30 agosto 2010

cobaia judiosa






Leio o jornal:

HOMEM MORRE POR OVERDOSE DE CAFÉ

Por que não usaram exclamações? Não é uma morte comum. Penso inadequado: Não há morte comum. Talvez e, somente se, por sorte dos azares, a gente morrer dormindo. Deve ser como sonhar. Mergulhar em um sonho que não se acaba mais. Então penso nas pessoas pecadoras judiosas. Estas não morrem de um sonho bom. Quem sabe não morram de um pesadelo arquitetonicamente desgraçado? Desvio pensamentos.

Morte não é assunto de pensar. 
Apenas quando ela acontece. 
Mas não hoje.

Na mesinha ao lado, a Microfísica do Poder parece gritar. Extra. Extra. Extra: Há relações que não podem se dar ao luxo de se dissociarem. Bingo. Então é por isso que não posso me dar ao luxo de tapar meus ouvidos quando o filho do vizinho, que pratica fervorosamente seus primeiros acordes na guitarra, me acorda às 7 da manhã praguejando agudamente Sweet Child O'Mine. Aí eu falo da morte novamente. Ouvir o menino tocar é como morrer de desgosto. Cada vez que ele ensaia um solo de guitarra, penso em tomar um comprimido e brincar do jogo do contente. Vamos todos ser felizes! Vamos todos ajoelhar e pedir a Deus que nos proteja! Meu lado profeta é mais afetado que cobaias de laboratório. Ratinhos brancos, cãezinhos e será que usam humanos? Não quero pensar no humano.

Hoje descarto esta categoria.
Vou pensar em mim.

Decidi que hoje não iria trabalhar. Não vou porque não quero e que se ferrem de inveja meus amigos compatriotas. Todas aquelas pessoas abarrotadas de obrigações desnecessárias e que dizem de si o tempo todo para que elas mesmas acreditem que são felizes. Tenho uma vontade desgramada de dizer: Tu não és feliz. Tu mentes, Clemente. Mas ai de mim se eu disser. Então, como hoje estou meio falante, não vou ao trabalho e não falo a verdade.

Mas que verdade?
A real ou a fictícia?

Prefiro mesclar as duas, adicionar duas colheres de café solúvel e conversar com gente estranha ao telefone.

Hoje me ligaram.
E era cedo.

Alô. Sou eu. Represento A Associação Que Cuida de Pessoas Portadoras de Câncer e há um senhor morrendo (aos poucos) e você poderia colaborar?

Santa mulher esta que me ligou.

Eu precisava ouvir histórias de outras vidas. Era urgente. Meu dia estava se tornando debilmente egocêntrico.

E eis que a mulher liga e eu digo que posso ajudar. Dez reais poderiam me tirar a culpa de estar em casa, de estar sentado lendo rompantes filosóficos que atentam contra o pudor das mentes simplórias. Eu poderia me sentir livre da culpa de desejar mal ao filho de meu vizinho. Eu poderia sentir alívio por ter denunciado minha outra vizinha que criava um papagaio. Um crime. Eu a denunciei. Alô. É do IBAMA? Em uma semana vieram buscar o pássaro falante.

E eu estava fervendo desculpado de tudo.
Não tenho mais culpa.
E Bendito seja o dinheiro vivo.

Contribuo com dez reais e o velho pode até morrer de câncer, mas eu terei ajudado e, um dia, isso me servirá de alguma forma. Senão um dia, serve agora.

Chega o rapaz que busca o dinheiro das contribuições. Motociclista aparentemente cansado que provavelmente faz este trabalho para pagar suas contas e aliviar suas culpas.

Pago, recebo o comprovante de contribuinte, entro e sento novamente.

Microfísica do Poder.

Mais dois goles de café na culatra da garganta e que se ferrem os doentes. Sou maquiavélico de forma humana e não consigo banir de mim toda a repulsa que sinto por saber que sou igual. Apenas um ser vivo, cheio de medo igual aos outros seres pequeninos. O que me difere dos demais é que não costumo mentir. Minha vida não passa de um espetáculo fajuto em que tento provar que poder e revolta possam me trazer lucros.

E volto a ler o jornal.

Altivo eu ergo meus óculos e ainda morre de overdose o homem em letras garrafais.






Image by koony

22 agosto 2010

ideário






Toma um chá que a história é longa. Inicio me deixando pré-datada. Peixes, ascendente sagitário, esquina com General Osório, número quatro. Ah, quantos acontecimentos até chegar aqui. Neste ponto. Será azul a cor do céu que observo? Agora vejo que tudo fora preciso. Emergia de mim uma pretensiosa vontade de mentir para mim mesma. Eu precisava me esconder para não me saber. Estranho esconder-se de si mesmo. É como escrever. Travestir amargura em alegria de forma tão calculada. Eu era trapezista de correr riscos. Vivia de absurdos. Ainda vivo meus excessos e abusos. Não me canso de ser. E meus crimes não são bárbaros. Quase não existem. Ninguém os vê. Eu apenas contava histórias. Eu as vivia. Tão nítida era minha vivência de tudo. Um dia eu sufocava cavalos marinhos. No dia seguinte acordava ansiosa por comprar flores para Mrs. Dalloway porque eu não suportava mais aquela velha borrifada de quinquilharias existenciais. Sofri bugalhos. Tortos, confusos e emancipados. Existencial eu me tornei. Não apenas por estar física e permanentemente agregada ao que sou. São meus sentidos aflorados que me dizem que existo. A despeito dos contrários e dos viadutos que a cidade não ostenta, eu insisto. Viver é isto. Sustentar ideários e palavras é o meu ofício. Eu preciso dizer que insisto. Em voz alta, como um político profetizando em meio à praça, eu insisto. Não despeje teus rabiscos em meus livros. Não deixe tua mão sobre minhas palavras. Não exerça falsa soberania em meu estado de calamidade pública. Não trafegue de contrário a minhas navegações. Não invente de corrigir meus erros. Porque é um imenso novelo que agora se desfaz. A gente vive tentando correr de pressa com a vida e ela age a seus propósitos. Não me esforço em dilatar meus pesares. Sofro meus lutos. Sofro em bruto estado de emergência. E, ao acordar dias depois, ainda sofro. Mas é de uma sábia dor que não me comove e não me faz arrastar correntes. Minha hora é de gramática baseada em exceções. Meus erros são simultâneos aos meus exageros. Não banalizo sentimentos. Fervorosa eu os recebo. E desarmo holocaustos em um sorriso compenetrada de amor.





20 agosto 2010

república





Solidão entre cinco paredes. Vezes mais, vezes menos e são belos seus pequenos azulejos imaginários portugueses. E construímos. Você constrói. Lembra o dia de ser herói? Salvar amigo, ainda criança, quando feliz corria em sua bicicleta e cai o menino e você o salvou. Enquanto chorava a criança, algo de valor fora dito, e fora de sua boca e, de um minuto a outro, a cena era completa e você pôde sentir felicidade em ajudar alguém. Mas o tempo faz esquecer. O dia seguinte transforma o que a gente sente. Isto é sorte. Porque se arde em nós a dor, pode ser que amanhã passe. Haverá cura para todo mal, o sol brilha e ainda existe motivo para continuar. E se acredita. E não hipoteticamente. É certo que navegamos cegos no mar de imensa gente, mas, entre o elaborar de todas as coisas, há mistérios que até os mais incrédulos se acometem e se atrevem a proteger. É este o mistério maior. Aguentar o tranco. E há quem aguente? As estatísticas não mentem. E se mentem, perdoa que será perdoado também. E vive em família. Família de um, geladeira quase vazia, dias de domingo sem fim. Família de dois, entre a discórdia e a hora de abrigar o outro corpo, contas e a fé na sabedoria e gera filho e cria mais família e faz o mundo ser maior. Família de tantos, tantas mulheres e tantos homens, de lá pra cá entre os cômodos da casa e respeita ordens porque não se faz barulho enquanto os mais velhos dormem seus sonos. E assim se faz república. Independente, prudente, grande mãe de todos nós. E lê e estuda tanto que o futuro traz respeito. E dá de cara com o vazio das portas fechadas e depressão existe. Não é invenção. A mãe diz que não. Depressão é invenção da nova era. Amigos falam em beber e você, querendo ser homem e forte, bebe com amigos, faz graça da vida e acredita, inocentemente, que no dia seguinte tudo há de se equilibrar. E faz família com moça que se aninha em seus umbrais. Metáfora? Não há quem diga. É que segue em margem a vida e, mesmo quando se desalinha, quando parte alguém antes da hora prevista, é ela quem dita nossas leis e, altruísta, que muitos dizem ser egoísta, a vida é o que ocorre entre a farta mesa de jantar e a devastada sala de visitas.




Image by Roman Kocian

14 agosto 2010

take five




Deus acordou tarde. Dor de cabeça latente do pileque da noite passada. Pensou duas vezes. Melhor seria ficar na cama. Aproveitar o tempo feito de ócio e hoje Deus não se sentia instigado a fazer nada. Culpa do tempo. Erro Meu. Então Deus estalou os dedos e criou o Prozac. Sentou-se na cama, colocando assim os pés no chão, olhou de lado e lá estava em sua mesa de cabeceira: Um comprimido, um copo d’água e, certamente, um pouco mais de estímulo para seguir o dia. E assim Deus criou a motivação. Olhou seu relógio de pulso, largado na pequena cômoda de seu quarto, e percebeu que ainda não era tarde. Teria tempo. Largou o desmantelo pecaminoso da preguiça, levantou-se, tomou banho de corpo e alma e, algo não fazia sentido. Todo aquele cenário entre Ele e a cama e a ressaca ainda pungente, tudo aquilo precisava de um fundo musical. Então Deus criou o som. Ao ritmo de Take Five, Deus ensaiou dois passos. Outros mais. Quase dançando, fez a barba. De cara limpa, vestiu seu jeans, uma camisa sem marca, calçou tênis surrado, abriu a porta do mundo e saiu. E Deus sentiu que havia feito coisa boa. O remédio começava a agir e era adrenalina e boa sensação de estar completo e radiante. Deus sentiu-se forte como um leão. E, alegre feito um marreco investigando os arredores do campo, caminhou pelas ruas em movimento. Gente que não acabava mais. E, subitamente, Deus achou que havia gente demais em tão pouco espaço. Aquelas pessoas não poderiam continuar ali na rua perdidas feito formigas atemporais à colheita. Então Deus criou a televisão. Em um passe de mágica, não havia mais gente na rua. Todo mundo sumiu como se fossem banidos por uma praga e estavam todos em suas casas teleguiados por imagens e surtos de alienação. Deus sorriu. Sentia-se um gênio. O da lâmpada. História que Ele mesmo havia criado para se distrair em um dia em que sentia tédio e, sem obstinação, criou a mentira e a conversa fiada. Deus é mesmo muito sábio. E caminhava mais entre as ruas que agora estavam desertas. Avistou uma pequena praça e havia um banco tostando ao sol. Deus fez um pequeno gesto com as mãos, e surgiu uma imensa árvore para Lhe dar sombra e proteção. Sentado no banco da praça, olhou ao redor e, novamente, à ameaça de estar entediado, sentiu falta de algo. Então, apocalipticamente, Deus criou o cigarro. Dois tragos e enchia Seus pulmões. E veio a poluição. Deus surpreende-se. Percebeu que caminhava solitária pelas ruas uma mulher. Sozinha, bonita e quase perfeita. Sua imagem e semelhança. A mulher se aproximou do Homem que fumava, compartilhou de Seu cigarro, passou a falar em parábolas e Deus indagava o motivo da mulher não ter sumido com a população. Erro de cálculo, pensou. Eu sempre esqueço algo. Deixei passar tanta coisa. Mas não me culpo. Nem todo mundo é perfeito. Eu também não sou. E conversaram durante tempos. Uma eternidade. Durante a conversa, Deus percebeu que havia uma brecha que precisava ser corrigida. O Homem resmungou consigo mesmo, não sabia o que fazer e, divinamente, Deus sentiu-se como sente aquele que cobiça prazer e diversão. E Deus criou o sexo e sentiu-se difusamente anestesiado em beijos de malícia que aprisionam os fracos. Logo se fundiam a imagem do Homem e da mulher em apenas um ser. Eram exatos. Totalitários. Iguais. Deus, não estando alegre com sua posição, criou a discussão. As diferenças. As semelhanças que divergem. E entupiram-se de vaidade, tanto Ele quanto a mulher. E já não eram mais iguais. A mulher questionava. Deus não concordava. E sorriu novamente, orgulhoso de seu labor. Ergueu-se. Seguiu em disparada de volta a sua casa e, no caminho, Deus observava o vazio. Sentindo-se solitário, Deus trouxe de volta a população. Agora havia gente. Deus riu-se de contente. Poderia descansar em paz sem que o atormentassem para trabalhar. De volta ao seu quarto, Deus sentiu sede que não era de água e criou diversos tipos de bebidas destiladas. Estava cansado de beber apenas vinho e repartir o mesmo pão. Tomou de um gole seguido de outro gole, dançou frenético, riu feito criança, soluçou bêbado e, alucinado, caiu na cama feito um trapo. E então Deus descansou. O mundo era mesmo um grande parto. Cansativo e desesperado. E, mudo, dormiu de bruços à espera da destruição.





Image on deviantART

13 agosto 2010

auto-ajuda e propaganda eleitoral

Finalmente todos os segredos foram revelados:



O real motivo do divórcio entre Xuxa e Pelé.

Os segredos que envolvem a Rainha Elizabeth.

A quantidade necessária de paus para se fazer uma canoa.



Se você quiser saber de tudo isso e muito mais, basta não clicar na imagem abaixo.







E, se você está cansado de propostas indecentes, mentiras e roubalheiras, confie em mim. Um dia seremos todos felizes. Ou não.



Valeu Marcelo.
Foi legal responder ao questionário.
Obrigada pela oportunidade.




Um beijo para todos.

12 agosto 2010

in natura





Amar e armar a esmo. Torcendo dedos e masoquismo é enredo e me machucas que ando nua nas ruas de minha infância. Praga de ingênua horta de tuas mãos cultivar. Há em mim o que de fato existe. Homens escravos e a história de meu país. Manchetes em meus ouvidos e eu com isso? E eu com o mundo? Torta fêmea feita de horas e aborto beijos calculados. Quero susto e que me corram deuses e demônios em minhas veias de mulher pedinte e sedenta. Transito de dia e, à noite, hemorragia é a vontade que me guia. Não colho absurdos coitos de homem que sente medo. Já ouvi de todos que medo nos encolhe. Então, ágil, espalmo o piso e ele se curva e faz de mim a fenda por onde se vê que trêmulos dizemos amor e há pornografia bela dita em nossas línguas. E assombra a hora de ir embora e não me deixa o homem que elabora. Homem vasto de tanto espaço e sou a sombra do que ejacula tua obra in natura. Em instantes. Minutos em caos de eternidade. Sirvo em ritmo alfabético, ereta e discreta, e declaro o que a poesia não diz. Estou vaga feito lâmpada acesa enquanto caminha mais um dia a humana essência e diga você o que deseja. E diga você o que espera sentado à porta de casa cruzando braços enquanto espalho meu corpo em sua cama doente de tanto sorrir. Meu feminismo é entregar-se. Coragem é deixar-se larga, sorrindo feito menina, enquanto te ergues farto e composto trajando tua face de covarde. Minhas mulheres trabalham mais e eu alimento animais. Estes cegos e amedrontados verbos passivos que de mim se esvaem. Prolíferos habitantes de meus ouvidos. E calculo a bruta soma de meus temporais.






06 agosto 2010

repente de retórica




Há violinos? Violinos, violas e violoncelos. Flautas doces? Diversas. De todos os acordes e cores. Deliro ao ouvir algo assim. Play it again, Sam. Você e sua devoção por filmes. Você não muda. Mudo. Acabo de mudar. Veja. Antes eu estava recostada na poltrona. Agora espreguiço meu corpo. Sim. Percebo a mudança. Mas ainda aparenta cansaço. Aparentar não é estar. Filosófica. Não. Antipática. Tem razão.

(Reinicia a música. Divino controle remoto. O homem, sentado no chão da sala, olha a mulher que tenta ouvir cada detalhe da sinfonia).

Acordeão? Espanto. Susto. É decepcionante. Você me enganou. Eu não enganei. Você enganou sim. Há violinos, violas e violoncelos. Flautas doces. Cordas e sopro. Mas não me falou do acordeão. Que há de errado com o acordeão? Nada. Nada de errado. É apenas o seu delito que me fere. É sua mania de mentir que sempre nos distancia. É o enganar que me golpeia quando eu poderia ter permanecido alegre ouvindo a sinfonia. Eu não menti. Apenas não considerei o fato de que você desejava, na verdade, que eu desmembrasse a sinfonia ditando todos os instrumentos que a compõem. Não considerar é mentir. Deixar a verdade escondida. Do que você está falando? O que está inventando com esta atitude de criança? Crianças não odeiam. Você me odeia? Não odiaria. Um minuto atrás, eu amava você ferozmente. Amava de engolir você. De achar belo seu rosto pela manhã quando a noite ainda assanha sua imagem. Você é complexa. Exagera. Inventa diversas desculpas para irromper nisto: Uma discussão matutina. Logo quando tudo estava bem. Logo quando eu... Retire de sua boca estas malditas reticências. E desde quando você usa o verbo "irromper"? Que há de errado com o verbo? É comum. E eu digo que meu vocabulário transcende o seu em quase todos os aspectos. Quase? Então você admite estar longe de me alcançar? Admite que ainda venço seus repentes de retórica? Que ainda sou superior ao seu espetáculo de se esbaldar em palavras que talvez você nunca tenha usado ou escrito ou lido? Leio tudo, minha querida. Conheço todas as palavras. Quando não as uso, eu as tenho em pensamento. Posso rir então? Ter palavras em pensamento é como ter dinheiro e não poder gastá-lo. É como ter pernas e não poder andar. É como provar de um vinho e não poder se embebedar. Você se assume muito eloquente, não? Assume tanta destreza e tanta maestria ao elaborar suas frases e tudo me parece sincronicamente ensaiado. Eu a vi conversando sozinha. É assim que decora seus discursos? Não decoro discursos. E não converso sozinho. Concorda comigo que, para se conversar, é preciso que se tenha alguém? Um objeto a quem se dirigir? Não fuja da rima. Não tente me levar com sua precariedade de respostas diretas. Seria sim ou não. Isto me bastaria. Você se basta. Eu sequer existo.

Sorri o homem. Lacrimeja a mulher. Dois sexos, tantas palavras e apenas um gesto poderia salvá-los de todo o desgaste de tão incompreensível discussão. Quando a manhã seria plena e poderiam fazer amor, fazer rimas com seus corpos, deixar a flor ardente incendiar-se de paixão. Mas não. Era preciso o alarde. A brutalidade de buscar vitórias. A discórdia que faz vencer o mais forte e calar a boca em difusa vergonha aquele que sofre. Mas ambos sofrem. E ambos se calam diante da viola que despenca a soletrar a sinfonia de um dia que, por descuido linguístico, tornara-se vulgar.






03 agosto 2010

entropia




A velha, o menino e o tempo que enguiça. Três espécies lidando com a vida e a linha torturada entre os dedos da senhora que borda enquanto observa o menino fazer ruir de sua boca o apito do trem com o qual brinca na grande mesa da sala de jantar. Faz calor lá fora. Lagartixas passeiam na calçada. O rastejar de suas patas fazem o menino acordar do silêncio amornado da tarde. O menino olha o que a senhora não vê. Um dos pequenos répteis cabula o caminho do outro, sobe pelo muro, olha ao redor, e, não vendo perigo, percorre toda murada da entrada da casa e se vai. O menino ri de fininho porque acha engraçado o bichinho que some sem deixar vestígio. Assim vai o tempo. A mulher não se contém e pergunta ao menino qual motivo do riso. Ele não diz. Meneia a cabeça, encolhe seus pequeninos ombros e volta a fazer seu ruído. Agora é um pequeno carro que atravessa a mesa e cruza o caminho do trem. A velha mulher cospe na linha. Deveria apenas ter melado de saliva a linha a ponto de fazê-la entrar no buraco da agulha, mas, como a idade avança e o tempo urge, a velha quer logo terminar o bordado que era pra ontem, costuma dizer. A linha parece enroscar-se em si mesma. Luta aturdida e, em violência, golpeia a mão da idosa mulher. Que canta. Embora impaciente, a mulher canta e cospe na linha que briga devota por sua liberdade. A agulha brilha lustrosa perfurando o tecido. Ainda sem linha, a agulha sofre a solidão de quem não cumpre seu destino. A mulher avança com seus dedos enrugados, porém adestrados no labor de fazer costura, e ainda olha o menino que brinca atiçado pela magia que a mulher há muito não sente o sabor. E a luta segue. Mulher e linha serpenteiam por vida em pleno calor. O dia está mudo lá fora. Não fosse o homem que vende sorvete a romper o silêncio, o mundo estaria perdido. A velha sente secura na garganta. Uma crescente vontade de gelar sua sede; mas não pode. Não tem saúde para sorvetes. O menino se alegra ao ouvir o sino do carrinho do homem e seus gelados coloridos comestíveis. A criança sorri e salta em direção à mulher que agora bruta estica a linha com amargura e cólera e abre bem os olhos ao ver que o menino se alegra. Alegria fere o sorriso que não existe na mulher. E, então, perfura o dedo em sua luta injusta com a linha que nada quer e entristece o menino ao berrar seu eco de moléstia causada pela inveja do viço, da novidade que não mais enxerga. E vai longe o homem que vende sorvete. E vai longe a lagartixa contente. E permanecem, alinhavados pela vaidosa entropia, a velha, o menino e a linha.




Image by Perrine Boyer




 

01 agosto 2010

flores de domingo





Pequena Resenha Crítica


Livro "Artesã de Ilusórios" - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira



A compreensão não é um saber abstrato.

É um saber em ação.

(Paulo de Camargo)



— Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro "Artesã de Ilusórios", Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão.

Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

— A mulher e flor-fêmea no exercício exuberante de toda a sua existencialização enquanto alma pensante, transbordando, dando corajoso testemunho, quando retrata, recolhe, registra e diz a que veio. Talvez para pensar a vida em que habita, levita, constrói e resgata peculiaridades em verso e prosa. É a mulher que não se basta, não se contém, não se enquadra. Somos continuações. Letícia Palmeira é a liga. Escrevendo ela se dá inteira, questionadora, a consciência-passageira no viço da vida, buscando a felicidade de participar, enxergar, se inserir inteira na paleta sensível de seu estar em si. A artesã que escreve é isso.

— Artesã de ilusórios tem guardados incontidos, com suas vertentes, feito um rosário de parágrafos, de palavras bem torneadas. O texto sagrando a lida da vida. Romântica e crítica. Com seus conceitos e incompreensões que mapeia, entre afetos e circunstancias de viver e ser. "O mundo de janelas abertas. São palavras em terno e gravata, grávidas, idosos, infantis, famintas e libertas. Palavras são a certeza e a visão concreta das dúvidas". (Pg. 21, Afeto Literário). Essa é a prosa viçosa dela, formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba.

Fala de bichos, gatos, elefantes, dragões, e também do bicho-homem, o bicho-ser, no olival bem ilógico da vida. Quer o arsenal dos verbos. A vida é crucial? Qual é a imagem de nós mesmos no contexto de uma sociedade adultizada e machista? Não, não podemos fugir do lugar e estar que somos. Ou podemos, no escreviver, os destemperos alucinados? No tear de Letícia Palmeira, de anjos a borboletas, cercando o circo da vida. Compondo ou recompondo. tudo. Flores e árias. Clarões. E ela mesmo também ri-se de si, do que agrega, do que envolve com sua criação "Tabuada decorada para dias de prova." (Pg. 47, Flor de Decassílabo.)

— Coletivo de pluralidades. Janelas. A madura escritora Letícia Palmeira pinta o quadro do que registra. "Vestígios de mim em outra face, num disfarce de casa antiga querendo mudar de lugar". (Pg. 63, Janelas da Voz). A Mãe de Pedro arde em si, evoca almas, momentos, cicatrizes, faz um espólio de tudo. Como Clarice Lispector, poda-se para permanecer inteira e sempre na florada. O submarino amarelo é mais embaixo. A vida tem seus subterrâneos, de anjos a demônios. O amor também pode ser uma droga? Ela é cheia de questões, feminina e lúcida. Poeta a parir prosa feito artesã de si mesma. Se não nascemos inteiros, vamos nos fazendo. Assim é a escritora Letícia Palmeira.

— Traz as compotas da vida em palavras. Os potes de açúcares literais. Diz do homem desconexo, de filosofias e ervas. A vida o que é? Fala de flores e de sabão em pó, fala de sol e de lua, de madalenas e banheiros. Será o impossível? Que perigo é uma mulher pensadora, sentidora, criadora, na plena posse questionadora de si e do que a cerca? A literatura de pequenos espetáculos resgatados. Ah os origamis dos dias...

— Quando escreve é só uma espécie de strip-tease, em que desnuda a vida em toda a sua magnitude? Que labirinto é o pensar/sentir/amar, um quebra-cabeças em que se situa sensual, come e bebe de literatura cozida em vapor de existencialização, feito um fio de Ariadne para ramificar a sua própria contemplação?

No livro, Zélia Farias (Especialista em Língua e Literatura Anglo-Americana pela Universidade Federal da Paraíba) muito bem diz: "Letícia foi Alice um tempo (...). Já era o tempo em que se cercava a Mario Quintana, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Ana Cristina Cesar, Lygia Fagundes Telles (...)". Existir é a arte da paciência sem tédio ou remorso, ou muito pelo contrário? Letícia Palmeira é a busca viva desse entendimento. Mia Couto (in, Último Desabafo de Arcanjo Mistura), diz que esse mundo não é falso. Esse mundo é um erro. Será o impossível? Ah o solilóquio das reflexões depuradas!

— Na sua exuberante literatura, Letícia Palmeira escreve recortes de vida, páginas de angústia e desprendimento, paradoxos e cisternas, olhares plangentes, fragmentos e matizes corajosos, prosa e poesia, um verdadeiro liquidificador de idéias e cobranças a partir disso, feito uma artesã que junta carne e luz, céu e terra, caracóis e pedras, defeitos de fabricação e peças de reposição, coletivos e plurais.

O mundo está dividido entre magoados e inquietos, disse Gabriel Garcia Marques. Nem sempre a lágrima é a medida de todas as coisas. Ler Letícia Palmeira é um deleite. A flor corajosa da arte e da vida, numa linguagem que situa a lucidez e a criatividade. A mulher exercitando a sua plenitude. Daí, a literatura pura.

-0-

Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo com Corvos, Contos. Editora Design.








Nota: Não gosto de escrever nota. Parece tão formal. Mas a gente precisa ser formal, penso. À revelia.

Silas Corrêa escreve poesia e, vez por outra, escreve resenhas críticas. Decidi presenteá-lo com o Artesã de Ilusórios. E, por fim, eu acabei recebendo um presente do Silas. Permanecem, então, as palavras dele. Um motivo a mais para que eu escreva. Não gosto do tal forjar atitude de indiferença quando alguém nos elogia. Pois, já dizia Drummond: "Escritores precisam ouvir". Acho que é isso.



Beijo para todos.


Letícia Palmeira