31 janeiro 2011

penduricalhos





Há tempos busco motivo para escrever. Não sei o que há. É um tipo de entupimento. Não seria melhor dizer bloqueio? O fato é que me sinto tal qual uma galinha entupida de um ovo que não sai. Estou feito cachorrinho com prisão de ventre. Já viu cãozinho na rua todo se espremendo e nada da coisa sair? A gente, quando criança, faz assim com a mão que é para o cãozinho ficar ainda mais agoniado. Quando eu era criança eu era tão ruim. Irmã Margarida sofria muito porque eu fazia cara de sonsa. Eu usava meias coloridas, brincos de argola e batom. A freira ficava pra morrer. Ajoelha, menina. Reza que tua alma está ardendo. Ela costumava dizer que eu vivia tomada por demônios. Eu soube que ela morreu e o colégio virou faculdade. Rá Rá. Grande merda. Faculdade particular é um saco de lixo e meio. É iniciativa privada. E o resto eu não preciso ditar. Chove direto desde ontem e eu estou vazia. É na chuva que a gente sabe se ama ou não. Repito vulgarizada pelo momento: Porque é na chuva que acendo um cigarro e vejo as gotas tombarem pelo telhado e elas fazem enormes clareiras na areia por onde passam as formigas. E todas as formigas morrem afogadas na lama. Isto sim é tristeza. A minha vida não é triste. Eu apenas sinto saudade. É uma saudade desconexa porque não tem objeto. É saudade que pede complemento. É regra da gramática normativa. Parou de chover e já não ouço sirenes há duas horas. Sinto falta dos bombeiros, dos loucos, das diaristas, dos taxistas, da cabeleireira colorida que fala pelos cotovelos e sinto falta do Ivan. Ele é que era homem de verdade. Feito Amélia que era mulher, o Ivan era homem. Pena que não está aqui. Mulher, quando inventa de escrever, ou escreve poesia ou só fala em homem. Tropeço em meu machismo. Não é isso. Não é falar de amor. Ivan não é amor apenas. Ivan é sexo. E amor. Mas, amor de verdade, só depois do sexo com o Ivan. Ele me pegava, me girava, 360º de umidade, e eu me desdobrava. Grito. Agora estou com saudade. Palavrões estardalhaçam o silêncio desta hora. Maldita hora. Última lembrança dele veio dentro de um envelope. Dois pontos.

Sei que gostas de penduricalhos:

- Dois Chaveiros;
- Um Pingente;
- Um botão que roubei da cortina do Hotel España, na Calle Cañoto, em Santa Cruz de La Sierra.

E assinou "Eu te amo. Para sempre, Ivan".

O único Ivan do mundo que começa com G e termina com Ave-Maria-Cheia-de-Graça. Vá se danar, homem desgraçado. Homemfilhodeumaputa. Coisa feia é falar mal. E horrível é falar com as paredes. Péssimo morar sozinha. Polissemia está na moda. E me enche a boca só de pensar no que poderíamos estar fazendo agora. O Ivan e eu. O Word não reconhece o verbo que acabo de digitar. Gramática escrota este computador me traz. Vou ao manuscrito. Agenda ao lado e risco o verbo. O papel reconhece o que sinto. Sem conflito, assino meu nome, salvo o escrito e suspiro enquanto tramita o sol escravo de seu próprio brilho.








Image by aletza

8 comentários:

Felipe disse...

Perfeito, Lê! Estava no twitter e ve o aviso de texto novo! Me salvou a madrugada! :)

Beijo...Fê

A Escafandrista disse...

Gostei, Letícia. Sempre venho, mas quase nunca deixo comentários... hj resolvi comentar. Visita-me. Bj e boa semana.

Alicia disse...

Penduro e caio.

Casa de Mariah disse...

Sempre desconfiei que pessoas que fumam pensam mais, ou pensam melhor. Se a fumaça do cigarro desenha então uma vidraça "enchuvarada" aí não tem pra ninguém.
Já tentei fumar algumas vezes e ficar mais poetica, não deu certo.
Adoro seus textos.

Casa de Mariah disse...

Ah, também ando entupida.
Diferente de você, não tenho grandes pretensões quanto aos meus textos. Enquanto você espera "vivos" ovos, cheios de promessa de vida...eu espero dos meus, um "cocozinho".
Mas tudo bem, continuo fazendo minha forcinha.

CARLA STOPA disse...

Seu respirar é pura inspiração menina...Adorei...

Zélia disse...

Entendi quando vi a foto: o cigarro é um penduricalho. Jesus! É mais difícil para uma mulher se livrar de seus penduricalhos...

Mulher que escreve, escreve "poesia"; padre, tem que ser feio; homem não pode dançar balé, somente PRECONCEITO.

Um amor, um alguém tentando escrever, um Ivan escrito com letra trocada, dois sozinhos - ou não. Ninguém merece sofrer por amor. Ou o matamos ou o agarramos de vez.

Ponto.

Jude Araujo disse...

Bom demais, já estou seguindo. E com certeza, voltarei mais veze..
Parabéns! =D