07 fevereiro 2011

dias ao vento






Sempre que uma dessas pessoas é internada ou morre e ninguém diz o motivo, pode ir atrás: é o mesmo que fazer propaganda de cigarro. Porque todas elas fumam. São intelectuais ou escritores ou jornalistas. E essas pessoas fumam. Não é preconceito. É costume de ver. Sempre que vejo um escritor, ou tem dente amarelado de nicotina ou fala de voz aguda. Ou grave demais. Coisa causada pelo cigarro. E cigarro faz mal, há de se admitir. Mas ninguém morre por fumar. Muitas vezes, essas pessoas não praticam esportes, não se alimentam bem e dormem fora de hora. É isso que mata. O cigarro não. Indefeso que é, só faz fumaça. Quanta mediocridade pode sair de uma boca como a minha. Calo. O sol bate feito sino e canso. Abre e fecha de janela e alguém ouve tango. Tão cedo para um tango. E isso é coisa antiga. Lembro-me de uma tia. Já morreu. Ela era muito baixa. Parecia uma anã. Cabelo louro encaracolado e curtinho. E usava muita maquiagem. Agora sei que era para encalacrar a velhice. Pessoas não querem envelhecer. Ficam todas se repuxando e fazendo papel de deus e desejam imortalidade. Pergunto-me o que alguém pode fazer nessa terra caso viva para sempre. Esse negócio de viver para sempre é entediante. A gente deve ficar tão gasto na eternidade. Vendo só repetição na vida. Uma canseira que nem o sol pode causar ao meio-dia. E a minha tia, que era baixinha mesmo, eu via a mulher do corredor de casa. Ela costumava ficar no quintal fazendo ginástica. Bem cedinho. Erguia os braços, fazia respiração profunda que a barriga subia e descia e ela, minha tia, ainda ficava de cabeça pra baixo fazendo estrela. Era estranho. E eu ficava olhando. A casa, que minha não era, era de minha avó, tinha muita porta esquisita. Porta que abria só a parte de cima. As portas eram cortadas ao meio. Então eu achava que, além de portas, também poderiam ser janelas. Era estranho ver aquelas portas todas pintadas de cinza e cheias de ferrolhos. Da terra de onde eu vim, não havia porta como aquela. As portas eram inteiras. Não eram semi-janelas. As ruas não eram cheias de árvores. E ninguém sorria. Porque era sempre hora de correr e, na pressa, ninguém para. Ninguém se atreve à ilusão de uma tranquilidade. E a casa, que não era minha, era de minha avó, sempre foi tranquila. Casa branca, mangueira no quintal e meu pai urrava de bêbado. Lembro-me do guarda-roupa onde eu me escondia. O melhor de tudo, quando a gente é criança, é fazer paz na guerra e não entender nada. Eu entrava no guarda-roupa, naquele escuro, e dava de cara com um irmão ou irmã. Os olhos grandiosos de medo. Mas, para não dizer fraqueza, a gente começava a brincar, lá dentro mesmo, do guarda-roupa. Por isso gosto de tanto de guarda-roupa. É algo que não me deixo faltar. Sempre que posso, imagino se meu tamanho ainda cabe em algum espaço do móvel. Sinto vontade de me trancar no guarda-roupa na ingênua esperança de poder brincar de novo. De ser criança mesmo e fingir não ter medo. A gente cresce e o medo fica estampado feito manchete de jornal. E sobe muro da casa, cerca elétrica, alarme, bolsa pequena pra não chamar atenção e camisinha pra não pegar doença. Sinto-me tão escrava do medo. E, nessas horas de lembrar de tias e portas que imitavam janelas, consigo ouvir os berros de meu pai. A diferença é que agora não tenho mais tempo para me trancar no guarda-roupa. Preciso sair e trabalhar. Amar e desfrutar do mundo. E, quando estou participando da vida, fabricando o que um dia será história, ninguém vê que sinto medo e daria tudo para estar lá, dentro da memória, vendo minha tia fazendo estrela e soprando vento através da porta.











Image by AvarielGirl

6 comentários:

Camilla Tebet disse...

Também vivo amarrada de medo... fumo e tbém acho que não é isso que mata. Me escondo, ainda, no guarda roupas e embaixo da cama. E quando saio, leio coisas assim, que me tocam.

R.B.Côvo disse...

Deixei de fumar há mais de um ano, e que se respira melhor, isso respira! Mas não acho que se morre porque se fuma; morre-se porque tem que ser- é a lei da vida. Um abraço.

Felipe disse...

Texto perfeito! Perfeito!

Sigo adiando o ato de parar de fumar, assim como sigo adiando inumeros outros quesitos de minha nobre vida!

E concordo com o R.B.Côvo! :)


Beijo...Fê

Thais Souza disse...

Bem queria viver num mundo sem preocupações. Sair de casa com as portas abertas, sem se preocupar com alguém roubanda a casa. Parece que agora o guarda roupa se transformou em gastos e novas tecnologias de segurança.
;)

Ives disse...

Olá, quanta saudade de qdo eu me escondia, no meu berço rs abraços

Zélia disse...

Dizem que sempre há a primeira vez para tudo, que seja esta, então.

Eu calo.