12 janeiro 2011

entusiástica





"Escrevo feito estouro de manada
Minha boca fala de amor e mais nada."



Gargalhadas entusiastas e eu no meio, querendo ser vergonha, querendo esmola e brota de minha cara amarela de mestiça esbranquiçada a tríplica sorte dos mendigos. Porque poderíamos morrer. De imediato, de asma, de querências. Mas não morremos. E somos felizes. Do contrário, acredite, já teríamos partido. E partir não tem graça. O bom é ficar. Fincar os pés entre as memórias e enfrentar o tempo que é injusto, mas é pleno e já dizia toda voz que é infinito. Então nós temos tempo. Não o tempo quadrado do relógio. Falo do tempo do beijo, tempo das passeatas estudantis e da fumacinha engraçada que nos fazia rir. E você não riu. Problema seu porque eu me diverti e nem disse adeus e de que me adianta dizer adeus se ainda estou aqui, dentro da casa, aninhada em seus caminhos, parte da linha que envolve seus botões? E sou desarticulada e falo um monte de palavra e vou dar com a fé barata de quem rasteja. E você me deixou e não ouvi lamento. Lembro que voltou e eu achei bonita a vingança. Vamos abrir mão das mesmices. Vingança é a melhor coisa que existe e não o amor, como dizia o poeta compositor. Melhor coisa é tripudiar, esticar meu corpo sobre o seu, deixar você comandar e fingir que sou a isca quando, na verdade, você é a vítima. E ajo meu amor e arco a flecha em outra direção. E serei bem sincera. Vou amar você até morrer histérica tateando por sexo e faminta por confusão. E dizem que todos os homens são iguais. Duvido. Tenho o meu comigo. Longe de mim, mas dentro. Pontilhado desenho cubista que se arrisca a me abandonar. Deixa não, amor da minha vida. Segue comigo que eu sigo o sentido da malícia de meu riso de agora. Sou toda amor e desatino. Vivo às margens da antítese e o amor existe distraído e cresce em nós dos sentidos. Um gigante estrondo de notas musicais. Amor que nasce, cresce, adormece, acorda e retorna e eu larguei a mania de acenar nos cais. Hoje digo adeus ao telefone. Me consome, mas faço como de costume. Se há fogo, eu desmantelo tudo e deixo queimar. E a vingança de hoje é ver você me mastigar, lento e completo entre minhas pernas de mulher, liberta clara acorrentada, entregue ao deus dará.






Image by Luis Serrano

7 comentários:

Felipe disse...

Perfeito, Lê! Texto genial! :)

"Vingança é a melhor coisa que existe e não o amor"


Beijo...Fê

Don Mattos disse...

Vez ou outra, tenho vontade de ler alguém que nunca ouvi falar. Entro na livraria, vou pegando livros aleatoriamente e leio suas primeiras páginas, para ver qual delas me convencerá que aquela é uma história que vale a pena ser lida.

Todo texto teu, os últimos, pelo menos, me parecem a primeira página de um livro excelente, livros que eu quero muito ler.

A propósito, ainda não depositei o teu dinheiro, pois a grana ficou escassa nessa entressafra de anos. Mas na sexta ganharei uma premiação atrasada, e certamente parte dela será destinada para ler um livro teu inteiro, e não apenas a primeira página.

CARLA STOPA disse...

Oi...Sou professora também, mas de Língua Portuguesa...E também "escrevo feito estouro de manada..."
Adorei seu espaço.Depois passa no Escrevência...
www.carlamaria3.blogspot.com
Beijossssssssssss...

Juan Moravagine Carneiro disse...

é sempre bom adentrar por aqui...

abraço

Zélia disse...

Verdade! "E somos felizes. Do contrário, acredite, já teríamos partido." Eu já teria sumido sem deixar rastro algum. E tenho um homem que não é igual a nenhum outro. É o meu. Às vezes inteiro, às vezes partido. Às vezes ido, às vezes vindo. Às vezes amor, às vezes ódio. Às vezes sexo, às vezes água. Às vezes pai, às vezes filho. Às vezes tudo, às vezes nada. Meu. Todo meu e de mais ninguém. Ups! Pensei que estava a escrever em meu diário... :D

NDORETTO disse...

Gosto dos seus textos passionais. São perfeitos! Entro neles,depois saio pra rua cheia de fantasia...rsrsr

Lindo, escritora

Neusa

Ana Claudia disse...

Adeus se diz até no e-mail. Outros e-mails, raramente enviados, falam de saudade.
Amor que desata e ata. "Ata-me", "não me liberta assim, não".
Muito bom.
Um beijo