29 novembro 2010

a vaca lambeu o boi



O homem tinha uma quitanda que não era bem uma quitanda. Era uma mercearia. Mas qual é mesmo a diferença entre quitanda e mercearia? Quitanda é lugar onde se vende frutas e hortaliças. Em mercearia, como se sabe, podemos encontrar outros produtos. Tais como: arroz, feijão e a vaca lambeu o boi. Então o homem tinha uma Quitandaria que vendia de tudo. Até cachaça. Mas aí já não é mais quitanda nem mercearia. É boteco. Então era isso que ele tinha. Um boteco que vendia de frutas à cachaça. O lugar vivia cheio de homem bêbado contando vantagem. E mulher também. Mulheres compravam produtos e os homens olhavam as mulheres que compravam produtos e falavam das qualidades físicas destas mulheres que frequentavam o lugar. O homem que era dono do boteco, quitanda, mercearia (por que não dizer Empório?) era um sujeito de cara amarrada e não vendia fiado. Mas era só o que ele fazia. Toda hora alguém comprava algo e mandava pendurar na conta. De arroz a saco de batata. Mas quem no mundo compra saco de batata? Só sei mesmo afirmar que o homem dizia não vender fiado. Mas ele vendia. E, sempre que começava alguma confusão por causa de algum bêbado de cabeça quente, o homem gritava dizendo que botaria todo mundo pra correr. E nunca botava. E quem bota é galinha. Ou não? Com ou sem galinha, o homem, dono da mercearia, nunca fazia da vida o que era pra fazer. Dizia que tinha quitanda, que só vendia a dinheiro, que isso e mais dois tostões daquilo. E dizia que não vendia fiado e ainda encurtava briga de bêbado dizendo que fecharia mais cedo e nunca fazia nada que prometia. O homem não se cumpria. E eu não o conhecia. Parei um dia para comprar dois pacotes de fubá e li a placa proibindo fiado tilintando ao lado de outra placa que alardeava o marketing Quitanda do Almeida. Percebi que de quitanda o lugar não tinha nada. Era um boteco no meio do brejo, cheio de varejeiras, e o homem com cara de besta achando que era dono do mundo inteiro. E aquele bando de bêbados vagabundos observando aquelas mulheres feias comprando misérias para cozinhar suas vidas desgraçadas e sem horizonte. Não vejo beleza alguma nesta história. Por mim nada seria dito não fosse a porcaria da necessidade em dizer que existe homem dono de boteco e que, um dia, não sei como, fui parar lá. Desgraçada mesmo é essa necessidade que tenho de me contar.








Image by Caroline

28 novembro 2010

gregos e troianos





Enquanto gregos e troianos morrem, Telma fala ingenuidades. Surge como se viesse de uma batalha de lençóis e sonhos mal passados e inventa de conversar. É uma ameaça ter por perto uma mulher quando tudo que se quer é um pouco de solidão. Eu nem me importo que a cidade exploda com seus milhões de habitantes. Quero apenas ficar aqui, inerte, suspenso e surpreso por ser tão genial como sou. Surpreendo-me comigo mesmo. Na cama, ainda deitado, com preguiça de fazer qualquer movimento, ouço os passos dela pelo corredor. Parece um elefante invadindo a savana e eu sou o caçador. Já imagino o que virá dessa vez. Mais uma conversa a respeito de seus anseios de mulher que, passou pelos trinta, enfrentou os quarenta e agora invade os cinquenta, e sofre ao ver seu corpo cada vez mais flácido. Telma é cheia de frivolidades. Tenho pavor de seus batimentos cardíacos quando deita ao meu lado e dorme feito uma vaca cansada de ser leiteira. Muitos têm razão por optarem pela solidão. Esta mulher de nada serve a não ser fazer ruídos pela manhã quando de mim se despede e volta à noite com seus ares de cansaço porque, segundo Telma, trabalhar é preciso. E ela se aproxima do quarto. A janela fechada esconde o sol. Não quero ver que já é dia. Acendo um cigarro e Telma não suporta o cheiro de meus cigarros. Mas, estando comigo, será assim. Eu fumarei meus cigarros. Ela sempre diz que está comigo porque precisa sofrer. Aliás, ela nunca me disse isso. Eu deduzo por suas ações. Filha de pais separados quando ainda era jovem, complexada e indecisa, Telma nunca soube de si. Considera-se velha aos 46 anos de idade. Telma não sabe de nada. Quase posso ouvir seus seios chacoalharem quando ela abre as cortinas e deixa entrar o irritante sol da manhã. Telma olha para mim hesitante sabendo que, caso reclame de mim, sairei pela porta da frente e nunca mais voltarei. Começa então a dobrar algumas toalhas que tirou do varal. Sinto seu cheiro de água sanitária e detergente de roupas. Ao menos ela é prendada. Ao menos isto. Senta-se ao meu lado, finjo não perceber que me olha, e me envolvo cada vez mais em meu cigarro. Telma não diz nada, mas sinto a necessidade de olhá-la. E vejo a pecaminosa sujeira em seus olhos. Ela acordou e não lavou o rosto. Ainda maquiada da noite passada. O lápis preto escorre envelhecido no óleo de sua pele. A boca enrugada em batom. Sinto asco. Não digo. Ela me sorri e diz bom dia. Pergunta se quero torradas e ovos fritos. Telma não sabe de nada. Não me atrevo a deixá-la saber de mim. Aceno com a cabeça. Positivamente tomarei meu café e voltarei a deitar e ficarei aqui o dia inteiro esperando que ela volte e faça meu jantar. E ela voltará. Telma é dessas mulheres que sofrem por vontade própria. Eu a entendo. Eu a machuco quando ela pede e berro quando ela me interrompe. Hoje sei que haverá sessão de choro após fazermos o que nos é concedido. Ela vai chorar solitária e eu me sentirei esquisito por ter minha mãe abandonada por meu pai e sendo molestada por seu próprio filho.








Image by Adnil

26 novembro 2010

lilith oratória





Mulher que se preza finge orgasmo. Nem sempre, é claro. 
Mas palhaço algum faz a plateia inteira sorrir em todo espetáculo.




Mulher de Graça, Ave Maria Descalça, Traça de Homem vivendo à risca do risco da mão de Deus. Respeita mandamentos, tateia pelo chão e rasteja à oração da manhã. Deus, não faça ouvido de quem não sente. Ouça-me uma vez. Falo direto com você. Não gosto de meia palavra e por isso vou direto ao Divino Ponto G. Inventaram que eu tinha tal ponto e que ele me elevaria aos céus como se fosse levada pelas mãos de Zeus que é Deus que é Você. Minha religião é tudo. Da zombaria ao catolicismo esquemático de olhar na cara de um padre e devorar a hóstia consagrada feita de farinha e água. Gosto ruim não é Teu Corpo, Pai. Dizem ser Teu Sangue que recebo, mas, como creio que seja o mais belo dos seres, não pode ser insosso o Pai que me criou tão bem ordenhada filha, mãe e a entidade que sou. Que não sou apenas uma. Sou milhares. Mas duas incorporam minha ladainha. Uma delas, a cética, ladra aos ventos e arranca do tempo mais dúvida para poder dizer que não. A outra, bélica estonteante, tem amante, se declara, fala sozinha e estende a mão a estranhos. A primeira não segue regra alguma, a segunda é estúpida e, através das duas, faço declamação. Deus Pai, concretiza-me poeta de tudo. Que eu fale por Tua Boca, que eu ande sobre Teus Pés e liberta-me desta chaga imunda de ser mulher em mundo de bíblias, arquétipos e tradições. Deixa-me, Senhor Deus, tornar-me Lilith e prometo entregar aos homens meu poder de sexto sentido, de adivinhação, de querer mais que alimenta e pão. Deixa-me Lilith, Senhor, tornar-me santa neste mundo fechado que não tem misericórdia dos entediados, dos abandonados, de meus semelhantes que vagam como eu. Que toda mulher seja homem e que o contrário se faça por feitiço. Que todo sexo seja libertino e que as ovelhas corram loucas no campo de abater. Liberta-me, Pastor. Sou mulher, ovelha, casta, escancarada e louca de viver.





Texto também publicado AQUI.
Inspirado na arte de Fernanda Franco.






Image by dearestapathy

23 novembro 2010

expresso temporário





Expresso





Ele afirmou, olhando pesado em meus olhos, que sou viciada em café. Sorri, olhando profundo no expresso, e guardei minha resposta na ponta da língua que mais tarde beijou a boca da única substância que realmente prejudica minha razão. Amor é um velho estúpido, ângulo agudo, a vértice de toda traição.





Temporário





Relógios se exibem aos falsetes das horas que engolem dias. Saímos o homem e eu. Ele estava decidido, em seu jeans ultra blue e camisa cor de rosa, que compraria o primeiro relógio de sua vida. Seguimos pesquisando em várias lojas qual seria o melhor modelo para pulsar o tempo. Relógios à prova d’água, relógios dourados, relógios caros, relógios baratos. Relógios e relógios e mais relógios. Parecia que no mundo só havia relógios. Tentei persuadir o homem a investir seu dinheiro em algo rentável que pudesse ser dele por muito tempo. Um grande investimento. Um relógio, por exemplo, pode ser seu por 24 horas + 24 horas + 24 horas por muitos dias e muitos anos a fio. Não sei bem se o homem entendeu meu raciocínio, mas o relógio foi comprado, negócio da China fechado, com direito à garantia e muitas regalias. Agora ele tem seu relógio pulsando tempo, dizendo horas, ditando obrigações e histórias. Quanto a mim, não uso relógio. Há séculos percebi que horas fogem de mim. Cansei de agarrar tempo que não me pertence. Porque é fugitivo. Será traiçoeiro o inimigo? E nos despedimos, o homem e eu. Ele levou consigo as horas e eu permaneci, ao dobrar de esquinas, esboçando meu ingênuo sorriso.







Image by spicy

21 novembro 2010

terapêutica





Siga meu conselho. Procure um terapeuta. E um que seja, de preferência, recém-formado. Que tenha fome de ouvir e procurar nó em chifre de cavalo. Entende? Eu encontrei o meu. É homem. Faz dois anos que frequento sessões quinzenais que muito me ajudam a viver a semana inteira esperando por outra sessão. É perfeito. Não tomo medicação alguma porque, segundo meu terapeuta, não preciso. Estou bem. Ele ainda não me diagnosticou, mas já arriscou alguns palpites e, sempre que arrisca, volta atrás e diz que precisamos caminhar mais e buscar mais respostas. Por mim está tudo maravilhoso. Adoro caminhar. E, ao lado daquele homem, subo até escadaria da Penha. Não que ele que seja bonito. Não é. Mas botei na cabeça que ele me ajuda e pronto. Minha cabeça é feita de tudo que acredito. E eu engano o terapeuta bonitinho. Há dias em que invento de chorar porque digo estar me sentindo traída. Ele me passa uns lenços e eu choro de me deitar no sofá e fico feliz com aquele homem olhando para mim com seus olhos semicerrados e sua expressão de Freud Explica. No início pensei que as sessões seriam gravadas como nos filmes. Mas não. Ele sempre anotou tudo. Em papel mesmo. Eu falo e, vez por outra, ele anota e diz que entende muito bem. Ele é tudo. Homem de armadura que fatura de mim 150 reais a cada 15 dias. O consultório dele era localizado na Rua General Osório quando comecei a me tratar. Agora ele atende em um belíssimo empresarial na Avenida Edson Ramalho a dois passinhos do mar. Que alegria é sair de casa, ver o azul do mar, o sol tostando os pobres miseráveis que transitam pelas ruas e entrar no edifício onde darei de cara comigo em uma sessão de terapia. Sento na sala de espera e vejo que a recepcionista usa sapatos apertados que lhe causam inchaço nos tornozelos. Mas nada digo. Cumprimento a mulher com um breve sorriso, sirvo-me de água e sento a ler Marie Claire. Assim deve ser o céu. Música ambiente, aroma de lavanda, poltronas confortáveis e muitos loucos que entram e saem do consultório de meu terapeuta. A janela tem uma bela vista de toda a via litorânea. Posso até ver a África se eu fizer pensamento positivo. E o dia está lindo perolado de um sol forte e nuvens distantes. O mar murmura suas ondas de forma angelical. Como estou feliz por ser maluca e poder fazer terapia com este homem que veste calças muito justas e deixam as partes íntimas muito espremidas e bem volumosas. Tento não olhar, mas é impossível. Ele fica como aqueles bailarinos e suas roupas apertadas. Ele deveria esconder mais aquele troço para que eu não o veja. E olha que não sou a paciente mais louca. Há outras. Devem agarrá-lo. Provavelmente algo mais deve ocorrer. Mas não me importo. Entro em sua sala, respondo que estou bem e sento no aconchegante sofá que me espera. Já fiz de tudo neste sofá. Hipnose, exercícios de respiração, preenchi questionários e minto minha vida a cada quinze dias. Hoje decidi dizer a verdade. Só por hoje falarei a verdade feito um bêbado evitando o primeiro gole. Conto de meus relacionamentos. Mas ele já sabe. Já falamos muito a respeito de tudo e do homem com o qual me deitei algumas vezes. Meu terapeuta não pode dar opiniões. Não diretamente. Mas sempre faz uso da famosa psicologia reversa. Ele me questiona por que ainda me deixo guiar por tal homem quando eu bem poderia ter muitos cavalos mais rápidos e velozes. Por que se envolve com alguém de tão baixa estirpe? Por que ainda se deixa fazer parte da vida de uma pessoa que simplesmente não tem vida? Por que se importa com um tolo que mal consegue sair do lugar? Por que fica a se punir se envolvendo com um mundo inferior ao seu? E por que se preocupa com coisas tão ínfimas quando o mundo é imenso e cheio de outras possibilidades? Você chora sem motivos, mulher. Sacudo a cabeça confusa. Não entendo a fala do interlocutor. Como pode um terapeuta falar com uma paciente dessa forma? Desde quando ele passou a falar comigo assim? Estranho o comportamento do homem a quem sempre menti uma verdade e agora ele me fala como se me conhecesse. Você não me conhece, eu digo. Ele me olha de forma feroz e me manda sair. Sua hora acabou. Pego você às nove. E esteja pronta. E não me venha dizer que não acha certo o que fazemos. Ele então beija minha boca com força e eu saio do consultório congestionada e confusa feito uma girafa em uma manada de elefantes. Mas sinto-me bem. Ao menos hoje ele me tratou de forma diferenciada. Hoje, finalmente, meu terapeuta não me deixou mentir e falou a língua que eu precisava ouvir.







Image by Adnil

18 novembro 2010

mundanos





Eu tenho um amigo crente. Ele frequenta uma dessas igrejas de gente que sai pregando o evangelho. Meu amigo prega o evangelho o tempo todo. E eu escuto. Logo, eu deveria ganhar o Nobel, ou ficar isenta de impostos, ou poder entrar de graça em ônibus e cinemas ou ainda ser beatificada. Porque o pote é bem maior que a rodilha. É dia e noite falando dos arrebatados enquanto eu, que não sigo dogma algum, penso em sexo. Ele fala e eu fico imaginando pessoas nuas. Minha cabeça é Sodoma e Gomorra. Tudo junto. E meu amigo prega e eu peco em pensamentos. Fico imaginando diversas posições sexuais. Todas que eu puder e conseguir fazer. Dia desses, enquanto ele pregava a respeito de luxúria e adultério, juro que fiquei excitada. Foi um tanto embaraçoso. Ele falando e eu me contorcendo imaginando uma cena de dar água nos olhos. Imaginei um homem atrás, outro homem na frente e um voyeur atrás da porta. Então meu amigo pregava e eu imaginava toda a cena de estar com dois homens fazendo o que o diabo gosta. Se bem que, em tempos de arrebates e pregação, só me falta que o diabo seja crente também. Não tenho nada contra religiosos. Que fique bem claro. Nada mesmo. Mas não suporto pregação. E comigo é assim, quanto mais intensa a ladainha, mas louca me sinto e não duvide se eu tirar a roupa. Acho que tenho fraco por parábolas. Eu amo os cristãos. Amo de boca cheia. Embora também os odeie. Eles e suas histórias de pecado, julgamentos e juízo final. Meu amigo acredita que realmente será salvo e viverá à sombra do altíssimo. Logo ele que passou boa parte da vida fazendo inferno com os outros. Eu lembro. Meu amigo costumava usar drogas e mulheres. E ainda traía sua mulher com a mulher de seu irmão. Ou seja, tudo em família. E veja só como os cristãos são up to date. Eles pecam bastante, fazem todo tipo de sacanagem, depois se dizem arrependidos e passam a integrar cultos e fazer pregação do evangelho. Ser salva assim eu também quero. Mas, antes disso, quero fazer sacanagem. E muita. Ficar atolada em meus pensamentos perniciosos que vão contra os domínios da boa religião e do comportamento cristão. E agora meu amigo fala a respeito do apocalipse. Eu vou concordando com tudo porque é exatamente no apocalipse que entro em curto. Adoro as histórias de demônios e chifres. E meu amigo continua. E eu sigo fervendo de vontade. E, então, a necessidade fala mais alto. Tiro logo a roupa toda e meu amigo, homem por criação divina, mesmo pregador do evangelho, não conta conversa. Faz o que só o diabo faria. Me come com vontade de que eu seja a mais pura das virgens. E, enquanto meu amigo me martiriza, eu digo amém e mudo de opinião. Pregue o evangelho em mim todos os dias, meu amigo, e salve minha indigna alma da perdição.








Image by DorisAnne

16 novembro 2010

diário bordô



Coitada da Helena Leocata que não gosta do sobrenome que tem. Por muitas vezes, de forma solene, Helena mente se dizendo Alcântara. Mas a mulher sabe que não se pode mentir o tempo todo. Algo sempre nos declara. E é nesta hora, de exibir documento de identificação, que Helena se torna Leocata. Não há como fugir. Sentada desde as onze da manhã (e o relógio já marca cinco da tarde), Helena passa o tempo entre um cigarro e outro, seu livro de bolso e lê e fuma que Benza-te Deus, tu vais morrer, Criatura. Leocata se distrai ao ver o decolar dos aviões. São muitos, tão sortidos, de tantas companhias aéreas. Helena está extremamente familiarizada com a história da aviação. Pensa em Santos Dumont e seus horrendos planadores que mal ensaiavam o voo e tombavam esqueléticos feitos de papel. Eram rudimentares e nada se comparam as aeronaves que ela observa da plataforma onde, sentada, lê e fuma cigarro após cigarro a doce Leocata. Helena sente-se burra. Suspira profundo enquanto pessoas caminham apressadas pelo saguão. Percebe que há mais pessoas tatuadas do que ela imaginava. São diversas tatuagens. Borboletas, luas, dragões, estrelas e todas tão coloridas. Eu poderia fazer uma tatuagem. Em um lugar íntimo. Talvez na vagina. Helena fica ruborizada ao perceber que havia pensado outra palavra ao invés de vagina. Helena não pode ser obscena. E já não quer mais tatuagens. Quer tomar uma xícara de café e comer pão de queijo. Pensa em se arrumar primeiro. Refazer a maquiagem e estar digna e bonita para a noite que chega. Outro avião decola e Helena pensa nas pessoas sentadas em suas poltronas, ao aperto do cinto de segurança, e visualiza a esperança que guia tantos humanos. Enorme estrondo fazem as aeronaves enquanto a mulher se comove ao perceber que sua solidão talvez esteja levantando suspeitas. Quem é aquela mulher que lê o dia inteiro? Ela decide se levantar e fazer algo. Caminha, vai ao lavatório e se arruma perfeita a Leocata. Já recomposta, Helena senta-se à mesa, pede o cardápio e, em alguns instantes, a mulher está sorvendo café e devora fumegantes pãezinhos de queijo na praça de alimentação do aeroporto. Que alívio sente Helena esboçando beleza e regozijo. Trêmulas estão suas pernas de um gozo derretido que apenas ela pode descrever. Sorri e pensa que o tempo traz mudanças. Só é preciso ter paciência. Helena Leocata já não se sente um terrível planador criado por Santos Dumont. Helena é histórica, moderna, gostosa, misteriosa e eclética. Sente-se terrivelmente bem, embora, minutos antes, tenha chorado no fétido banheiro, solitária e entristecida, feito uma gazela abandonada por seu companheiro.




Image by Nachan

09 novembro 2010

fitzwilliam





"A felicidade é um subproduto da função.
Você é feliz quando está funcionando."

(William Burroughs)




São três da tarde. Não. São duas e 58 da tarde. Gosto de ser exato. Estou à espera do homem que virá montar o guarda-roupa que comprei. A vida é tudo isso: guarda-roupa, fogão, trocar lâmpada do banheiro e amar errado. Aliás, amar errado é exagero. Se amo é porque amo e nunca o amor será errado. Ou será? Não sei. E minha narrativa é tão gasta quanto a vida é gasta e sinto falta da mulher que não presta. Eu tenho uma amiga. Éramos amigos. Sempre fomos. Sempre conversei de tudo com a mulher. E muita gente diz que ela não presta. Então faço meus cálculos. Quem desdenha quer comprar. Penso na mulher com tanto carinho que me atina uma vontade que não tenho. Ela é dos ares e eu sou libriano e acho todo mundo um bando de sacana querendo ver o mal do outro. E não sei montar minhas sentenças. E também não monto guarda-roupa. E o tempo chacoalha no relógio e eu fumo outro baseado. Penso em masturbação. Ando tão sem tesão. Nem de mim eu gosto. Uma amiga disse que masturbação é coisa de criança se descobrindo. Prefiro seguir a visão do Burroughs. Masturbação é autoconhecimento. Em um mundo cheio de pessoas extraordinárias e resolvidas eu me masturbo às 4 da tarde. Penso em muitas coisas. E penso na mulher que não presta. Ela me dizia que, às vezes, queria desistir de tudo. Como se fosse abandonar o navio. E eu dizia que também desistiria. Era recíproco até nisso o que a gente sentia. Até a fraqueza era a mesma. Talvez, por termos sido tão iguais, tão inescrupulosamente iguais, não tenhamos vingado. E eu não a amava. Ela apenas me preenchia um vazio que ninguém mais preenche. Cometo o crime de achar que encontrarei perfeição em outras pessoas. Moro em outra cidade agora. Meus amigos ficaram para trás. Fazer mudança é sofrer de parto, sempre digo. Mulheres devem saber como me sinto. Comprei apartamento, compro coisas e vou me estufando. Mas, ainda vazio, minto aos amigos dizendo que estou bem pra caramba. Mas não estou. E me falam a respeito do mal do século. Alguns falam em Jesus e salvação e eu tento ir ao trabalho sem que me sinta enjoado de tanta repetição e mentira por cima de mentira. Nunca fui pessimista. No entanto, sempre quis morrer. Nunca vi um motivo que me fizesse ficar aqui nesta vida só para cumprir tabela. Acho tudo muito chato. Pessoas, lugares e não penso em conhecer ninguém. Estou exausto de falso aperto de mão e sorriso forçado. Eu não aguento mais esperar o cara que viria montar o guarda-roupa. Ligo pra loja e já fecharam. Ninguém cumpre metas. Cumprir metas é tão patético quanto dizer que nunca pecou. Eu peco. Eu rezo. Faço até macumba. Acredito em ideais fajutos e, depois de beber, escrevo aos amigos que não tenho mais e peço desculpas. E escrevo à mulher que não presta. Ela é tão indigna que só mesmo ela para vir até mim e dizer que sente minha falta e que daria a vida por mais um dia ao meu lado. Por isso não presta. Porque é ingênua. E ninguém percebe ingenuidade atrás de um sorriso que finge ser forte. A mulher é como eu. Espera homem chegar, martela pensamentos e acredita que masturbação é pedir conselho ao próprio corpo pra saber que diabo de fome é esta que nos faz olhar o relógio a cada cinco minutos só pra saber se a vida ainda continua ou se alguém vai entrar pela porta trazendo flor ou carta ou chegar de joelhos pedindo perdão. Que ninguém saiba que somos iguais. Que ninguém saiba que também sou ingênuo e acredito em tudo que vejo. Telefono para a mulher que não presta, ouço a risada dela e o mundo fica para trás. Se eu soubesse que seria apenas assim, simples, ligar e me sentir em casa, eu teria ligado outras vezes. Você sabe. Eu teria ligado. Sou homem estilo crachá, que se vira sozinho e não me deixo passar por idiota. Mas, pela mulher que não presta, eu choro por horas. Choro no ombro dela e a gente se completa por sermos humanos. E nem vento entra em meu apartamento. Será que sempre é pedir demais? Vivo pela raiz tudo que a vida traz. Até meu azar de ser quem sou me faz ver que ainda há algo a se fazer. Talvez uma viagem. Talvez uma mentira a mais para esquentar o dia que termina sem rima. Sinto-me esquisito. Típico galã de filme retrô.








Image by cidaq

07 novembro 2010

cinderela beatnik





Estou em minha cama. Digna tecnologia a nossa. Eu poderia escrever tudo em papel e deixar palavras largadas ao esquecimento. Mas não. Tenho essa coisa miúda a qual chamam netbook. Mas é apenas um computador portátil. Nada mais que isso.

Verifico minha conexão.

Excelente.

Banda larga é elite? Então não me bando nem me alargo.

Escrevo apenas.

Deito-me nessa cama de madeira e colchão ortopédico. Meu travesseiro é daqueles que se moldam aos formatos. Dizem ser tecnologia da NASA. Para mim é apenas um travesseiro coberto por uma fronha estampada floral. Só.

Estou simplificada desde que aprendi a comer de minha própria colher.

E eu escrevo antes que me venha o elementar adormecer que nutre os mortais. Escrevo para dizer da festa a qual você não compareceu.

Esqueci-me de convidar-te?

Não é perfeita nossa vernácula?

Eu não esqueci. Seu nome era o primeiro da lista. Ordenei que, se porventura, chegasse tal pessoa de sotaque imenso fricativo e pulso forte, deixasse-o entrar.

Sua mesa reservei.

A seiva de todo o manjar esteve servida a você que não compareceu. Meu papo cinderela tagarela seria dirigido a você somente. Não é clichê o romantismo que nos une?

Mas você está longe. E, por experiência das dores, sei o que significa estar longe. Distante. Como se eu tentasse alcançar a prateleira mais alta. É assim que me sinto.

Ainda falando da festa, fora tudo maravilhoso. Muitos estiveram aqui. Muitos sorriram e dançaram à sombra da felicidade simplória. A felicidade que nunca nos atormentou. Porque éramos infelizes de mão cheia e adorávamos sofrer. Era bom sofrer ao seu lado. E todo sorriso que me ardia a face vinha acompanhado de um gemido. Fizemos sentido e deixamos rastro em tudo que agora vivemos.

E, durante a festa, eu quis, por duas vezes ou mais, anunciar seu nome. Dizer de você. Desejei poder tocar suas mãos e sermos honestos de uma vez por todas e darmos caras ao mundo. Sorri fraquinho porque agora visto roupa invertida.

Sou eu quem devo permanecer escondida.

Sou eu quem devo não me declarar.

Vida arredia que nos desvia de nossas tentações.

Mas eu teria falado. Por duas vezes seu nome encharcou minha boca de vontade de dizer que amo farto e me denuncio.

Vejam.

Olhem o ser que me corrompe noite e dia. É ele. O homem. Sereno obtuso de bom tempo. Minha augusta criação. É ele o anjo externo de meus sacramentos. Olhem nos olhos de meu delator.

Mas não anunciei.

Eu poderia? Já não me suporto mais sozinha. Batalhões andam a me cercar e não me farto de outras mesas.

Transitei em astros em busca de sua companhia. O manjar não sacia a fome em mim embutida. Quase deixei que o mundo ouvisse.

Bobagem minha pensar que ninguém sabe. Porque está em meu corpo, meus princípios, meu caminho há muito decidido. Traçado o mapa de minhas regiões, vivo de amor e faço listas de desejos utopistas para que você saiba que em toda festa sua presença será minha. Toda festa bendigo seu nome e repito a ladainha. Sou de amor único. Vaso de grande dose, porém, somente recebo baobás de seu porte.

Caio espantada na solitária neurose das estrelas.
Faço declarações.
Condeno mediocridades.

E sou verdadeira. Quando digo que há ceia, farto a promessa. Esteja certo que sua boca de tudo irá provar. A palavra nunca anunciada ou a sede de um vasto temporal. E que algo nos destrua a casa e leve consigo nosso corpo marginal entregue ao maiúsculo domínio de nosso mal. Adormeço elementar e desperto fortificada para outro dia de adoração. E hoje é outro pé na estrada. Que a vida urge e o tempo de mim se farta em voz severa e articulada forjada de preocupação.





Click-me.

.






Image by Ruben Añón