24 janeiro 2011

vinil contrário










É claro ainda e acendo a luz para ver o óbvio. Você se espalha quando passo que te amasso com o olhar e te amo mais que morro. Você não entende de amor nem alpinismo. Nem cinismo você entende. Logo, nada sabe de mim. Outra noite, quando você chegou irado de trabalho e das ruas, eu pensei em consolar tua raiva com dose cavalar de mim. Aquela coisa de se abrir, salivar de vinho e encher a sala de palavra doce. Tudo adocicado pra não falhar. Mas você, esquivado feito bicho assustado, fugiu pro quarto, tomou banho e enfiou a cara no jornal. Leia e morra, pensei. Você não morreu. E eu odeio falar em casamento. Casar é morrer, morar junto é sufoco e quem te disse que eu queria envelhecer assim, com você e toda a parafernália que a gente acumula feito duas mulas carregando peso em excesso? Esta merda de sacramento que sufoca. E eu casei, jurei, abri as pernas e consolidei o fato com feto e fraldas de estandarte. Éramos livres antes disso? Acredito que, quando dissemos sim, o não nos afetou. A gente passou a viver de negação. Negando tudo: dia, noite, beijo na boca, passeio de mãos dadas, e eu daria tudo para ter nada de novo e ser tua como naquele dia que sentamos na areia, de violão e música na boca, e você disse que ficaria pra sempre. Mas não precisava ser assim. Meu vinil toca ao contrário. E, em outra vida, prometo que não te castro. De eterno, quero só a memória. Do amor, quero contar história. E, romântica, eu declaro fim.









13 comentários:

Renata Cunha disse...

Que bonito!

Letícia Palmeira disse...

E as músicas da Adriana sempre acabam em novelas.

Zélia disse...

Essa coisa do saber do outro passa pelo "saber de si". Aí, entra Foucault e tantas outras coisas. Impossível saber do outro se não sabemos de nós mesmos. Difícil que o outro tenha certeza sobre aquilo que não queremos mostrar...

Don Mattos disse...

Escreveste o fim do meu texto?

Escreveste o que a mulher que foi embora disse sem dizer?

Só que o fizeste com covardia, pois escreveste de um jeito que eu não saberia escrever, mas adoraria ter imaginado.

Tu sabes ser cruel, sabes disso?

MOISÉS POETA disse...

legal seu blog !
ja virei leitor !

beijo!


p.s
estou te seguindo , curioso que minha foto não aparece.
mas consta a qui pra mim.

Sonhadora disse...

*-*

Texto mais bonito que meu pão-de-queijo assando.

CARLA STOPA disse...

Um violão, uma música e um sempre...Adoro tudo isso...Adoro ler-te...

Anônimo disse...

muito bom, mesmo



n.

Vanessa Padilha disse...

Belo texto ADOREI!!!

Cassandra disse...

Acho que o que eu penso sobre seu seu post (muito bem escrito, por sinal) é o que escrevi sobre casamentos num post meu:

"...O que é mais recorrente, no ápice da loucura do amor, é que se case para exigir do outro que a loucura dele nunca mais acabe. A coisa toda não é uma inteira e completa loucura só? Que seja então um pacto, um acordo comum, uma decisão espontânea e racional, (leia a próxima frase em seu tom mais irônico) afinal e teoricamente, nós não estamos em uma sociedade que obrigaria um a ficar com o outro se não houvesse amor, não é mesmo? Mas, se você mal sabe de onde o amor veio, como poderia saber para onde ele está indo? Não há ninguém no mundo que tema o casamento, o que se teme, é claro, é o divórcio."

http://cassandrakisaco.blogspot.com/2010/12/meu-deus-vinicius.html

Renata Luciana disse...

Entrar aqui Letícia é como mergulhar nos meus retalhos coloridos, cinzentos, floridos. completamente absorvida. no virtual só tu e o Carpinejar me impulsionam ao mergulho profundo.

Um abraço,

Mariana disse...

Oi, tudo bem? :) Estou passando para convidar você para dar uma conferida no meu blog. É um blog para deixar o seu com a sua cara. Espero que goste. Beijinhos :*

Eder Asa disse...

Fantástico, fantástico...
Esse seu lirismo... me atinge, e como.