27 dezembro 2011

amadores













Drifters by Patrick Watson on Grooveshark








Vou falar de amor. Em um minuto ou dois. Tudo depende da velocidade do beijo, do medo, da ríspida indiferença em disfarce. Tudo depende da mordida em bela fruta, seus dentes, minha boca, a tensão. Fala-me ao ouvido. Gorjeia o pássaro sombrio homem em minha fala de mulher. Treme ao ouvir meu canto, rasga meu recato, aflora meus espaços e, em breve, tudo mais será nós dois.





― Como se escreve uma carta de amor?

― Toda carta se inicia pela data.

― Não gosto de datas.

― Você não gosta de nada.

― Gosto de falar baixo, gosto de gente perversa e de ver, diluídos ao sol, imensos cubos de gelo.

― Como quer começar?

― Que tal dizer um Olá?

― Olá? Isso não se diz em carta de amor?

― E o que se diz em carta de amor?

― Não sei. Menos olá. E a carta é sua. Escreva. O amor é seu.

― Vou começar pela data.

(Dezembro, mês cara de pau, vem atropelando o tempo...)

― Muito metafórico isso, não?

― É. Meu amor é burro. Ele nunca vai entender.

― Vai. Tenta de novo.

― Dezembro. Sinto vontade.

― Bom.

― Gato.

― Gato? Quem, neste mundo, gostaria de ser chamado de gato?

― Que tal felino? Que tal Meu Querido Thunder Cat?

(Risada. Risada. Risada)

― Escreve. Vou ditar.

― Dita.

― Meu bem...

― Meu bem? Meu amor não é meu bem. Meu amor é outra coisa.

― E o que é então?

― Meu amor é tudo (exceto aqueles cartõezinhos com aquele casal de bonecos pelados). Meu amor não é brincadeira. Está mais para bandidagem. Ele me fere, volta, me esnoba, eu entro em revolta, a gente morre de ciúme e briga feio. Um dia a gente ainda cai na cama. Dragão engolindo dragão.

― Vai. Escreve isso tudo que você me falou.

― Já era. Não consigo repetir. Perdeu o sentido após ser dito.

― Você é louca.

― Sou.

― A carta. Escreve.

― P.

― P?

― É a inicial.

― Mas o nome não começa com G?

― Não. G é coisa do mês passado. Agora é P de pavio, de prego, de palavra. P de pirata. P de pato.

― Como se pode amar assim tão rápido em tão pouco tempo?

― Um mês não é pouco tempo. São trinta dias, divididos em horas, minutos, segundos, outras bocas e outros olhos.

― Você é louca.

― Sou.

― Então inicia com p (de porra). E o que mais vai escrever?

 (Pausa para o pensamento vagar mais)

― Não sei.

― Já é tarde. Vou embora. Fica aí com essa merda de carta. Você é neurótica e metódica. Era só escrever um poema, uma citação... Qualquer coisa. Já que você ama tanto e todo mundo, não faria diferença.

― Faria.

― Faria?

― Fica mais um pouco.

― Não posso. Amanhã acordo cedo.

― Então vai. Mas leva a carta.

― O quê?

― Eu já disse tudo mesmo.

― Não entendi.

― Eu te falei que meu amor era burro.


Corado o rosto de surpresa e, contentes entre dentes, se beijaram no quarto andar. Descobriram que palavra fica em segundo plano. Amor é carta em branco. De toda cor, espécie e tamanho. Acordaram lado a lado no dia seguinte. Cúmplices. Pedintes. Similares medindo pesos e quantidades. Passaram seis meses juntos. Fizeram muitos planos. E depois terminaram o que era romance. Um mudou de prédio para não olhar mais na cara. O outro encontrou amor novo em folha. Hoje mal se esbarram. Mas passaram a trocar cartas. Datadas, cheias de palavras e, de amores, silenciosamente nostálgicas.










23 dezembro 2011

o diário de anton













Try A Little Tenderness by Otis Redding on Grooveshark







Não recebi cartões de Natal. Tampouco presentes. Mas estou feliz. O ano foi bom. Embora eu tenha perdido dois amores, me sinto completa. Um deles morreu de infarto e, o outro, eu mesma matei. Com minhas próprias mãos. Otávio era gentil e leal. Um homem sui generis. Tínhamos um relacionamento perfeito. Ele estava sempre a minha disposição. Costumávamos caminhar todas as manhãs, mesmo antes do café, cheios de fome, nós caminhávamos. E conversávamos a respeito de tudo. Desde assuntos familiares as nossas horas de cama, mesa e montar a fêmea do rebanho. Eu o amava de verdade. Mas ele morreu. Certo dia ele não apareceu para o nosso passeio e liguei para sua casa. Como ele não atendia, decidi passar por lá e ver o que havia de errado. Bati três vezes e ninguém respondeu. Apenas o cachorro latia e grunhia a minha presença. Uma senhora, vizinha de Otávio, percebeu meu ar de preocupação e chamou seu filho para pular o muro e certificar-se de que Otávio não estava em casa. Mas o carro estava na garagem. Mas a casa estava trancada por dentro. Mas o corpo estava imóvel na cama. Foi então que chamamos o corpo de bombeiros, polícia e, logo, a casa estava cheia de gente estranha que não conhecia Otávio e eu, no canto, calada sem acreditar em nada, ouvia alguém ressoar o laudo: infarto. Chorei. Enterrei meu namorado e parti pra outra. Ou outro. Anton, escrito assim mesmo, era alemão. Homem culto, bonito e cheio de desembaraço. Fui arrebatada por ele desde que o vi pela primeira vez. No enterro de Otávio, ele chorava por seu amigo brasileiro. Senti tanta compaixão por ver aquele homem chorar que me encantei. É bonito ver homem chorar. Meu instinto materno berrava por aquele homem. Meu corpo queimava por ele. Anton veio me dar condolências. Ele sabia de meu relacionamento com Otávio. Aproveitou para me convidar para tomarmos um café (eu estava abatida, segundo Anton). Precisava respirar. Enterramos Otávio e saímos juntos. Bebemos e fumamos. E Anton fumava lindamente. Nunca vi um homem fumar de maneira tão perfeita. A fumaça dançava ao seu redor e ele falava e mais fumaça saia de suas narinas e eu me embriagava com a sua voz e eu o queria tanto. Quatro horas após o enterro de Otávio estávamos, Anton e eu, fazendo amor. O corpo do homem era uma verdadeira escultura. Tão belo vestido. Tão belo despido. Suas costas eram claras, assim como o resto de seu corpo, sua boca avermelhada e sua barba lhe davam ares de deus. Eu estava fazendo amor com deus. Era sempre assim. Anton não caminhava, não estava a minha disposição noite e dia e costumava desaparecer de vez em quando. Descobri que Anton mantinha família na Alemanha e outras mulheres por todas as cidades que havia passado. Descobri tudo lendo seu diário amarrotado de tantas vezes que ele escrevia a respeito de sua vida. Anton havia saído para comprar jornal e fiquei sozinha em seu apartamento. Vi o diário e não hesitei: eu li. A cólera me tomou o corpo inteiro. Ele me citou apenas uma vez em seu diário. Li um trecho em que ele dizia quase sentir amor por mim. Eu chorava ao ler isto. Ele quase me ama? Não consegui parar de ler. Cólera, ódio, desespero. Cai em pranto quando li uma página datada do dia do enterro de Otávio, em fortes palavras escritas por Anton, que sabia que me teria facilmente. Sublinhou-se ao dizer que mulher sem homem é sempre a mais faminta. E falava de outras mulheres. Falava e guardava fotos entre as páginas. Mulheres nuas, mulheres baixas, feias, lindas, velhas, moças. Anton não tinha limites. E, para todas as mulheres, um nome apelativo: Flor, Sueca Curvilínea, Deusa da Argentina e outros nomes. Mas um me fez sofrer profundamente. Havia uma mulher que ele costumava chamar de Amor Meu. Enlouqueci ao ler aquilo. Eram páginas inteiras devotas a esta mulher. Havia citações, poemas, fotos de meu Anton. Cólera, ciúme, eu o mataria. E, enquanto eu me tornava mais furiosa, Anton entrou em seu quarto sorrindo. Veio em minha direção e eu, sentindo-me traída, o apunhalei com uma tesoura. Enfiei a tesoura muitas vezes no corpo de Anton. Ele sangrou muito. Eu chorei. Ainda me deram o direito de ir a seu enterro. E agora estou na prisão. Ainda amo Anton. Mais que antes. E principalmente após ler o seu diário até o fim. Descobri a quem ele se referia quando escrevia Amor Meu. Ele se referia a mim. Havia fotos minhas nas páginas seguintes. Fotos tiradas enquanto eu dormia. Fotos de nossas mãos unidas na cama. E sempre que adormecia ele tirava fotos minhas. E também havia uma lista de planos. Anton iria me dizer de sua vida na Alemanha. De sua família. Ele iria me pedir em casamento e ficaríamos juntos. Eu li tudo após, tranquilamente, ligar para a polícia e dizer de meu crime. Sentei-me na cama e terminei de ler seu diário. Anton estava morto no chão banhado em sangue e eu não mais chorava. Eu sorria enquanto ele sangrava. Afinal de contas, Anton me amava.








21 dezembro 2011

sexo por telefone?















Só Se For A Dois by Cazuza on Grooveshark








Meu nome é Gabriela. E todos me chamam de Gabriela. Eu nunca quis ser chamada de Gabi. Moro sozinha, no centro da cidade, bem pertinho do Mercado Central. Estudo Ciências Sociais, trabalho 8 horas por dia e tenho 28 anos. Posso dizer que sou feliz porque, até hoje, nada de tão grave me ocorreu. Duas ou três mortes na família não são suficientes para fazer de alguém uma pessoa infeliz. Sou feliz. Mas tenho momentos de não estar feliz. Assim como todo mundo. Não pago minhas contas em dia, ligo para meus pais esporadicamente, frequento festas quando tenho vontade e também quando não estou nem aí. Como pode ver sou normal. Ou quase. Porque não faço o que muitos fazem e se dão por satisfeitos. Percebi meu problema há dois dias: NÃO SEI FAZER SEXO PELO TELEFONE. Simplesmente não consigo. Não sei o que tenho de errado. Dei o número do meu telefone para um cara que conheci. Gostei dele e dei meu número. Ele passou a me ligar sempre. Quase todo dia. E, já na segunda ligação, começou a gemer. Pensei que ele estivesse bêbado. Mas não. Ele estava excitado. Como assim excitado? Sem toque, nem nada? Mas ele estava. Ou disse que estava. E começou a gemer e a dizer que me queria ("com a voz terna, cheia de malícia"). Te quero, quero você pra mim, estou tocando você, abre bem as pernas, agora estou chupando você. Meu Deus que perdoe porque não consegui seguir o ritmo. Fiquei deitada em minha cama tentando imaginar aquele cara me beijando, me tocando, me tudo. Tentei me sentir como ele estava se sentindo. O cara estava gemendo e se acabando fazendo coisa que menino de 16 anos faz trancadinho no banheiro pra não morrer de vontade. Fiquei toda torta fingindo estar excitada. Vai, faz assim, me beija, bem molhada. Só de pensar entro em paranoia. Porque o cara estava a mil por hora e eu me senti uma mula cansada de correr. O cara perguntou por que eu ficava em silêncio enquanto ele me dizia todas aquelas coisas. Eu calei ainda mais. "Você é recatada, sabia? Cheia de medo, de frescura, cheia de pudor. Você é frígida!". Gente, isso me feriu. Não muito. Mas feriu. O cara meteu a cara em assunto sagrado: SEXO. Eu gosto de sexo. Faço sexo. Conjugo sexo. Mas não quis me explicar. Afinal de contas, só nos conhecíamos por telefone e eu não sabia bem o que dizer. O cara estava ali, todo se gemendo, dizendo que estava sentindo meu corpo na ponta dos dedos, e eu, nada. Fiquei calada. Por isso o cara deduziu que eu sou frígida. Mas ele sequer me conhecia. Por isso eu preciso dizer que, por telefone, meu caro, só cobrança, só fala de mãe, só conversa de amigo. Marco até encontro, dou vexame dizendo que não estou, dou risada. Mas sexo, trocar saliva por saliva, beijar na ponta da língua, só faço ao vivo. Se amor e sexo estão para as pessoas assim como o piso está para os pés, digo a você que não sou cheia de pudor, nem recatada, nem porra nenhuma dessa sua imaginação fértil de me ver na sua frente sem ao menos saber quem eu sou. Na verdade, meu caro, sou da antiga escola que acredita que "amar de verdade só se for a dois". Sexo por telefone não excita. É saída de emergência para gente que tem medo, que se acha feia, ou vive em segunda pele outro tipo de vida. Eu vivo o dia. E, além do mais, não quero provar meu anti-recato, meu despudor, minha vagina em webcam. Na verdade, meu caro, percebo agora que o frígido aqui é você.











16 dezembro 2011

solitários













Solitários quase sempre buscam companhia em bancos vazios, planejam amores nas sufocadas vozes em longos telefonemas fora de alcance e morrem nadando em mares de tantos peixes. Todo solitário é masoquista. Castigam sua dor fazendo reverência a reis depostos, inflam balões para festas que nunca serão convidados e invejam camas onde nunca irão desabar cansados do êxtase que não houve. Solitário é sempre vítima de abandono. Autoflagelado que chora egoísta por uma visita, uma mão que o contorne em traços, um abraço convulso de paixão. Solitário é sempre o cão banido de casa. Um espetáculo de pessoa que desmorona em autopiedade frente ao espelho, chora na quina do quarto e sorri quando amanhece e veste a máscara da espera por outro dia que começa e por alguém que talvez interrompa seu estado mórbido de sofrimento. Todo solitário é mais humano.










Image by Antonia

13 dezembro 2011

tarja preta










Que fique claro como o sol refletido em poça d’água: não tenho medo de tanta coisa assim. A não ser de barata, de gente afetada e de homem que me cumprimenta sem saber quem sou. Boa educação não me aquece. E seu corpo também não. Após nos esbaldarmos mendigos morrendo de sede, direi, enfim, o que desejo. Talvez um disco do Paul McCartney. Talvez eu queira terminar de dizer aquela frase. Ou talvez eu me permita ficar calada. Em boca fechada não entra nada. Nem língua, nem mosca, nem sobra de vontade requentada. Não suporto resto. Nem foto recortada que é para doer menos o que tanto ameaça. Já reparou que estamos sempre em temporada de caça? Queremos, caçamos, usamos, partimos e mais egoístas nos tornamos. Sequer respeitamos restos mortais. E ainda reclamamos de tudo dizendo que sofremos, que morremos, que somos vítimas, que poderíamos ser felizes. Mas como ser feliz? Quem nos diz? Como ser algo sem saber que é este o momento, que está acontecendo, que estamos conseguindo? Não há receita. Ou pista. Não estamos jogando Detetive na mesa da sala de jantar da casa de nossos pais. Coronel Mostarda deixou a biblioteca trancada. Não houve crime. Houve nada. Estamos em nossas próprias casas, valorizando pessoas sem graça, alimentando sonho comido de traça e forjando riso para dizer em voz alta o quanto é satisfatória a vida que levamos. Somos hipócritas? Somos humanos. E conheço gente que evita cocaína, mas se entope de tarja preta. Somos humanos e contraditórios. Loucos pela vitória cultuamos a derrota para que possamos chorar nossos minguados e adoramos fazer sofrer o próximo para que valha a pena nossa esmola. E sobre o que eu falava? Já não lembro. Minha boca fechada se abriu e agora beija a sua que reclama o tempo todo porque você está sempre faminto por excessos e me devora farto de barriga cheia.










Image by Reggie Mace

12 dezembro 2011

abigail




 








Abigail me encontrou nos classificados. Eu já estava cansado de namorar meninas cheias de conversinhas e ideias implicantes de ciúme e asneiras que envolvem relacionamentos românticos. Decidi que teria ao meu lado uma mulher independente, dona de si, que pagasse suas próprias contas e que fizesse sexo oral sem que eu tivesse de implorar. Liguei para o jornal e pedi que colocassem a seguinte nota nos classificados:

Homem. 32 anos. Procuro mulher independente, gostosa, inteligente e boa de cama. Uma mulher que trabalhe por si mesma, que não reclame da barba mal feita, dos respingos de urina ao redor do vaso sanitário e que tenha coragem para viver relação sem cobrança ou discussão. Procuro mulher que esteja pronta para amar a dois.

O cara do jornal, do outro lado da linha, disse que minha nota precisaria de alguns cortes. Nada de gostosa. Nada de urina. Nem boa de cama. Paguei mais caro pela nota para que fosse publicada ipsis litteris. Recebi dezenas de telefonemas após a nota ser publicada. Noite e dia. Marquei encontros, tive várias conversas que terminaram somente em sexo comum (cheio de trivialidades e beijo sem gosto de novidade). Mas, enfim, entre todas que me ligaram, surgiu Abigail. Jovem, bonita, cabelo curtinho. Foda à primeira vista. Nos encontramos em um bistrô. Após o café, percebi que, finalmente havia encontrado a mulher certa para os meus fins. Levei Abigail para casa e trepamos de forma excelente. Foram muitos dias de amor e sexo da forma como eu esperava viver. Abigail e eu éramos o par perfeito. Ela trabalhava e eu não precisava lhe comprar presentes para provar o meu amor. Ela não reclamava. Ela sorria muito. Ela não me ligava a cada instante para saber se eu estava pensando nela. Eu a amei. Mas tudo acabou quando, um dia, Abigail chegou em casa bêbada às três da manhã. Eu não suportei vê-la embriagada, semi despida e cheia de riso na boca. Brigamos. Abigail ficou furiosa e partiu no dia seguinte. Senti saudade. Muita falta de Abigail. Um dia a encontrei para uma conversa de acerto de contas e perguntei por que ela havia respondido ao meu anúncio no jornal. Foi então que descobri. Abigail queria o mesmo que eu. Amor sem cobrança, sem drama, sem responsabilidades. Ela me beijou o rosto e foi embora. E eu suspirei profundo, tratei de viver meus dias e nunca mais coloquei anúncio em jornal algum.











Image by kimberliepee

08 dezembro 2011

irônica funerária











Lícia de Albuquerque Queiroga gostava muito de limpeza. A mulher estava sempre limpando a casa, espanando móveis, lustrando faqueiros e varrendo a calçada. Era noite e dia varrendo a calçada. De vestido florido e avental cobrindo o corpo, Lícia corria com a vassoura na mão e não deixava uma folha sequer em frente de sua casa. Dizem os vizinhos que ela vivia reclamando das folhas da árvore da casa ao lado. Porque a árvore infestava sua casa de folhas, de sujeira, de imundície. Lícia morreu faz dois meses. Visitei ontem seu túmulo no cemitério da Boa Sentença. E o mais engraçado de tudo é que ela fora enterrada sob um pé de graviola que suja seu jazigo inteiro.









Image by gzilbalodis

06 dezembro 2011

legítima











Os casais desesperados da Praça Pedro Américo parecem canibais. Percebo o quanto é flor o amor que sinto e sorrio ao pensar que amo mais que o tinto ardente em gargantas. E ríspido o vinho me amortece porque amar é abismo e, entre meus ofícios, está o maior: amar de sinal aberto e tomar café sem açúcar e amar todos e muitos, um de cada vez. Outrora traí. Meu homem de face escarlate não valia mais que um súbito ataque de euforia. E este me fez nascer de um inferno porque vi demônios e cavalos nas verdes colinas e doente era o amor. Traí e não padeço de arrependimento. Aprendi que todo crime cometido com êxito não traz lástimas e dizer que há perdão é desfazer a perfeita obra que me deixou o amor. E bebi devota de sentidos. Cavalguei e escrevi poemas. Grande amor de fazer tremer o canto da boca, eu o torno legítimo sempre que me largo e descansa minha língua em sua língua e nos devoramos. E os casais ainda se beijam. Em detritos da Praça Pedro Américo mulheres fazem escambo de seus corpos e eu sou a favor do zelo de tais mulheres porque alimentam seus homens e não deixam rastro de fome que os faça fustigar por outras esquinas. Amor é morte ou será que morro de amor e culpo minha própria sede? Afetada, fumo um cigarro. Traída, amo mais e, se me escapa das mãos o amor que tenho, sou voluntária e rastejo sem vergonha ou pudor porque é este o transtorno que causo. Eu amo sádica, intransigente, pornográfica e me rasgo e não me deixe viver doente salivando ao ver os casais da Praça Pedro Américo. Eu sou legítima culpada e dou de ombros aos que fingem não saber nada e aos que bebem em regras quando tudo é libertino. Amor é prova perfeita de diversas mortes quando se movem pele e músculos ao caos do mesmo ritmo.








Image by Tigress66

04 dezembro 2011

sobre cigarros e álcool











Fumar mata. Sei disso. Sempre que acendo um cigarro, penso: estou morrendo. Mas não estaremos todos morrendo? Mas a diferença está na forma como se morre. Sofrer de um câncer causado por cigarro deve ser um dos piores tipos de sofrimento. Ou ter um infarto. Ou doenças circulatórias. Dia desses fui comprar cigarros e vi, estampada no maço, uma foto de um bebê morto. E dizia: vítima do cigarro. Me assustei. A foto realmente me causou repugnância. E, mesmo assim, acendi o cigarro. E, enquanto eu fumava em uma área aberta de um shopping da cidade onde moro, pessoas me olhavam como se eu estivesse segurando uma bazuca. Ou como se eu estivesse fumando crack. Me senti pelada e criminosa. Não há coisa pior. Como eu posso estar fumando este cigarro sabendo que ele está me fazendo mal? Porque é vício. E todo vício é ruim. Todo vício tira nossa liberdade. A sociedade está armada contra o vício do cigarro. Concordo que campanhas de conscientização sejam feitas. Embora não existam mais tantos fumantes desavisados a respeito do mal que estão fazendo a si mesmos. Mas não fazem mal somente a si mesmos, muitos dizem. Fumantes fazem mal a todos que estão ao seu redor. Além de destruírem seus organismos com as milhares de substâncias tóxicas e cancerígenas, estão, também, impedindo que outros respirem ar puro. Mas que ar puro? Então criaram os fumódromos. E lá estavam os fumantes agrupados fumando e morrendo juntos. Cena mais que perfeita. E agora querem destruir de vez com os fumódromos. Quer fumar, amigo? Vá fumar dentro de seu banheiro sufocado por sua própria fumaça. Deixe a sociedade respirar saudavelmente em paz. Fumante, em nossos dias, é tão mal visto que chega a sentir vergonha por fumar. Então eu penso: preciso parar de fumar. Estou me matando, ficando cinza e meus pulmões devem estar destruídos. Concordo com toda verdade. Mas não suporto cegueira. Dizem que cigarro mata, fazem campanhas e mostram a atriz Luana Piovani, gravidinha e feliz, dizer em revista que largou o cigarro e a maconha (Mas era sua obrigação parar com as drogas, Luana. Seu filho não é obrigado a consumir a mesma droga que você). Acho muito bela esta conscientização. Mas e o álcool? Ninguém fala mais nisso? E os acidentes com vítimas fatais causadas por motoristas embriagados? Elas não entram nas estatísticas das vítimas do consumo excessivo de álcool? E as famílias que sofrem por causa do alcoolismo? O mal estar psicológico dessas pessoas também não entra nas estatísticas? E os cirróticos? E os diabéticos que adquiram essa doença devido ao alto consumo de álcool? E os adolescentes que bebem todos os dias escondidos de seus pais? Tudo isso não entra nas estatísticas? Estamos todos belos e contentes combatendo o cigarro. O governo e a sociedade querem, de vez, acabar com o consumo de cigarros. Façamos isso. Mas antes, mostremos também o mal que a bebida pode causar. Estampem nas garrafas ou latas de bebida fotos dos males que o consumo exagerado deste produto pode causar. Mostrem a verdade que existe por trás de cada gole. Conheço muitas pessoas que bebem. E bebem muito. Não estarão essas pessoas morrendo também? E matando? Por que não aproveitar e acabar com cigarro e álcool de uma só vez? Por que não fazer campanha que mostre os malefícios do consumo do álcool? Resposta simples: Cigarro mata aos poucos. E isso custa caro ao governo. Tratar um doente de câncer ou enfisema é bem mais caro do que enterrar dezenas de vítimas fatais assassinadas por motoristas bêbados. Ou seja, "vamos celebrar a estupidez humana", parar de fumar e encher a cara nos fins de semana. Sem dúvida será bem melhor. Pare de fumar. Afinal de contas, meu caro, fumar cheira muito mal e pode matar você. 







Image by serico

01 dezembro 2011

sob o vadio olhar dos cães












As Time Goes By by Billie Holiday on Grooveshark







Conheci uma mulher muito bonita. Creio que posso afirmar ter sido uma das mulheres mais belas que já vi. Pernas grossas, cabelos negros, olhos curiosos e cerejas tatuadas em seu pulso esquerdo. Eu estava sentado ao balcão. Ela ia e vinha buscar sua bebida. Sorriso aberto de boca avermelhada de batom. Deixou marca no copo após beber seu uísque. Diversas doses. Dançou como se celebrasse seu corpo e me olhava de um jeito que só mesmo o diabo enfrentaria deus. Eu ruborizei minha cara pela mulher. Eu, um homem já crescido, vencido por beleza sem nome. E ela dançava enguia em minha mira e todos a olhavam. Senti ciúme. Eu, que sequer a conhecia, já sentia ciúme. Um cara se aproximou e tocou o ombro da mulher. Ela me olhou como uma criança que pede permissão para brincar. Assenti com a cabeça e sorri. Ela dançou com o cara. Duas músicas. Enchi meus olhos ao vê-la se equilibrando em salto alto. Eu entregaria tudo por ela. Naquela noite, nesta vida, a todo tempo, tudo. Mais uísque e outra música. Eu já amava a mulher que me olhava serpente ébria dançando por todo o bar. Nos olhávamos com desejo. Era como se nos conhecêssemos. Já éramos cúmplices de um crime sem culpas. Senti que já era hora de fazer algo. Saber seu nome, ouvir sua voz, olhar nos olhos. Talvez tocar de leve o rosto. Talvez beijar-lhe a boca. Levantei e fui ao seu encontro. Ela sorriu enquanto eu caminhava em sua direção. E nos olhamos. Bem de perto. A luz fosca arroxeada do bar iluminou parte de seu rosto. Vi seu olhar. Toquei suas mãos, sua cintura, confrontei a musa eufórica. E veio a súbita vontade do beijo. Profundo do mais viril mistério. Mas hesitei. Ela me olhou compreendida. Sorrimos porque sabíamos do caminho que talvez viesse nos encontrar: paixão, medo, e todas as misérias que sufocam o que havíamos encontrado um no outro, ali, alados, de uísque loucos e embriagados. Me distanciei da mulher, paguei a conta e sai. Não olhei para trás. Estou certo de que ela também não olhou. Mas eu amei veloz a bela mulher por duas horas e alguns minutos. E já era tudo. Sei que outro dia vou dar de cara com mulheres mais belas em outros bares. E ela vai estar com outros caras. Melhor mesmo não termos fincado passo de apaixonados abobalhados desperdiçando o que vivemos. Agora somos eternos pelo adiado evento. Era tarde e as ruas estavam vazias. Voltei para casa inebriado sob o vadio olhar dos cães.








Image by Olivia

29 novembro 2011

anseio filosófico












Eu queria muito ser comum. Comum feito gente que come maçã. Gente que anda a pé, que odeia domingo, que sente depressão, que mata barata, que lê jornal, que assiste televisão, que paga conta, que deixa cair xícara, que ri dos outros, que vai à missa, que sente vergonha, que usa roupa do avesso, que gosta de aniversário de criança, que viaja de mala e cuia, que gosta de laranja, que conversa na calçada, que mal enxerga e, quando vê, quase nada. Gente que compra bicicleta, que faz dieta, que fecha porta e abre janela, que faz comida, que toma café, que fica doente, que acha graça, que não vê tristeza na miséria, que guarda garrafa de vinho e enche de água pra enfeitar geladeira. Eu queria guardar rancor. Queria caminhar pelo centro da cidade, visitar amigo durante o dia, cuspir no chão, brigar no trânsito, achar que poesia é bobagem e, livros, simples pesos de papel. Queria não sentir rubor. Eu só queria seguir a regra. Ser gente feita de perfeita matéria e homem feliz com a vida milimetrado feito régua. E, se possível, saber exatamente o que sou.








Image by WaldekBorowski

23 novembro 2011

mestiço











Sinceridade te basta?
Ando precisando de uma dose de grosseria,
(com todo o prazer do palavrão).








A buganvília morreu. Ressecou o tronco, as folhas começaram a desaparecer e acabou. A buganvília morreu. Como não entendo nada de botânica, larguei-me a pesquisar o nome exato da planta. Entre trepadeiras, flores rosadas, roxas e o escambau, encontrei definição de porte científico:

Bougainvillea Spectabilis.

Então a bougainvillea spectabilis morreu. O muro agora está sem proteção. Porque os galhos eram cheios de espinhos e ninguém tentaria invadir a casa tendo tantos espinhos pela frente. E você me liga no meio de minhas abstrações para dizer que está tentando se equilibrar. Que está tentando, com todo esforço, ser feliz não sendo. Porque, segundo você, a felicidade interrompe nosso fluxo de conflitos, nos deixa patéticos, cegos, esquisitos. Você me disse que deseja apenas segurar a onda. Eu ri. Educada por fora, eufórica por dentro, molhada nas bordas. Senti vontade de dizer palavrão. Um palavrão bem grande de porte popular. Você me ligou para dizer que sua vida é pesada em fardo, mas, que você, expert em autodestruição, está sendo sensato e praticando exercícios, sorrindo quando acredita ser preciso e se alimentando de forma saudável. E disse também que muita coisa dói: obrigação, amigos, família, contas a pagar. Muita coisa dói. Eu sei tudo a respeito disso e concordei com a voz forçadamente calma e fisicamente rouca. Aí você veio perguntar se estou bem, me aconselhou a ir devagar, disse coisas harmonicamente combinadas com seu riso de mestiço. Mas a verdade é sempre outra. Você perdeu a direção. E agora me liga dizendo coisas. Coisas que você precisa dizer para si mesmo porque está aflito tentando acreditar em tudo que diz. Então liga (vez ou outra) para me dizer que está errando seus alvos de propósito. Diz que passa o dia tentando se certificar se é mesmo prova de insanidade tudo o que você pensa. Você tem medo de enlouquecer, de se deixar, de saltar sem rede de proteção. Mas o incêndio se alastrou. É isso. Crianças, quando saem para brincar, quase sempre voltam feridas para casa. E você está ferido, sozinho (e ainda diz que sente alívio), fuma seus cigarrinhos, frequenta festinhas e, durante a semana, quando a sede cansa, me liga dizendo que está foda levar adiante. Que mais eu posso dizer senão phoda-se (com ph ácido de raiva). Eu não me importo com a solidão dos outros. A não ser quando ela me atinge. E a sua solidão me aflige porque é detestável ver você caindo em más línguas, irradiando vaidade após sexo de mão única, quando, na verdade, seu caminho é dúbio. Desliguei o telefone com a boca cheia de vontade de dizer a verdade: A buganvília morreu. E meus espinhos ferem tanto quanto os seus.





Napoleon by Ani DiFranco on Grooveshark





Image by TESS.

20 novembro 2011

entre jabutis e pererecas








O aspirante a escritor decide se expor. Cria um blogue e passa a escrever sua ficção (em prosa ou poesia). Recebe meia dúzia de elogios por dia porque seu trabalho é admiravelmente bom. Logo surge o conselho: publique. O blogueiro, aspirante a escritor, percebe que pode publicar. Há editoras que irão aceitar seu trabalho. Ou então, busca, incansavelmente, algum patrocínio para publicar seu primeiro livro. Ou banca a publicação de seu próprio bolso. E consegue. De livro publicado, o blogueiro torna-se escritor. Passa a ser visto de forma diferente: já não é apenas um blogueiro. É alguém que possui prefácio e ficha catalográfica. E, deste ponto em diante, surgem convites para eventos literários (saraus, palestras, chatices e tolices que em nada resultam). Mas é literatura, todos creem. O blogueiro escritor fica de igual para igual sentado à mesa ao lado de escritores de renome (reconhecidos por pares, ímpares, jabutis, pererecas e acadêmicas teses inclinadas à bajulação). Mas o blogueiro escritor percebe que há olhares de fajuta aceitação. Nunca será aceito entre os grandes, médios e pequenos autores que rezam suas barrigas cheias de genialidade e talento. O blogueiro corre contra o tempo e busca portais literários para que seu trabalho cresça e apareça. E chove publicação. Então o blogueiro começa a se sentir profissional. Já não pode mais exibir seu trabalho em um simples blogue perdido entre milhares de outros blogues. Agora é escritor de boca cheia. E precisa ser visto. Então seu blogue torna-se uma vitrine de seu trabalho: fotos em eventos, banners de vários sites voltados à literatura, muitas resenhas críticas a respeito de muitos livros. E assim o blogueiro torna-se, assumidamente, um escritor de peso (talvez pena ─ talvez pesado). Reconhecido e canonizado. Amém.

Não.

Isto não ocorre. É ilusão.

Publicar livros é parte do trabalho de quem escreve. Ter opinião crítica acerca de outros autores é parte do trabalho de quem escreve. Publicar um livro não eleva o escritor. Publicar mais de um livro também não. Ser citado em sites e periódicos literários é apenas reconhecimento ou febre do momento. Perdoem-me aqueles que talvez sintam-se tocados pelo que estou dizendo. Mas ando angustiada com o que vejo ao meu redor. Sempre li e acolhi blogues como se fossem minhas leituras diárias. Eu buscava ficção, novidade, palavras. Buscava poesia. Agora meus blogues favoritos parecem mais propaganda eleitoral. Acesso o blogue e vejo apenas uma enxurrada de links que, pomposamente, publicaram os blogueiros/escritores que eu costumava ler. Fico feliz que tenham sido reconhecidos. Eu os lia com o mesmo respeito e afinco que leio Machado de Assis ou qualquer um de igual tamanho. Eram escritores aqueles blogueiros que eu costumava ler. Mas acontece a fama (esta coisa pequenina que muda algumas vidas e morre seca com o passar dos dias). E o blogueiro torna-se profissional e não pode mais se rebaixar ao nível de publicar sua obra em blogues porque todos negam dizer, mas dizem aos cochichos: blogue não é literatura. Esta teria sido minha resposta a um professor que me ligou para saber mais a respeito da literatura virtual. Sim, ela existe. Foi o que respondi. Mas o meu pensamento era outro. Eu menti porque sinto muito quando vejo autores de blogues agindo da mesma forma elitista que agem muitos membros da academia. Altivos, cheios de grifos e tragicamente esnobes. Afinal de contas, escritor de verdade não perde tempo com blogues. O escritor de verdade escreve livros. E publica crônicas e resenhas em jornais. E recebe prêmios, dorme de bruços, arrota aforismos, autografa aos rabiscos e esquece a arte. Espero que voltemos ao tempo em que escrever era o primordial.









Image by Alex Clark

15 novembro 2011

areia e tempo









Eram felizes juntos. Em uma pequena casa no campo. Não havia cercas ao redor de nada. Tampouco bichinhos ou paisagem bucólica. Era apenas uma casa cercada de areia e tempo. Nunca reclamavam ou brigavam ou discutiam. Não havia motivo. Faziam amor e sentiam-se contentes. Juntos estavam completos. Mas, ao chegar o asfalto e outras casas maiores e mais reluzentes, perceberam que não eram felizes. Sentiram-se incompletos. Ao chegar o asfalto e a cidade cheia de suas novidades, pereceram infelizes e civilizadamente doentes. E tornaram-se, com o passar dos dias, invejosos.








Augusto chegou às nove. Abri o portão. Eu o recebi timidamente. Não houve abraço. Apenas um sorriso de pertencimento. Percebi que ele havia engordado. Não comentei. Sou elegante e discreta: gato com rato escondido entre os lábios. Augusto entrou em minha casa. Percebi que ele estava sem jeito. Tentei fazer com que se sentisse bem. Livre, talvez. Tomamos café juntos. Sentados à mesa, conversamos amenidades. Ele deve ter notado diferenças em mim. No entanto, também não comentou. Augusto é quieto: leão com a presa entre os dentes. Ele trouxe apenas uma mala com poucas roupas. Eu realmente não esperava que ele passasse mais que o suficiente para termos de nós o que o corpo necessita. Augusto guardou suas coisas em meu guarda-roupa. Arrumei um quarto para que Augusto dormisse sem que as horas o incomodassem. Será que Augusto percebeu o quanto tentei ser gentil? Minha gentileza: lebre fugindo da seca. Chegou a noite e Augusto adormeceu. Encolhia-se de medo como criança sem mãe ou apego. Dormi ao seu lado. Encolhi-me obediente: cubo de gelo que não derrete ao sol. No dia seguinte, Augusto saiu. Augusto saiu por dias seguidos e retornava à noite. Era preciso que ele saísse para que ninguém o visse em minhas salas. Aproveitei o tempo e arrumei a casa. À espera de Augusto, arrumei a morada. E, quando ele voltava, era o soldado derrotado que eu recebia. Eu o acolhi em meus braços, em meus beijos, em meu afeto: serpente protegendo seus genes. Dormimos e acordamos unidos e separados por pensamentos. Percebi outras mudanças em Augusto. Seu corpo não era mais tão preciso quanto em outros tempos nossos. Ele estava cansado, triste, morto de olhar vivo: caçador vítima de seu próprio extermínio. Em nossos corpos, outras marcas. Em nossas bocas, outras falas. O tempo fora imenso entre nós desde nosso último encontro: mutantes silenciados por outros seres. Foram quatro dias de muito tempo. Tomei de Augusto um pouco de seu ar, de suas vidas, de seus azares. Ouvi suas histórias como ouve o sermão a mulher que deseja o perdão. Segui seu sorriso pelos poros de seu rosto inconfundivelmente mudado. Bebi de suas águas, deixei que ele tocasse meus segredos, meus cabelos, meus receios de ser vista: era lebre o gato comovido ao ver a beleza do leão de faro extinto pelo exagerado uso de seus instintos. Augusto partiu em um domingo. Após um beijo, de nosso amor gasto pelo tempo, Augusto partiu para viver seus recreios. Hoje ele é poeta. E eu escrevo em prosa. Não há mais drama em nossa tragédia. E todo verso chega ao fim.











Image by raphael perez

13 novembro 2011

alto teor erótico










Por que a Gente É Assim? by Barão Vermelho on Grooveshark






Meu amor achou pouco o que eu havia lhe dado: muita promessa de te amar somente. Então me pediu fotos. Meu rosto? Cabelos cobrindo os olhos? Não, ele respondeu. Quero fotos suas, nua, maliciosa em múltipla pose erótica. Após negar ao pedido uma vez, cedi. Afinal, quem nunca tirou fotos assim, explícitas, que atire a primeira pedra (nossa! quanta pedra!). Take One : sala de estar. Vestida para matar, dou um click. Olho a foto abismada: Eu sou assim? Gostei de mim. Outro click. Desta vez, fiz cara e boca. Mas não estou fazendo o suficiente. Preciso ir mais longe. Visto lingerie pinicante desconfortável que entra na bunda (bunda é uma palavra feia). Preparo a câmera: click – click – click – click – click. Olho as fotos. Morta de vergonha por me ver nua, de bunda pra cima, despudorada. Mas a vergonha desaparece quando percebo: sou gostosa. Quase berro. Agora entendo as falas dos caras quando passo de cabeça baixa pelas construções. Homens nem sempre estão errados. Um risinho me explode de satisfação. Meu coração palpita pedinte: + fotos + fotos + fotos + fotos. Estou muito puritana. Assumo a cara Kátia Flávia impávida Leila Diniz. Take Two: quarto. Cama forrada por colcha de retalhos. Posiciono a câmera. Agora mostro tudo. Pernas abertas e a vagina se expõe (vagina é um termo tão científico). Como devo chamá-la? Penso em mil nomes. Decido esquecer os nomes. Uma sequência de fotos em pose equina. Agora o falsete de menina. Mais cara e muita boca. Sem roupa. Loucura sem plateia. Olho as fotos e já me amo mais. Outras fotos e mais amor. Agora de ɐçǝqɐɔ ɐɹd oxıɐq. Meu corpo se contorce entre os clicks surdos, mudos, erotizados, pornográficos. Mais fotos, mais fotos, mais fotos. E que se dane o receio. Talvez um vídeo seja melhor. Luz, câmera, ação. Dedos não servem apenas para apontar falhas alheias. Veja o que faço com os meus. Fundo, raso, profundo, afundo, filmando, afoita, liberada, filmando, gostando, amando?, seios, dedos, mãos, eu... orgasmo? Tão rápido? Exterminada de amor, permaneço deitada na cama. A câmera continua filmando. Respiro fundo. Revejo as fotos: uma a uma. Assisto ao vídeo. Esquisito me ver assim (vadia?) pausando para rever o gozo. Então é isto o tal autoconhecimento? Email – Photo – Upload. Meu amor vai saber o quanto posso ser maliciosa, carnuda (babaca?). Envio as fotos. Sem photoshop: no cru. E o vídeo vai em anexo. Tudojunto. No email, uma dedicatória dramatizada romântica, piegas, clichê: uma letra do Cazuza. Coro ao saber que ele me verá tão aberta, tão outra, não eu. Ou eu serei mesmo assim? Outro risinho me assola. Agora ele me tem inteira. Dias passam e, para minha surpresa, outro pedido: quero mais fotos. Tantas e mais explícitas. Pasmei. Como poderei ser mais explícita? Como poderá ser? E a fome terá fim? E o amor segue virtual: sem toque, sem gosto, sem razão, despudoradamente amante ausente em alta resolução.













Image by Sara

01 novembro 2011

jornal roubado
















Hoje fui à Pasárgada. Mesmo sem ter amigo algum (que dirá um rei), estive em Pasárgada. Vi o que não se deve ver. Eu não me vendo. Estou sempre de olhos nus. E encontrei coisas indizíveis. Um homem esperando ônibus, uma menina pedalando sua bicicleta e um engraxate. Decidi não falar com ninguém. Eu apenas queria estar em outro lugar. E estive. Vi o mundo comum dos vadios e pessoas que vivem contentes. Vi os loucos e dezenas de carros parados porque não havia pressa. Eu estive em Pasárgada. Fumei, bebi, não fiz amor porque não quis (ah, que bom ter liberdade) e agora estou aqui. De volta a minha casa. De volta ao mundo prático. Outro dia voltarei à Pasárgada. Porque, uma vez estando fora de si, difícil é aceitar a vida como fim. O melhor é viver de descobrimentos.








Dois passos curtos e alastrou-se diante de mim a Avenida Pedro II. Gosto de ruas com seus nomes imponentes. Parecem mais fortes. Caminhei rápido antes de pegar a chuva. Cheguei ao consultório. Abri a porta e me deparei com a longa fila de pessoas que seriam atendidas antes de mim. Nunca me adaptei a médicos por ordem de chegada. Eu gostava da hora marcada, porque, dessa forma, ninguém se perdia. Mas o homem reinventa tudo e retira a ordem das coisas. Por isso me tornei paciente. Não que eu viva em consultórios. Mas, de vez em quando, vou ao médico. A recepcionista me atendeu como se estivesse cansada. A mulher usava camisa azul, uniforme azul, sapato azul e batom vermelho. Muito gentilmente, assinei meu nome em uma ficha e encontrei um lugar agradável para me sentar. Era preciso, já que a tarde seria longa. Após me sentir confortavelmente sentada, bolsa no colo e pernas cruzadas, dei uma olhada nas pessoas que estavam no consultório. Uma mulher e um velho, outra mulher e uma menina adolescente, um homem e uma mulher calçando tamancos e um representante de medicamentos. Ninguém conversava. Todos olhavam a tevê. Mas era um olhar perdido na cara de todo mundo porque estavam esperando e isto causa ansiedade. Não há tempo para tevê. Colhi uma revista que estava no sofá ao meu lado e passei a folhear. Atriz, modelo, Madonna, atriz, ator, cantora, política e horóscopo. Li. Engraçado é que meu signo diz muito de mim. É uma grande coincidência. Logo eu, que em pouca coisa acredito, tenho um signo que me revela. E o tempo foi passando. Decidi fazer palavras cruzadas. Saquei uma caneta da bolsa e comecei a rabiscar a revista do consultório. Pensei nas mãos que haviam tocado aquela revista. Pensei nos olhos que por ela haviam se largado. Pensei em sexo. Intrusivamente me veio este pensamento. Sexo + sexo + sexo = pernas doídas e dor nas costas e sorriso de fazer gosto brilhando no espelho. Ou nem sempre isso. Muitas vezes o sorriso é fingido, o orgasmo é tímido e o gemido não desemboca em combustão. Rabisco espirais na revista. Largo a revista. Alcanço folhas de jornal. Caderno Literário. Agora sim eu estava em casa. Li crítica, poesia lambuzada de chatice, escritor ralhando sobre si e decidi roubar o caderno literário. Meti na bolsa o jornal. Ninguém viu. E, se viu, que mal tem roubar jornal? Conheço gente que rouba vida, rouba amor, rouba tempo. Eu roubei apenas este jornal. Apenas este caderno de um vasto jornal cheio de notícia de hoje cedo, de morte, de atropelamento, de medo, de gente acontecendo. Apenas um caderno. Sorri por roubar. E logo chegou minha vez de ser atendida (estou correndo contra a narrativa). Entrei no consultório, respondi algumas perguntas, disse sim para ganhar tempo e saí de mãos dadas com a consciência limpa por ter ido ao médico, por ter sido discreta, por ter conseguido a receita para permanecer quieta. Andei pela Avenida Pedro II olhando o sol se pôr. Eu e meu jornal roubado. Mal nenhum.







Image by pedraxas

29 outubro 2011

do livro à prática








Hoje é dia nacional do livro. Acordei cedo, liguei a máquina de lavar, observei a chuva molhar o jardim, alimentei meu cachorro, arrumei algumas roupas, organizei contas pela data marcada nos envelopes, pensei em uma amiga que está passando por problemas financeiros, liguei o som e decidi ouvir Legião Urbana. Recebi alguns e-mails. Não li, sequer, a metade deles. Li apenas um. Li duas vezes e pensei em não responder. Abri a página do Facebook, li algumas mensagens, algumas frases e, foi então que me dei conta: hoje é dia nacional do livro. Pensei em homenagear meus escritores de cabeceira. Mas desisti. É tão clichê homenagear. Prefiro ler. Ou talvez dizer que ando lendo mais do que antes. Estou lendo Bocas do Tempo, de Eduardo Galeano. Estive ontem em uma livraria de João Pessoa e comprei este livro. E também O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Optei por ler Eduardo Galeano. Seu livro me chamou atenção pela força das narrativas (embora curtas). Os títulos também me causaram curiosidade. Não há nada de enfeites descolados ou metafóricos. O livro vai direto ao ponto. Narra histórias de diversos personagens de forma simples e lúcida. Há ganchos na narrativa de Eduardo Galeano que pode levar o leitor mais atento a fazer do livro Bocas do Tempo uma resposta para muitas perguntas, e, encontrar, em meio às narrativas, o belo lirismo da poesia. Bocas da Noite é um passeio por várias vidas. Um longo passeio. E o narrador não desperdiça palavras ao contar as histórias. São exatas. Uma leitura perfeita para quem busca, dentro da narrativa curta e rápida, profundidade, verossimilhança, e, não esquecendo o objetivo maior do fazer literário: encontrar a arte em forma de palavra e apreciá-la. Pois, como já cantavam os Smiths na canção Handsome Devil:


Há mais coisas na vida além dos livros, você sabe.
Mas não são muitas.


Então, hoje é dia nacional do livro. E, para este dia, eu me reservo a ler e entender que, não importa a quantidade de livros que se tenha em casa. O que importa é realmente fazer do livro um exercício. Praticar livros assim como se pratica a vida. E não somente conhecer escritores por nomes e citações. Para que possamos homenagear a literatura, precisamos ler, acima de tudo. E precisamos entender que escritor é aquele que nos leva a um domínio mais vasto que é o mundo literário. Mundo bom de se ir e se encontrar.









Fonte da Imagem: o silêncio dos livros

27 outubro 2011

ideário







Toma um chá que a história é longa. Inicio me deixando pré-datada. Peixes, ascendente sagitário, esquina com General Osório, número quatro. Ah, quantos acontecimentos até chegar aqui. Neste ponto. Será azul a cor do céu que observo? Agora vejo que tudo fora preciso. Emergia de mim uma pretensiosa vontade de mentir para mim mesma. Eu precisava me esconder para não me saber. Estranho esconder-se de si mesmo. É como escrever. Travestir amargura em alegria de forma tão calculada. Eu era trapezista de correr riscos. Vivia de absurdos. Ainda vivo meus excessos e abusos. Não me canso de ser. E meus crimes não são bárbaros. Quase não existem. Ninguém os vê. Eu apenas contava histórias. Eu as vivia. Tão nítida era minha vivência de tudo. Um dia eu sufocava cavalos marinhos. No dia seguinte acordava ansiosa por comprar flores para Mrs. Dalloway porque eu não suportava mais aquela velha borrifada de quinquilharias existenciais. Sofri bugalhos. Tortos, confusos e emancipados. Existencial eu me tornei. Não apenas por estar física e permanentemente agregada ao que sou. São meus sentidos aflorados que me dizem que existo. A despeito dos contrários e dos viadutos que a cidade não ostenta, eu insisto. Viver é isto. Sustentar ideários e palavras é o meu ofício. Eu preciso dizer que insisto. Em voz alta, como um político profetizando em meio à praça, eu insisto. Não despeje teus rabiscos em meus livros. Não deixe tua mão sobre minhas palavras. Não exerça falsa soberania em meu estado de calamidade pública. Não trafegue de contrário a minhas navegações. Não invente de corrigir meus erros. Porque é um imenso novelo que agora se desfaz. A gente vive tentando correr de pressa com a vida e ela age a seus propósitos. Não me esforço em dilatar meus pesares. Sofro meus lutos. Sofro em bruto estado de emergência. E, ao acordar dias depois, ainda sofro. Mas é de uma sábia dor que não me comove e não me faz arrastar correntes. Minha hora é de gramática baseada em exceções. Meus erros são simultâneos aos meus exageros. Não banalizo sentimentos. Fervorosa eu os recebo. E desarmo holocaustos em um sorriso compenetrada de amor.








19 outubro 2011

nó de pêndulo


















Enquanto algumas pessoas estão na lua plantando seus jardins, outras ainda estão selando seus cavalos. Paradas. Lacradas. Cheias de passado e medo. Modernidade atarantada fincada entre os dedos. Sofreguidão ou desejo? Dúbia minha resposta de anseios. Eu nunca durmo cedo. Sou contra relógios. Trabalho às seis. A 20 quilômetros por hora caminham meus segredos. E entrego minhas senhas: sou narcótica, trotando em fase exótica e excessivamente periódica. A puta mais digna em reunião de pais e mestres. Santa convertida e alérgica a mesmices. Prendada e pronta pro uso via venosa sem anestésico. A tarja cega amarga meu puro nó de pêndulo. E hoje é dia de meu santo. Faço oferenda. Canto minha reza forte e que mal algum me arrebente. Estou sentada para não cair. Preguiçosa vaga minha mente por histórias. Vidente adivinho meu próximo movimento. Esquerda, direita, volver. Hoje recebi um convite importantíssimo. Mas adiei. Que a montanha venha dessa vez. Cansei de empurrar barcos ao mar. Bebi uísque noite passada e nada deu em nada. Sou péssima em matemática. Conta escandalizada de excessos. E vou aprender a falar francês porque acho très chic mandar alguém à la merde sem que pareça vulgar o meu simples português.










Image by sira sandberg

12 outubro 2011

a doce cólera de um beijo










A Ediney Santana
e ao brilhantismo poético das mulas.






Todo besta tem um palco. Este é o meu. Vesti-me de palhaço perante as multidões e acordo com o gosto hostil de seu beijo de inverno. Hoje nada mais me parece estar em seu lugar. A mesa, o liquidificador, o ventilador e suas pás ― tudo está em descompasso. Ela denunciou suas mudanças e eu, o tolo, não acreditei. Ela denunciou suas verdades e eu apenas disse que nada poderia me ferir. Sinto, nesse momento, uma imensa necessidade de estar só. Decidi que caminharia pela praia. Após me despedir da mulher, hoje cedo, preparei roupa de atleta, entornei suco pela goela e de nada adiantou. Não me dei à caminhada. Minha preguiça é repleta de compromissos. E eu tenho algo a pensar que me ocupa o dia inteiro. Ela precisa existir. É na total ausência de ação que vasto meu pensamento e percebo nuances nunca vistas em meu rosto, meu corpo e na mulher que me assume homem. Ela está assumidamente verdadeira em minha vida. Chego à praia e já é noite. Turistas passeiam. Percebo alguns casais se beijando exageradamente e isto me causa inveja. Conseguem ser felizes de forma simplória. Um beijo e o mundo deles se completa. O meu, não. Busco respostas em cada pensamento meu. Não consigo peneirar minha crise. Ela está aberta ao público. Acontecendo feito espetáculo de circo. Posto meu olhar no bruto espaço da rua. As casas me parecem iguais. E também o asfalto. A calçada traz sempre o mesmo ar exibicionista de aspecto urbano: lixo, gente, fedor de urina nos recantos e rachaduras. Tenho a súbita sensação de estar vivendo a mesma cena de tempos atrás. A solidão é o meu estado e território e faço disso meu estandarte. Caminho um pouco mais e chego a um bar. Tudo funcionando como de costume. Encontro uma mesa que me distancie das pessoas. Sento-me. Preciso estar só para pensar naquela cuja existência me causa um tipo de cólera adocicada que me faz querer sempre estar por perto. Porque ela existe e me corrompe de tal forma que mal posso respirar sem que a imagem daquela mulher me cruze o pensamento. Eu tento investigá-la para, um dia, quem sabe, conseguir entender o que tanto mais ela esconde. Não pode ser simplesmente o fato de sua vida comum de mulher comum. Ela possui mais que isso. Eu a conheço. Eu a vi. E ela recorre a mim em noites como esta. Deverá surgir novamente com seus ares elegantes de inocência. Imatura demais para se ver como é, ela recorre a mim para que eu diga o que vejo. Mas eu não digo. Eu não quero dizer porque, desta forma, estarei também me denunciando. Hoje não deixarei que sua amabilidade me consuma. Sua voz hoje não me fará efeito. Não quero saber de suas dores. Não quero seus anseios. Seus seios podem até me fartar. Mas eu busco mais que sua presença. Serei imbecil por querer daquela mulher sua total essência? Serei tolo ao deixar emergir de mim essa vontade de estar com ela não somente em palavra ou em noites salteadas de um calendário indócil? Eu quero a mulher. Mas ela é um luxo que não posso assumir e não tenho coragem para correr riscos. Eu já envelheci o bastante para saber que ela não estará por mim da mesma forma como sempre estive por ela. Bebo algo alcoolicamente aceitável ao meu paladar. Embriago-me. Sinto ainda o gosto de seu beijo de despedida. Ela sempre vai embora encardida de minhas forças. Eu deixo minhas marcas em seu corpo porque é disto que vivo e nada mais recebo. Eu a amo e não sei dizer. Já tentei diminuir a mulher e fazê-la sentir-se semelhante. Ela me diz que sou rude e sofro de auto piedade. Ela talvez esteja certa. Mas há algo que de mim ela nunca saberá. Porque, quando ela acorda, eu já estou desperto. Eu a observo antes de acordar e sei de seus olhos fechados, enquanto, outros, sequer podem tocá-la. Eu conheço a mulher em segredo e foi preciso que eu saísse de casa e perdesse meu olhar em ruas a enxergar a vastidão desse mundo, do mar e dos casais abraçados nesta praia para saber que não há fuga quando o sentimento é perpétuo e feito em silêncio. Talvez eu não ame aquela cuja existência me perturba. Talvez eu queira mais que amor. E não sou tão forte ao ponto de negar minha presença à mulher. Observo o mar escurecido pela noite e volto para casa a espera de um beijo hostil. Viverei de inverno se esta for a solução para o que sinto. Viverei secreto o pavor de minhas ânsias por sua presença. Debilmente eu aceito seu calendário em cujos dias eu não passo de um número inapropriado. Volto para casa e a recebo. Em nossa cólera furtiva de todos os sentidos passamos a noite e contamos o tempo esperando que o dia não nos atormente. E, ao amanhecer, outro inverno me assombra. Aceito o fardo. Toda realidade que vivo é indecente.





O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

(Gregório de Matos)








Image by taho

08 outubro 2011

solace verberato










Que há de errado na melancolia? Que há de errado no tom das vozes iludidas? Que há de errado no pesar, na perda, no instante da partida? Nada há de errado na tristeza humana. Nada há de errado em sentir-se só o narciso ressecado em meio ao rio. Nada há de errado no vazio que preenche o precipício. Parte de nós o suplício para que nos venha celebrar a face o riso. Nada há de errado ao narciso. Nada há de errado em mim. E se me implica martírio e isolamento meu timbre, por deus, deixa-me sentir. Deixa-me, por deus, meu sentir. Pois varre da janela o vento da rotina. Que é isto que me queima em febre a carne por tempos amortecida? Que é isto que subtrai de mim sentimentos que eram somente meus? Nunca em vida eu me deixei abater. Era soldado. Era deus. Eu costumava ser de minha propriedade até este momento que previsto crime de mim furtou o olhar, a fala, a palavra que sólida arquejava sensatez e equilíbrio. É quando visto a cama em lençol de seu aroma inebriado que sinto o amor finalmente enlaçando-me com seus artifícios bélicos e eu me distraio de mim. Tenho apenas a febre. A inflamação. A bruta combinação em pele que ouso tocar para depois saber que não há outra identidade senão esta. De amor tenho vivido. De amor serei precisa ao dizer a todos que me deixem viver os dias sem que horas me corrompam. Que se cale a margarida repetida de alegrias. Que se cale o modernista que arquiteta mínimo poema. Que se calem todos. Eu insisto em existir. E se causa cólera minha palavra em forma de vida, silencie sua voz o prático racional festivo. É de amor que vibra meu timbre. E tudo que é amor me dói em vasto sentido.







Image by Pygar

25 setembro 2011

mosaico de ocorridos








O dia acordou cedo. Café quente com leite e pão com manteiga. Cama feita com zelo. Penteia os cabelos ainda molhados do banho e assiste as primeiras notícias da manhã. A vida funciona mesmo quando muitos dormem. Pássaros no céu e algumas pessoas presentes na rua. Passa o entregador de jornal. Bom dia abissal de riso bem dormido e a hora passa. Lava roupa que o vento seca. Deixa ao sol o tapete empoeirado. Lava o carro o vizinho que também já está acordado. O vendedor de panelas e cadeiras de balanço lança seu grito para acordar os dorminhocos preguiçosos esquecidos das ordens. Uma moça contente vende pano de prato artesanal. Outro dia, moça. Semana que vem, talvez, eu compre um de seus trabalhos. Mosaico de ocorridos é o dia em seu começo. O trabalhador público caminha em direção ao ponto de ônibus e atesta em seu relógio o minuto exato de pegar a condução. A padaria ruge bromato. O homem vende milho cozido a preço de bananas. A condução do trabalhador chega a tempo. O milho cozido gera emprego. Um bêbado acorda esbaforido. Pensava estar dormindo em casa. Mas era na rua que estava o homem. Segue em paz. Salão de beleza abre as portas, meninada já está na escola, alguém chora por amor partido, o padre decora seu sermão e a beata faz bolo de laranja para alegrar a congregação. O dia acordou cedo e brilha intenso o sol. Mas algo falta ao dia que desperta. Pois é da natureza de todo homem sentir falta da matéria embalsamada do dia anterior.






Image by justindmiller

24 setembro 2011

autodesacato









Hoje vou falar de amor. Munida estou de proteção e da boa cartilha de palavras comedidas e propensas à falta de pudor. Mas não posso me dar ao trabalho de temperar ventos idos. Prefiro o nó da hora, de estar só em alguma companhia e trair minha vontade olhando fotos que não são minhas. Eu amei. Pretérito e não mendigo por um futuro. O café fora moído em grãos de esquecimento e requentado está o aroma de seu líquido. Preciso ser clara antes que a visibilidade de minhas palavras caia na hermética imperfeição do medo. Nunca em minha vida amei uma criatura de caminhos tão confusos. Aliás, nunca amei. Nunca, criatura. Admito ter sentido rubores em algumas ocasiões. Pronta estava em corpo e maquiagem para alguns outros que me afligiam. Porém, meu estado já havia sido tomado. Soldados e grandes tanques invadiram minhas ruas e havia um ditador de força absurda que tanto me tirou o equilíbrio. Mas de que serve equilíbrio quando a rede protetora há muito despencou? Uma vez em campo minado, preparada  eu estava para sua pesada artilharia. E assim ocorreu desde o início. Você me comia e eu comia você com as mãos. As mesmas que redigiram carta, compraram desgraças e perderam sentido e direção. Eu não me importava com mais nada. Era você, eu, janela fechada o dia inteiro e incenso queimando o juízo. E não me importavam passeios, idas e vindas, dia de amanhã e salário. Eu engoli o azar de viver da saliva de um amor. E nada era tranquilo. Deixei a tranquilidade esquecida em minha blindagem aberta, escancarada e rasgada por você. Não sei quantas vezes me despi para que você viesse ao mundo ressurgido em meu ventre. Fiz amor, ou era sexo, ou era pornografia o que ocorria todas as horas de todos os dias? Não me responda em sensatez. Havia também um grande altar de minha alma rezar. Mas o santo calou-se mudo, preso que estava ao mundo e encarcerado por seus milagres todos vãos. Eu fiz o que faria qualquer meretriz ou atriz ou qualquer palavra que o diga. Atraí minha imagem ao autodesacato. E, de sua tirania, todo orgasmo me valia. Eu sangrava estanque querendo sempre você dentro de minha garganta, invertendo pernas, corrompendo meu corpo a todo seu amor. Mas é preciso o fim para que tudo mais se faça em sentido. Você se tornou tirano deposto. Agora fala em deus e vai para cama dizendo amém. Suporto a sede que se encerra. Mas detesto toda atitude de misericórdia e projetos honestos e ruidosamente minúsculos. Prefiro o espelho a me desejar a viver de bom gosto e da boa atitude dos comuns. Por isso não amo mais o homem que agora respira infâncias e recorre a velhas ferrovias para sentir-se completo. Não tivemos filho, nem casa, nem promessa vigiada por papel. Mas tivemos tudo o que tantos buscam: amor, ódio e sorrisos em espasmos de contemplação. E eu amei você, você me amou, o mundo continua girando, amores ocorrem a cada centavo e finda em sarcasmo o que antes era imenso, ingênuo e nosso o aroma dos dias de orgia destilados. E quase nada nos restou. Apenas a parede, o estalido da partida e uma falsa rima que poeta algum desenhou.






22 setembro 2011

extinto








Hoje é meu aniversário. No entanto, não comemoro. Há razões dentro de um homem que o levam mais ao infortúnio do que às parcas celebrações em vida. Entre os presentes, minha família e amigos. Organizaram um almoço a todo meu benefício. Estou sorrindo para um retrato que, assim como outros, não terá mais valor depois de passado o efeito do uísque. Ou talvez tenha. Poderei ver todos que estão ao meu lado nesta altura de meus dias. Meus irmãos (dois — um homem e uma mulher) estão felizes. Aparentam estar. A consciência deles ainda não fora afetada como a minha tem sido desde o dia em que me tornei adulto, adubo de obrigações. Estamos todos conversando, trocando absurdas risadas sobre acontecimentos passados. Minha irmã fala de sua vida e todos riem enquanto malta a cerveja na barriga dos beberrões. Seus filhos já estão crescidos o suficiente para não estarem aqui. Minha irmã, muito solenemente, disse que seus filhos mandaram-me beijos e que precisavam estudar para provas. Eu assenti e recebi os falsos beijos e pensei que, acaso estivesse na idade de meus sobrinhos, eu também não estaria em minha festa de aniversário. Por que alguém perderia tempo (que é precioso e preciso feito cálculo físico) participando de almoço em família onde somente o álcool pode facilitar um pouco mais a vida? Eu não perderia meu tempo comigo mesmo. No estado em que me encontro, naufragado beirando crises, eu não iria querer estar perto de mim. Desce o uísque mais forte agora que me contraio em um abraço solidário entre amigos. Amigos são prósperos inimigos porque adoram assistir nossas quedas. E ainda nos consolam dizendo que a idade matura o que a mente não pôde digerir em tempos de nova idade. Eu queria estar longe daqui. E não há um lugar específico. Poderia ser qualquer lugar que me trouxesse uma sensação que nunca tive de estar vivendo pleno de meus sentidos sem que esta falsa regalia de vida em família me assaltasse. Pessoas acreditam que ser feliz é isto: emprego, carro, contas pagas e uma boa discussão sobre política, economia e futebol. Eu não quero falar sobre felicidade. Meu emprego é uma mancha em minha existência. Todos os dias saio do trabalho mais pesado do que um rinoceronte carregando um búfalo. Entro em meu carro e me dirijo para casa onde encontro esposa e filhos adestrados em frente à tevê. Sou todo sorriso quando volto para casa. Não há mais o que fazer quando tudo mais já está acertado. O destino é eficaz quando o caso é vida de homem comum. Até um mendigo deve viver mais aventuras do que eu. A cada dia um lugar diferente para dormir. E não menciono mulheres. Não as quero. Um dia eu as tive em minhas mãos. Professoras, amigas, namoradas, putas. Todas eram o que eu precisava ter em dado momento. Hoje não largo meu uísque por uma mulher. Não quero seus conflitos aleijados e ultrapassados de mesmices cavalgando em cima de mim. Prefiro a minha mulher que já está castrada como um gato e vive ancorada e dispersa em suas preocupações. O que me dói é a consciência. Me ferem o peso desta mesa farta e meus filhos que ainda não cresceram o suficiente para se sentirem nauseados por todas as horas que permeiam dias corridos. Minha vida é uma baldeação de fatos irrisórios que me determinam cidadão vulgarmente conhecido como João. Este é meu nome. Poderia ser o seu. Poderia ser o de qualquer um. Afinal de contas, não passo de um homem sentado à mesa, tentando forçosamente me embriagar para conseguir digerir tudo isto. E, entre os presentes e passados, um dado estatístico: hoje é meu aniversário e a vida jocosamente me enfarta de cansaço. Outro retrato e a celebração chega ao fim.







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18 setembro 2011

devota feminina








Ele dorme. Após o ato, após trafegarmos por nossas ardentes formas e avenidas, ele adormece à luz do abajur. Capturo o momento tentando observá-lo de forma atenta. Não quero perder o momento de vê-lo entregue a minha cama, ressonando seu cansaço, vibrando em sonhos que jamais irei saber. Penso em acender um cigarro, sentar-me à janela e olhar o homem que dorme. Mas não posso me distanciar desta imagem. Amo a imagem que, à luz do abajur, me parece serena e ausente de conflitos. Observo o rosto. O formato. Sua cabeça descansa no travesseiro e eu me aproximo para sentir de perto todo o detalhe. Para que nada me escape, olho de perto. Nada pode me distrair deste agora. O rosto é retangular de pele alva aos claros dias. Seus olhos, embora cerrados, aparentam a febril leveza com que me adornam. E, mesmo em sua pouca idade, apresentam sulcos ao seu redor. São fundos e peculiarmente adultos em suas pálpebras os olhos. O nariz traz ares de europa ao que vejo. Reto, perfeito, decidido em suas narinas pequeninas de fazê-lo respirar. Nariz de escultura grega, eu diria. Não fossem tão mortas as esculturas eu diria que ele se assemelha a uma delas. Meu Apolo de musa única é o homem que adoro. A boca não é pequena. Por minhas vivências, digo ser esta a boca mais bela já beijada por mim que tantos beijei tempos afora. Os lábios se precipitam avermelhados. São carnudos e desejosos. São grandiosos os lábios do homem que possui o rosto que detenho em pensamentos diários e eróticos. Tanto me afeta este homem como a esbelta cruz da catedral afeta crentes em oração. Sequer parece humano agora que o vejo como entidade. A luz deixa ainda mais clara a pele e as maçãs do rosto são rosadas como as maçãs do rosto de uma criança em impulsos de vasta saúde. Lembro de seu sorriso quando desperto. É aberto, sereno e secreto a meu ver quando o observo. Uma de suas mãos repousa ao lado de seu rosto. Posso sentir o que há pouco fizeram ao meu corpo suas mãos. Nunca meu corpo fora tão investigado e harmoniosamente ferido de amor. Eu amo este homem de olhos fechados pelo sono que nasce do cansaço dos corpos unidos de horas antes? Decerto que sim. Eu o tenho lavrado em minhas palavras e ninguém neste mundo poderá dele saber como eu sei fazendo deste ser esculpido em minha desperta tentativa de capturá-lo como o fotógrafo captura ventanias a mover árvores na louca tentativa de capturar vida. Apolo me contamina de sono e me esvaio adormecida ao seu lado. Que ele saiba um dia que vaguei horas a verbalizar em mármore ou argila sua fisionomia e fiz deste homem a bela e viva escultura minha. Minha igreja, minha raça, minha devoção em obra prima.







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