19 fevereiro 2011

ameaça de extinção




Carros bacanas cambaleiam nas avenidas do Cabo Branco enquanto o mar avança. Turistas caminham pelas feiras sorrindo artesanais suas novidades digitais. E o mar ainda avança a calçadinha com sua elegante tromba esverdeada de peixes e sargaço e o mormaço no asfalto causa vertigem em dias de verão. Descanso a cabeça nos joelhos, abraço o corpo inteiro e romantismo é coisa de soneto. Esfarrapada à farpa forçada, vislumbro o pássaro aninhado no telhado de casa. Mentiras abobalhadas transitam pela voz gasta de falar ao telefone. Nada se cumpre. Ele disse que viria. Mas não veio. Ainda inventou uma dor no olho. Tento outro número: Eu liguei errado. Meu telefone é uma bagunça. Mas fala. Já que te liguei, conta as novas. E a linha estica de conversa furada de estar bem, de estar fazendo sucesso, de ter dinheiro, trabalho, costume e santo padroeiro. 11 da noite e nenhuma alma penada narra história para boi dormir. Lavei meu pijama de flanela de imensas margaridas estampado. Eu não entendo as pessoas e ainda considero belo O ANUNCIAR DAS ILUSÕES. Você vai mesmo contar seus dramas ao telefone? Posso chegar aí em cinco minutos. Muito tempo. Em cinco minutos meu sol se põe, a lua tomba e eu desmonto feito jogo de xadrez. Boa noite, então. Desliguei e tomei meio copo de tédio, tomei vergonha e tomei no dito popular mais sacana. Ando fustigada e caio empacada no crivo do cravo do treco encrencado. Ligo de novo. Ocupado. Outra romaria de catar caco de cara que não ocupa canto no meu caçar. Alô. Um amigo me salva. Conta teu motivo que eu conto o meu. Deixa só eu pegar meus cigarros que a história é longa. Fumamos fumaça inflando fabulosas farsas. Então foi dor no olho? Isso não é desculpa. Já parou para pensar que é tudo culpa sua? Culpa é carga máxima para o meu paladar. Mas já pensei, penei e até bolei um dicionário de desculpas pra ver se caio em minha própria arapuca. Sua ingenuidade não tem cura, ele diz. Sensacional sabedoria sua que me sacia. Se eu fosse outro você sabe o que faria? Sei. Você chegaria em cinco minutos, antes do sol tombar e a lua do céu se expulsar. Meu amigo implica que sou cria de crendice antiga. Ele me chama de menina. Me manda dormir. Fecha os olhos, conta carneiros e descansa dessa ânsia de aflição fajuta. Saia à rebordosa e sofra calada ou sofra nada. Eu dito frase citada pra causar impacto. Meu amigo impaciente diz que não suporta citação que é citada por toda cidade por banais bocas que bobeiam agitadas pelo vento. Quanto você bebeu? Nada. Então é porre de quê? De mim. Da chuva. Do livro que ainda não li. Do cúmulo que cultuo sem motivo algum. E foram duas horas de conversa, alguns cigarros fumados pela metade, banho tomado às cinco da manhã e o sol nascente dizendo acorda que hora de outra romaria. E virão certeiros outro primeiro vigésimo orgasmo, outro caminho e atalho e, apaixonado, virá outro ducentésimo quadragésimo sexto primeiro amor. E, enquanto a vida vaga continuada, as casas do Cabo Branco permanecem intactas, mortas de medo, ameaçadas de extinção.




9 comentários:

R.B.Côvo disse...

Sempre pode apostar no ducentésimo quadragésimo sexto primeiro amor. rs Um abraço.

NDORETTO disse...

...Tristinho, darling.......aaahhhh.......beijos.....

Sonhadora disse...

Ah, que perfeito, coolmadre. Achei tudo tão familiar, não que isso seja de todo bom, mas é aconchegante como tomar banho e colocar roupa limpa de algodão.

Isso aqui sou eu: "Então é porre de quê? De mim. Da chuva. Do livro que ainda não li. Do cúmulo que cultuo sem motivo algum."

E cinco minutos são mesmo fatais.
Luv u.
=}

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

a natureza não tem fim nunca, mas o meio ambiente...

A Escafandrista disse...

"Ando fustigada e caio empacada no crivo do cravo do treco encrencado", vc brinca com as palavras, adoro seus textos. bjsssssssss

Anônimo disse...

primeira vez por aqui.
gostei de quase tudo.

enio.
www.solardaliteratura.blogspot.com

Zélia disse...

Sabe, na última tarde de quinta-feira estive em Tambaú. Passeava pela calçadinha enquanto o mar cobria tudo. Pensei nas casas do outro lado da rua e no mar levando tudo. Mas, a imagem de destruição que eu tinha foi logo trocada por uma imnagem totalmente contrária. Aquelas ondas estavam era lavando tudo. Lavando toda a sujeira que chegou até o mar. É assim que devíamos fazer, também. Lavar, sempre, toda a sujeira que chega até nós e ficarmos limpos para o nosso bem e o bem do(s) outro(s).

Celso Lins disse...

Senti exatamente isso andando pelas ruas de Cabo Frio ontem, rs.
Linda crônica!
Um beijo

Herético disse...

Texto lindo :D
Fica bem melhor se lermos com o sotaque brasileiro (: