02 fevereiro 2011

catarina caricata





Catarina caricata, salve beleza idolatrada, curvilínea aveludada, boca carnuda de espécie rara cavalga seu namorado vertebrado que jaz logo abaixo da menina perfeita mimo do céu um amor. Cansada da marcha, Catarina interrompe o ato e diz ao namorado que sossegue. É hora de fumar um. Cruza as longas pernas, felinas inquietas, e a menina enrola o cigarro curtinho e sorri corada e nua. Alcança o isqueiro com a mão esquerda e derruba, sem cuidado, o porta-retratos que estampa mãe, pai e irmã. Sorri mais. O namorado, ainda faminto, permanece deitado, olho fixo no teto, na teta, na cara bonita de Catarina que faz careta ao queimar a ervinha que sobe à cabeça. Sorri bonito o cara. Menos de vinte, auge da fome, brinca de passa anel com Catarina. Mas, ao contrário de, passam cigarrinho que deixa a cabeça bem melhor: suspensa, suave, sonora. Catarina não gosta de falar do ato. Fala durante. Mas, depois que acaba, não sente a menor vontade de dizer o que sentiu, como foi, se era daquele jeito ou se deveria enfurecer mais o dragão para que ele soprasse seu fogo dentro de seu alçapão. Ela diz que não gosta dos apelidos que ele usa. Ele dá de ombros. Mas eu gosto. E você está linda assim nua em pessoa. Conversam baixinho porque há gente em casa. O aroma no quarto é de carne, incenso, coisa que queima e afeto. Que é sexo. Mesmo quando não há amor. Catarina nunca amou. Só de leve, de longe, de repente. Tive uns quatro antes de você e amei todos. Mentira. Ela mente tão doce, pensa o rapaz que fuma com força para que a fumacinha cause mais impacto no corpo que ousa possuir Catarina de novo. Um dos dois, já dormentes, liga a TV. Não se sabe dizer quem. Maconha causa perda de memória. E, depois que começa a zunir na cabeça o efeito, a gente perde o caminho. Risos envaidecidos por ser tão linda e se saber perfeita a moça de seios erguidos. Crise mundial. Não é legal? Saber que estivemos aqui, no mundo, no caos? Só é legal. Catarina acreditava que Egito fosse lugar de tapete mágico, pirâmide e camelos nas areias escaldantes. Pensei que todo mundo fosse feito de Aladim. Muita risada no ar. Você confunde Egito e Arábia, Catarina. A menina rindo mais lindo que nunca. O rapaz aproveita a algazarra e vai tentando o que Catarina já não quer fazer agora. Ela ri e joga o corpo pra longe do alcance da mão do cara que diz: Vamos pra lua. Algo mais rápido. A fumaça é lenta. Catarina ri, discorda, concorda e cheira a poeira branca que o namorado separou com tanta devoção no vidro do porta-retratos que à família enquadrou. Nunca misturei. Aliás, nunca cheirei. Acho barra pesada. Mas a moça não sabe nada de barra pesada. O rapaz a diverte explicando a evolução das drogas desde os anos 70. Ou bem antes disso. O cara sabe de tudo. E ainda tenho pílulas. Catarina sempre achou que pílula fosse coisa de sua mãe emburrada com raiva de ser chifrada pela centésima vez. Que nada tem a ver. Os dois cheiram estradas, Catarina já sente euforia e desce pela garganta um comprimido que fará milagres. O homem quer o excesso da moça que, nua, fala maluquices e diz que as nuvens parecem de cera e mel. Recomeça então o balé de orquídeas. Flores afetadas anestesiadas de química se envolvem e haja beijo e promessa e nenhuma palavra é compreendida. Um sobe e desce de montanha russa, cavalo marinho gigante, Catarina cata com a boca o que o namorado rígido oferece e seguem os dois, gametas compenetrados, abraçados, traficados, e há mais força que não sente Catarina. Há mais boca que não sente o namorado. E há tanta sede que há palpitação e olhar expulso de vida. Morre de overdose Catarina enquanto risonho, maluco, amoroso, o namorado a entope de paixão.






Image by alifann

5 comentários:

Zélia disse...

Depois disso tudo, que queria Catarina? Simples, se a pergunta não soasse de alguém bastante careta. Não sou careta. Apenas faço careta. Tanta coisa... Tanta vida ainda por viver...

"Maconha causa perda de memória." é frase que cabe em carteira de cigarro. Tipo aquelas advertências do Ministério da Saúde. Vai ver, Catarina não foi advertida. Ou não o suficiente.

Só lembro de ter conhecido duas Catarinas em toda a minha vida. Uma, estudou comigo e é perfeitamente a caricatura da Catarina do texto - e há tempos já bem passados. A outra, é a gata dos meus amigos Fábio e Rossana. Catarina, a gata, talvez, nunca tenha amado. "Só de leve, de longe, de repente"...

Morre a vida, enquanto a vida se faz...

Do resto, não se precisa falar. Reticêcias...

A Escafandrista disse...

Tenho achado tua escrita diferente, Lê, parece mais realista... estou certa ou é só impressão? bjs

Eder Asa disse...

Catarina não morreu, virou poesia em seus maõs!

Cassandra disse...

A história está bem contada e prende a atenção até o final, e, de fato, é uma caricatura das mais caricatas: que Catarina cheire pela primeira vez e morra de overdose bem na hora do orgasmo do namorado pestilento que forneceu drogas pesadas para a linda menina de lábios carnudos.
É uma caricatura, aliás, que me incomoda muito porque reforça a visão de um tio que teima em simplificar para sempre o movimento hippie como uma reuniãozinha de gente suja e alegre.
Não acredito que namorados sejam seres hediondos - maditos Blakes - que levam menininhas virgens a se perderem no mundo das drogas. Tanto os meninos quanto as meninas que são jovens, são alimentados todos os dias com milhares de motivos caríssimos para se viver: ter isso e aquilo, fazer isso e aquilo, ser isso e aquilo. Para alguns deles, entretanto, esses motivos podem ser caros demais, ou vagos demais para convencê-los
Como a Amy Winehouse pode, num momento, ser considerada um gênio da música e, em outro uma simples burra que segue burramente a má influencia dum namorado? E será que seu comportamento viciado é mais ultrajante que o comportamento das dezenas de fotógrafos que lhe tolhem a liberdade para alimentar o vício em fofocas dos outros?
Prefiro pensar que a Catarina morreu tendo ela mesma um belo dum orgasmo e se recusando a viver uma vida inteira de erros que o próprio mundo a obrigaria a cometer.
Porque é assim que vejo, um mundo que aplaude a loucura vigente e dá de ombros, pisa na cabeça ou assassina os que questionam.
*Sou nova no mundo dos blogs e só deixei esse comentário enorme :) porque estou escrevendo uma história sobre o tema que é vasto e polêmico. Gosto muito do seu blog e, de verdade, achei o texto muito bem escrito. Só quis acrescentar comentários que pudessem mostrar outras visões sobre sua caricatura do tema. Certamente vc já conhece outras visões e pôs no papel a visão caricata apenas. Meu objetivo foi apenas compartilhar algumas considerações para a pauta :)
Abraços.

Letícia Losekann Coelho disse...

Ótimo!
Beijos