22 janeiro 2011

migratórios





Acordei com a molesta dos cachorros. A mulher despenteada virou de lado. Pensou no que acabara de fazer. Orgasmo violento acaba com o corpo e a gente fica molinha. O homem virou de lado e respirou fundo. Era tanto suor na cama que era um encharque danado. Que você vai fazer agora? Ela perguntou. Mas não esperava resposta. Às vezes a gente pergunta só pra dizer alguma coisa. Se bem que, com a barulheira da rua, ninguém aqui precisa de conversa. Falar pra quê? O cigarro esquentou ainda mais o começo do dia que ainda era noite. 5 da manhã, avenida esbelta de árvores, carros passando e gente que passa e olha. Não sei o que tanto esse povo vê. O homem magro de barba por fazer esfregava a cabeça careca com uma das mãos. A outra mão segurava o cigarro. Fedida demais essa fumaça. Fazer o quê? Ainda reclama? Fuma logo aí que a gente tem o que fazer. O homem pensava no dia pela frente. Dia de um monte de obrigação, de fazer isso e mais aquilo e dar de cara com o cão. Conseguiu o que te pedi? A mulher fala com o homem que já está quase seco de suor. Deu não. Como assim deu não? Era só entrar e pegar e trazer pra mim. Mas deu não. O homem replicava, a mulher implicava, e ainda sentia moleza no corpo depois de fazer o que Deus permite. Você sabe que tem coisa estranha em você, não sabe? O homem abanou a cabeça dizendo que sim. E esta coisa estranha vai me pegar também. Quero ver nós dois doentes. Que a gente faz? O homem fuma solene. Deixa eu fumar, mulher. Eu preciso fumar com calma senão fico nervoso o dia todo. A mulher riu. Não aguentava a catinga do fumo, mas amava o marido. E desde quando a gente é casado? Ela pensava. Já vi casamento em igreja. Pessoas ficam sérias em casamentos. Eu não quero ficar séria. Não mesmo. Virou o corpo de banda. O cabelo grudava nas costas dela e ele terminou o cigarro e levantou-se. Vai pra onde? Vou mijar. E cagar também. Posso? Pode. A mulher não queria que o homem fosse pra longe dela. Ainda era noite. Não tinha sol. E noite é noite pra qualquer um. No escuro todo mundo é nada. O homem saiu andando lento e foi fazer o que precisava. O cheiro não era nada bom. O cheiro não. Era fedor. E você ainda diz que eu sou suja. O homem grita lá de longe. Você não é suja, não. Não sabe que adoro teu cheiro? A mulher riu ainda deitada na poça de suor da mistura de sexo e orvalho. Noite tem orvalho e dia tem o diabo. Que vamos fazer hoje? Sei não. Mas a gente se ajeita. Tudo mais se ajeita. Tá com fome? Tô meio mal desde ontem. Foi o pernil. Que você esperava? Pernil de três dias só dá nisso. E, quando o homem já fazia sua higiene matinal, a mulher arregala o olho e grita pro homem correr e os dois saem que não levam nem a cama feita de caixote e papelão. Os outros também acordam. Era gente demais na praça dormindo de graça e chega a polícia que alguém ligou dizendo de sexo em via pública. E é nesta hora que corpo magro e faminto fica saudável pra dar com o pé e viver mais um dia como se fosse uma vida em vias de continuar. E lá vai o bando correndo, o homem mais a mulher, carregando seus trapos, atravessam a rua que nem bala pega e vão longe buscar outro lugar. Deixa, diz o polícia. A gente já cumpriu a ordem. Limpamos a praça. Entram os dois uniformizados na viatura, avisam pelo rádio que o trabalho foi feito e se bolam de rir da cambada de mendigos correndo em desespero. Em seguida, os dois policiais se dirigem ao boteco da esquina e saboreiam aromatizados o primeiro café do dia.










Image by Ben Heine

6 comentários:

CARLA STOPA disse...

Adorei o final...Meu abraço.

Anônimo disse...

E se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega?
Diz que deu, diz que dá, e se Deus negar, ô nega
Eu vou me indignar e chega, Deus dará, Deus dará
Deus me deu mão de veludo prá fazer carícia
Deus me deu muita saudade e muita preguiça
Deus me deu perna cumprida e muita malícia
Prá correr atrás da bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia
Diz que Deus dará, diz que dá, não vou duvidar,ô nega
E se Deus não dá, como é que vai ficar, ô nega?
Diz que deu, diz que dá, e se Deus negar, ô nega


n.

Letícia Palmeira disse...

Valeu pelo trecho. Eu ando tão envolvida com Chico Buarque que vou acabar maluca.

Bjo procê, n.

Eder Asa disse...

Já eu, adorei tudo! Sensacional...

MAILSON FURTADO disse...

Belo post...

Belo blog...

Parabéns muito bom seu espaço, voltarei aqui mais vezes...

Convido vc a conhcer meu trabalho (poesia, música, teatro)

Ficaria feliz demais!

http://mailsonfurtado.com

Zélia disse...

Meu marido acaba de me perguntar: "Vai fazer o que agora?" kkkkkk