04 janeiro 2011

em espécie




Será outubro ou novembro? Ainda é janeiro. Respaldo-me a esperar mais tempo. Aquieto-me lenta ouvindo ziguezague de insetos e penso no homem que amo e não tenho. Li num livro. O cachorro que não tenho. Desde o dia que li este conto fiquei com pulgas atrás da orelha. Assionara Souza. Ela é boa. Deveria ganhar o jabuti. Mas penso: O que diabos uma escritora faria com uma tartaruga? Tamborilo meus dedos no teclado. Tamborilar é uma palavra da moda. Em quase todos os livros que leio, até os traduzidos, lá está o verbo, tamborilando fonemas e letras. Letras unidas tamborilando gramáticas. Já chega de tamborilar. Preciso telefonar a uma amiga e contar a história desde o fim. E, no arrancar da locomotiva, espero a hora para telefonar. Daqui a 5 minutos eu ligo. Ou mais. Ou menos. E, ainda pensando no homem que não tenho, nos encontramos faz tempo. Anos atrás. Ele estava de casaco e eu estava sorrindo. Contente ao grau máximo da palavra. Eu não estava errada. Quase não erro. E quem se importa? E, quando erro, é sempre milimetricamente a cada dia. Hoje ainda não errei. A não ser por ter dito ao cara da luz os números errados no relógio que conta quantos watts gasto para viver. O homem gritou lá de fora dona moça, diz aí a numeração e eu gritei de dentro é um monte de zero, tem 8 e mais alguns números. Aí o cara foi embora. Agora vejo que errei. Poderia ter dito a coisa direito. Provavelmente a conta de luz virá um absurdo e vou pagar com cara de tacho. Eaindapensonohomemquenãovejo. Mas será que preciso ver para amar? Eu não vejo meu dinheiro em carne viva. Sei apenas que ele está em minha conta. Ou não está. É mais ou menos assim. Você sabe que o dinheiro talvez exista e você não o vê. Cheque não é dinheiro. Cartão de crédito também não. Dinheiro é papel sujo e cheio de rabisco. Certa vez peguei uma nota de 10 reais com a seguinte citação: Quem desdenha quer comprar. E estava assinado. Joaquim. Passei um dia inteiro de minha vida pensando quem diabos era Joaquim. Até hoje não sei. Nem faço questão de saber. Nunca rabisquei nada em dinheiro. Perco tantas oportunidades em vida. Assim como perco você. E você é o homem que não vejo. Mas amo. E ainda acredito. Faço até poema. Mando dizer que limpei casa, ornamentei altar e pago pato de maluca. Mas digo logo que eu nunca espero trocado. Embora me contente com o breve e alucinante acreditar que um dia você vai existir e, finalmente, poderei dizer louvores ao homem que não tenho, eu espero (gravemente) o desnorteio de uma vida de amor e cobrança e ciúme e ainda acordar bem no dia seguinte. Eu me dou de amor aos quatro ventos e se me vem à graça, aceito de bom grado e fujo de mala e cuia e pensamento. Mas quero em espécie. Porque, como já fora dito, cheque não é dinheiro. Só aceito amor se for por inteiro.










Image by MisOtrasCosas

9 comentários:

Don Mattos disse...

Nunca sei se é ficção ou biografia.

Em qualquer dos casos,é ótimo!

Ana Claudia disse...

Amor em "cash" é muito melhor. Homem também. Poema é que vale de qualquer jeito.

Lilly M. disse...

Ameii.
*_*
'Só aceito amor se for por inteiro'

Zélia disse...

"Só aceito amor se for por inteiro."

É assim que tem que ser. O "pobrema" é que, muitas vezes, a gente se contenta com o que não tem e, então, deixa de ter mesmo.

...

;)

Eder Asa disse...

Acho que você que merecia um Jabuti :D

NDORETTO disse...

Merecia mesmo: Jabuti pra Letícia. Epa,amor à vista também!
Beijos,N

Ana SS disse...

Não canso de dizer que estou adorando te ler.
Veja que o meu verbo no gerúndio põe um imperativo para que você continue a escrever. Ou melhor, continue a publicar.
Cheque não é dinheiro, blog não é livro, amor não é paixão.
Mas as vezes têm o mesmo fim, e a gente se distrai no caminho.

Letícia Losekann Coelho disse...

Muito bom, Lê. Eu fico sem saber o que comentar de tão bom ahahaha
Beijos

Joel de Sousa Carvalho disse...

Olá a todos os que vão ler este comentário neste blogue ou noutro muito bom como este. Pois é, estou encantado com todos estes pratos tão bem confeccionados. Pois, eu gostava de fazer igual, mas não consigo. A vida é dura e obrigou-me a morar sozinho, e a cozinha não é de todo o meu local favorito. Mas estou a tentar conhecê-la, mas as aventuras têm sido imensas. Fiz um blog humilde para colocá-las em forma de crónica pouco extensas. Gostava muito que todos vocês o visitassem e se possível o seguissem. É que tentar cozinhar e depois não ser ajudado, é algo muita mau.
Cumprimentos a todos!

http://tenhosalfaltamecolher.blogspot.com/