas rasgadas de estrelas, sirenes repovoando o vazio dos cômodos, não suportava imaginar que um dia estaria preso a uma única criatura. Eu era o louco. Libertino e adorador da vadiagem. Mortificado da necessidade de qualquer laço que me pudesse atar à castidade de querer uma só figura entre tantas outras que trafegavam em minhas ruas imaginárias. Todas as lutas eram vencidas por mim. Eu me idolatrava. Ébrio e solto. Belo zepelim de papel carbono. Uma cópia nada generosa do mau comportamento e do perverso abandono. Satisfeito e completo, eu me esculpia em todo corpo que me atravessasse as vistas e era livre e ninguém jamais me prenderia. Mas o futuro estava ali, forjando gafes, preparando revoltas, planejando azares e, em um único golpe, me vi preso, atônito, bobo da corte sem riso, ridículo e esquisito. Pavio de fogo indeciso. Porque eu te amava. Amo. E passei a ser outro. Confessando amor a cada gesto. Pecando contra mim mesmo, o ermo. Bicho que se transforma, Kafka arrancado de sua história, preso a um forte sentimento que agora me faz declarado a escrever em verso a palavra que de mim nunca surgiria que não fosse por mentira ou por me fazer senhor das glórias. Agora estou a abrir os braços, reservar tempos, olhar relógios e, sempre a me desconhecer, afogo violências neste abuso romântico e vergonhoso de querer você. Estou sedento como se nunca tivesse habitado outros mares. Minhas mãos parecem nunca ter tocado outras faces. Estou irreconhecível e sofro do mistério que faz um animal desejar o  idílio do caminhar em bandos. Embora possa, ao ressonar das horas, tornar-me feroz e atingir tua força com o envenenar que trago dos lábios de ontem, fico a espera. Tímido em mudez camuflado, dentro de um aquário, o enorme predador ameaçado. Espero que me consuma a vontade ou que se rompa a haste do que sinto. Que caia a lona do circo. Porque não suportarei esconder fraquezas diante de você. Tornei-me viciado em teus precipícios. Uma mulher, por fim, corrompe meu livre arbítrio. O que mais posso esperar de mim? Tornei-me este humilde caracol deslizando em teu povoado jardim.






Image by ilkekutlay