15 janeiro 2011

holocausto teatral



Acelerada. Um trem que arromba o dia. Holocausto teatral. Enquanto tremem as veias do corpo que teima resistir feito teia de aranha sacudida ao vento, repenso atitudes em meu asilo de poucas idades. Mil anteparos e não encontro asfalto dentro do tempo ruim. Tempo que não é meu somente. Vejo aqueles que sofrem. O vizinho sofre. Vive a esticar sua casa fazendo reparos e logo a casa será um edifício e o que fará da vida o vizinho depois de tudo construído? Provavelmente, feito caçador faminto, irá procurar rachaduras minúsculas em sua sala de jantar e seu trabalho nunca irá terminar. Tenho dó. E um nó na garganta que também se agita ao veloz efeito de um pavio. Temos vivido tempos absurdos de violência. Tempos de negligência e sexo conjugal. A chuva, que antes não afogava casas, agora traz à praia o manancial de coisas que nos garantem a justa e indigna existência divina. Dói mais a tua dor ou a dor do outro? Pensamento agitado fora de rima porque a vida poderia ser menos corrosiva e não bombardear finas cortinas que sentem mais fome que alegria. Mas ela não tem culpa. É o homem o culpado. Há tantos homens e quem devo culpar? Devo me culpar? Penso, sentindo arritmia e discordância entre morte e vida e, ao olhar o atravessar de ruas e esquinas, uma menina demonstra alegria em sua bicicleta de cestinha. Será culpada também esta lúdica aparição descontextualizada que nada sabe de nada e anda entre calçadas mostrando seus dentes de sorrir? Opções escassas. Culpo deus, políticos, forças armadas e, esquecida a dor primária, lavo as mãos e faço nada. Mudo o canal ao sorriso calada e finjo não saber do fim.




Image by Linnea Strid

6 comentários:

CARLA STOPA disse...

Cada um de nós, a seu modo, vivendo a dor alheia...EMPATIA...AMEI.

Eder Asa disse...

Vivendo a dor e a vida alheia, não?
Maravilha, Letícia!

albuquerque júnior disse...

[letícia,

sinceramente, não sei o que comentar.
tua prosa é de uma riqueza linda e densa... parece que seguiu minha própria linha de pensamento e tomou emprestados alguns de meus pensamentos - e conseguir estruturá-los numa sequência respeitável, embora anacrônica.

interessante... não deixou de fora as mazelas do terror fluminense dos últimos dias... descreveu a vida, os ventos e as chuvas que molharam os olhos do Brasil.

bem, pelo menos eu consegui enxergar isso em alguns pontos!

parabéns.

teus escritos são fortes; muito fortes.

qd puder, visite nosso espaço.
forte abraço]

Thomaz Ribeiro disse...

Difícil acreditar que diante de tanta coisa errada omitir-se é muito fácil. A beleza de seu texto torna essa culpa mais feia ainda.

Anônimo disse...

Perche non:)

Zélia disse...

Egoísmo. É como poderíamos resumir este texto. As pessoas são egoístas e, com esse sentimento, elas carregam outros agregados a ele. Só o que me diz respeito realmente importa. Se é bom pra mim, é o que vale. Não vale o que não é bom pra mim. Um exemplo bem típico brasileiro é com relação a política. Ter uma "boquinha" em órgão público só errado se eu não tiver a minha...