05 fevereiro 2011

afetadas.com





a nódoa


Era apenas uma mancha sem importância. Assim como se fosse um tapete de porta. Um capacho. Estaria ali, no entanto, poderíamos passar por ela e não fazer dela sentido. Eu não dei importância. E, estes não ligares amaldiçoaram o janeiro daqueles dias. Poderia ser sangue. Uma aberração seu ato de voltar para casa com mancha de sangue em camisa pólo comprada em dia de amores. Nem me dei conta. Havia muito no que se pensar. Filhos, trabalho, depressão, ginecologista, celulite, anormais tentativas de regressar aos estudos, carro, colégio, suas roupas, minhas falas frente aos outros, Os Outros, planos de viagem, organizar a vida dos filhos (ainda pequenos e desprotegidos) e eu não poderia deixar de ser quem sou para lidar com uma mancha em sua camisa. Nada mais indigno e antigo do que se deixar ser visto. Fechei os olhos. Hoje, anos passados, o que era mancha torna-se nódoa. Ela berra ao telefone, questiona a respeito do inventário, fala de suas vontades, diz que há cartas escritas guardadas em uma escrivaninha e, insolente, diz que era dela a vida do homem que apenas eu sabia. Agora, no reparte dos bens e dos males que você deixou, sinto amargurada intensa culpa por ter me negado a ver a nódoa que me derrotou.



boicote


Sorridentes homens bebem no bar da esquina. Quanta gente. Quanta alegria. Meus olhos passam pelos homens, carros passam por mim, e o ponto de ônibus está deserto. Passa vendedor de garrafinhas. Passa menina mendiga pedindo um trocado e eu espero ônibus, desocupada que estou com as horas, observo pessoas elaborando seus dias. Por fim, chega o 517. Subo, mostro carteirinha, motorista me sorri e vejo os homens celebrando bêbados no bar da rua. Quieta em aversão minha criatura, entregue o ônibus está às ruas, segue a vida às escuras e eu padeço dias sem saber de mim.



yakisoba SOS


Super fã de Caio F., supra sumo da internet, à vapor ela escreve. Um texto após o outro. São narrativas, muitas vezes todas iguaizinhas, talvez um plágio lhe caísse bem. Veja que os morangos mofam, as epifanias cessam e do escarro nasce o tédio. Seus cabelos crescem (excessivamente longos), ela sai com amigos, fortuna adquirida em conversas, "text me when you're back", São Paulo a plano de voo, não namora que é ocupada, uma beleza a desajeitada cult organizada. Yakisoba SOS, coleciona florzinhas, cortiça de vinhos e fala mal da vidinha de seus humanos queridinhos. Poética clemente toma para si o que é dos outros e vive aniquilada de inveja em seu mundo pequeno de apartamento com varanda, cigarros mentolados e leituras de cita dor. Muitas noites ela dorme intranquila porque sua vida não é vivida como nos romances que resume, que analisa, que vulgariza seu intelecto devastador. Vida sem requinte, ela pensa, e ostenta arrogante sua imagem que há anos desbotou.









Image by Linnea Strid

4 comentários:

Zélia disse...

Gostei do desenho do texto. Parece um poema em estrofes. Espirro com a fumaça do cigaro que entra em meu quarto e me sinto afetada. Penso que essa é a era dos afetados.com e nem dos damos conta disso. Muitas vezes, se nos damos conta, a mancha já virou nódoa. Aí, vem o tempo do "quanta gente. Quanta alegria" e nenhuma alegria de verdade no meio da multidão. Nesse momento, já estamos com a "imagem que há anos desbotou"...

Zélia disse...

Just to repeat an old line:

"People are strange"

o.O

Letícia Palmeira disse...

People are strange
when you're a stranger
Faces look ugly
when you're alone
Women seem wicked
when you're unwanted
Streets are uneven
when you're down

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name

(The Doors)


Essa música é o número certo para o pé descalço.

Tatiana Kielberman disse...

Querída Letícia,

Sempre visito seu blog, por mais que não comente...

Parabéns, excelente conteúdo!

Beijocas!