13 janeiro 2011

amor à sombra?




Como dizer de amor sem que tudo pareça gasto? São tantas palavras repetidas. O vocabulário de quem ama é curto. Mas o sentimento é vasto. É estrada acidentada confusa de atalhos. É prédio íngreme solitário de morador. E, quanto a mim, ao que sinto, é explosão. De absinto e vinho bordô. Amo tanto que termino o dia de mau humor, visto pijama e passa filme na TV e vejo você. O cara mais belo da banda de rock. O mocinho e o vilão. A criança contente no comercial de pasta de dente e até em anúncio de loja de departamento, homem te amo. Lá na televisão. E nas ruas você é o mendigo, o buraco onde piso e torço o tornozelo. A cerveja que engulo na sede, a comida que me faz engordar, a salada sem graça na dieta e o metabolismo que não reage. O relógio da torre que trava o tempo das vésperas. Até o japonês vendendo pastel é você. Parece perseguição. Ponto turístico, estrangeiro pedindo informação e nem sou daqui, mas explico. O senhor segue em frente (go ahead, turn right and left and you'll see it). Sei lá o que digo. Mas é amor ou indício de doença mental. Alucinógeno do meu ritmo é teu beijo e tua língua em curvas traçando em céu da boca minha prisão. E quando me abraça a cintura sou criada muda e digo nada porque sei do próximo ato. De quatro em quatro sigo amor. E o deus perfura a derme, epiderme, a escarlate febre que me reveste. Mas dessa parte nem falo que me acabo de saudade. É verdade. Dia desses, no trem, vi casal beijando e vi você e eu e éramos nós na cena entupida de paixão. Que louca me tornei. E quando? E é engano dizer que não te vejo toda hora do dia. Na gente, nas avenidas, nas janelas de casas que não conheço cômodos e aplausos no teatro ecoam teu nome que é este que me consome. Então? Há satisfação no amor que é dito? Agora começa filme do Carlitos. Desligo à controle remoto. Amor e Carlitos é super dosagem de remédio amargo. Tombo na cama. Deitada de bruços quase sinto teu pulso, teu peso, teu corpo de me ancorar. Mas você não está. Choro? Não sei. Imagino cena na cabeça até adormecer? Talvez. Tudo é dúvida. E certeza só há uma. Esta que te abusa a vida, te assusta e te faz escravo meu até que a vida nos acabe. Ou que a loucura nos arraste. E que seja mesmo arte o desvencilhar das traições. Mas o que vale, que é fato e documento registrado, é que te amo. Feito trato, não desato e adormeço com o fardo de saber que acordo e amanhã será de novo tua imagem refletida em toda cidade. De parte a parte vejo você até quando não reparo. Perdi vontade própria? E amor o que é? Carro que invade contramão ou coisa que se inventa por distração? Eu não me atrevo a saber.





Image by kangaroo

5 comentários:

VELOSO disse...

O amor esta no ar... Linda prosa!

CARLA STOPA disse...

Nem eu ousaria. Palavra-espelho, hoje principalmente...

A Escafandrista disse...

Excelente, Letícia. Fazia tempo que não tinha tanto prazer em ler prosa. E não é porque fala de amor, mas é que vejo poesia em cada linha. Talvez seja este o meu caso, de ver poesia em cada linha, como quem vê o amado em cada esquina de uma cidade. O teu blog tá no meu blog roll há um bom tempo e sempre venho aqui, embora na maioria das vzs venha em silêncio. Abraços.

Lilly M. disse...

'E amor o que é? Carro que invade contramão ou coisa que se inventa por distração? '

Lindoo texto,
ameii
*_*

Consultora Educacional disse...

Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver nosso Curso de Informática Online. Daienne.