07 janeiro 2011

a enganosa superfície das coisas







O céu nubla. Ouviu-se uma trovoada seguida do raio que o parta. É deste calor filho de uma puta a culpa que não chove de uma vez. Elisa olha pela janela. Agora fodeu. Ficou tudo nublado pro lado de lá também. E não chove. Só nubla. Guilherme vem lá de dentro com um castiçal em mãos. Não temos velas em casa, Elisa. Agora a merda toda explode. Nada de chuva, céu filho da puta, ranger de dentes, falta luz e você ainda me vem falar em velas, Gui. É que vai escurecer, Elisa. Vai ficar tudo escuro. E você com seu péssimo humor só fala em chuva e xinga tudo que é coisa. Você não resolve nada, Elisa. Cala tua boca, Guilherme. O céu nubla. Eu odeio pessoas, Gui. Todas elas. Céu nublado e sem luz. Porra de vida. Olha essa gente na calçada, Guilherme. Parece que todo mundo foge. Olha aquela velha pelancuda. Imagina essa velha toda pelada, Gui. E vai andando devagar porque se anda rápido cai e quebra tudo. Osteoporose, Gui. Doença de velho. E pra onde vai uma velha com uma porra de céu nublado carregando uma sacola? Dá vontade de gritar VAI MORRER, VELHA. MORRE DE UMA VEZ. Deve ser do tipo de gente que faz tudo miúdo. Banho miúdo, comida vagarosa, e os pés ressecados morrendo enfiados nos chinelos. Gente desgraçada. Guilherme sai em busca de velas. Elisa permanece. E nada de chuva, Guilherme. Olha. Lá vem aquela lá que você diz que é bonita, Gui. De capa de chuva não é bonita, Gui. Você devia olhar. Dá uma olhada nela agora, Gui. Não é bonita de capa de chuva. Você deveria vê-la assim, feia, com cara de gente comum. Guilherme só vê as coisas como ele quer. Diz que a mulher é bonita. Mas é preciso olhar de perto, Gui. Olhar de perto até que se possa ver os poros abertos e cheios de sujeira. De ver os vincos. O óleo. O que é podre, Gui. E ver a boca bem de perto. Os dentes separados. Ver tudo. A vagina suja. A genitália suja e fedida. Você vê beleza que não é a beleza, Gui. Você tem de olhar de perto. Não de soslaio. De lupas. Como se teus olhos fossem gigantes lupas e você pudesse ver através de teu olho o inferno de cada um. Olha com a lupa, Gui. Como eu te olhei. Vi teu sangue insosso atravessando veias. Vi teu pênis tão de perto que me tornei teu pênis. O canal, a uretra, o esguicho de urina e a ereção e depois o gozo branco, amargo, rangendo dentes eu olhava tudo através de lupas. Tuas coxas, as pernas, e tuas varizes, tuas estrias, Gui. Eu vi tuas estrias arroxeadas sulcando tua pele e teu umbigo peludo imerso em esperma que eu lambia. Eu engoli tuas doenças, Gui. A sujeira do teu corpo, tua alma besta, a voz de arroto, a insensatez de teus vômitos trêmulos. Teus infernos, Guilherme. Eu os vi todos. Porque eu te olhei de perto. Vi teu musgo e teu esqueleto enfurnado em mim. Deveria olhar mais de perto, Guilherme. Olhar de lupa. Ver o que é incandescente. Elisa murmurava perto da janela enquanto não chovia. Pessoas iam e vinham e a moça de capa de chuva cruzou a rua e sumiu como coisa que se esvai. Guilherme voltou com vela acesa. Achei, Elisa. Uma vela ao menos. Será que demora a luz a voltar? Elisa suspira e olha Guilherme. Olha-o de lupas e vê seu sorriso vulgar por encontrar uma vela. Há feliz de toda sorte, pensa Elisa. São felizes porque não veem de perto. Aceitam a enganosa superfície das coisas. Não mergulham nos infernos, nas imundícies. E não chove. Elisa fita o tempo e pensa. A vida sempre insiste.





9 comentários:

Ana Claudia disse...

Insiste e insiste e insiste.




Abraço pra você

Don Mattos disse...

desgraçada!

Jhony disse...

Perspectivismo nietszchiano. Verdade na superfície do olho. E o mundo é feito de inúmeras verdades, e já não sabemos se ele realmente é realidade, se não a nossa realidade.

Eu gosto do céu pré-chuva.

Abraço.

Camila F. disse...

mas também se pode ser infeliz por não poder "ver de perto". quando a gente acredita que a superficie é a realidade. assim, por exemplo, quando a gente se apaixona pelo que pensa ser o ideal...

Abraço!

Lisa Alves disse...

A superficie engana, as belas bonecas de plástico são feitas de material cancerigeno, o mar é belo e em seu interior esconde terriveis criaturas. Ser profundo é voltar as raízes: "Entre fezes e urinas nascemos".

Zélia disse...

Penso que, mais que a vida, nós é que insistimos. Sabe a preocupação com o que vem a ser? Enquanto perdemos tempo precioso nos preocupando com o que vai acontecer a vida acontece. Como vc demonstra bem nesse texto. Forte como a vida e cego, também. Pobre de nós...

Sonhadora disse...

É, coolmadre..."há feliz de toda sorte" mesmo!

Olhar de perto nem sempre nos faz feliz. Tem dias que é bom ser como mosca pisando na superfície de várias coisas.

Perfect!

Beijo.

Thomaz Ribeiro disse...

Um texto diferente, daquilo que estou acostumado a ler de você, mas foi uma experiência interessante. Um resultado - sem dúvidas - muito bom.
Abraços.

NDORETTO disse...

Elisa: personagem perfeito. Aquela que olha as coisas além das coisas. Dramaturgia pura. Li e ví a cena. Ele indo e vindo, buscando velas e ela ensimesmada, com tantas coisas na cabeça. Um barato! Adorei.
Bjs,N