17 fevereiro 2011

gato e sapato





Trejeitosa e com sorriso de malícia, lá vai Marli de novo, de cá pra lá, num pé e noutro, num leva e traz de bandeja que deus a livre. Ela fez o jantar e está servindo a entrada. Marli trabalha todo dia na casa de Dona B. que tem amigas que só falam porcaria, jura Marli. De pé junto ela agradece pelo trabalho que tem. Foi por causa deste trabalho que comprei minha casa. Só tenho que agradecer. Marli é mulher nova, acorda cedo e pega ônibus e sempre chega na hora. Nunca se atrasa. E nunca mete a boca em conversa alheia. Não assim, que todo mundo veja. Mas, quando ela se entristece, eu a deixo alegrinha. Feliz e tontinha, pensa Marli. Aqui na casa eu não falo nada. Mas isso não quer dizer que eu não escute. Eu sei de tudo. Cada conversa, cada pontapé de vento, cada porta batida na cara. Sei de cada detalhe. Marli sai com outra bandeja. Dessa vez serve uns bolinhos que mais parecem sequilhos. Gente rica não sabe comer. Eu já vi a Dona B. comendo escondido. Ela vem aqui na cozinha, pontinha de pé, abre a geladeira e come tudo com a mão. Já vi a mulher pegar coxa de galinha, comida que só é servida aos empregados, e engolir a galinha inteira e lavar a boca aqui na pia da cozinha. Foi a primeira vez, eu lembro. Ela vinha tombando sem saber quem era, dei banho e dei beijo e era tanta vontade. Mas ela não lembra. Marli pensa. Ela só vivia de passar fome. Hoje até que anda melhorzinha. Mas ela não sabe o motivo. Ou vai saber? Eu acredito que seja fingimento. Marli serve o jantar e tem quase certeza que as mulheres, amigas de Dona B., só vão comer um grão de cada coisa e dizer que estão cheias de barriga grande. Essas mulheres não comem. Pelo menos, não na frente das outras. Elas ficam de falar termo técnico, palavra de elegância, uma vira a cara pra outra e é tudo magrela, esticada, repuxada de tanta plástica. E, o que mais me deixa incrível, é que todas são tão tristes e solitárias. Marli, você está falando demais, ela pensa. Na verdade, palavra alguma saiu da boca de Marli. Era só pensamento. Ela vai e vem da sala e pensa sem parar. Mas nunca abre boca. Dona B. muito elogia Marli dizendo que Marli é discreta, que Marli é boa de culinária, que Marli é de respeito. Marli observa Dona B. elogiando e lembra das cores de seus jeitos na cama. Ela não lembra das noites que não vou pra casa, que não me largo do corpo dela, que me faço de gato e sapato enquanto ela, toda cheia de remédio, nem sabe quem eu sou. Dona B. toma comprimidos e adora fazer shopping. Vive dizendo que adora compras e sempre me traz presente. Sempre me compra coisa de mulher. Gargantilha, brincos, lingerie. E o marido dela gosta de fazer coisa que não me atrevo. Marli volta pra sala e as mulheres agora tagarelam a respeito de sexo. Marli ri por dentro. As mulheres dizem que sexo é isso e aquilo. E falam um monte de palavra de médico. Nem parece coisa de gente. Só usam palavra ordinária pra falar de algo tão feito por deus. Marli pensa: deus fez assim ó: "Homem com aquilo e mulher com isso e todo mundo se recheia". Marli explica para si mesma a simplicidade do ato de ficar de quatro, de cinco, de nó ou ao contrário. Marli adora sexo e nunca passa fome. Porque é mulher aberta. Sabe se dar. Mulher nasceu para se abrir. Feito Flor. E nem precisa de jardim. Eu me abro rechonchuda e dou tudo o que tenho e faço o diabo a quatro pra deixar gente feliz. Marli se esvai de alegria quando lembra de cena que já passou. Era tanta mão e tanta boca que a casa parecia nua e Marli era dona de tudo que comia. Ela e a mulher Dona B. fazem girar o mundo. E, enquanto Marli pensa, as mulheres argumentam, como se fossem políticos em tempo de eleição, que fazem de tudo para estarem lindas e esbeltas. Falam como se fosse tudo verdade. Mas sei que não é. Dona B. quando chora de solidão é de dar pena. Ela chora em tudo que é canto. E bebe. A mulher fica bêbada com saudade do marido. Chora sem parar. Eu ajudo no que posso. E sempre quero. Levo chá, ajeito banho e Dona B. chora de morrer quando o marido some dizendo que viaja a trabalho. Ela é uma besta. Devia se olhar mais. Ao invés disso, Dona B. se estica magra e medicada pra não ficar com depressão. Mas tenho fé que Dona B. tome jeito. Ela está mudada. Vai saber entender que basta se deixar. Já me olha diferente sem saber o que fala. Meu cheiro está dentro dela e ela está em mim tão bem aninhada. E é nessa hora, de pensar calada, que Marli percebe Dona B. de olho cheio olhando pra ela como se soubesse. Um minuto e as duas são únicas, ali na sala, na casa, no meio da gente. Ela sabe, pensa Marli. Ela sente que sou eu. E as mulheres seguem falando alto e Marli fica ali, de pé, entre a cozinha e a sala de jantar, parada desejosa sabendo que, mais tarde, quando bater a fome que comida não mata, Dona B. vai chorar (de fingimento, talvez) e Marli, toda indiscreta e planejada, vai lá e alimenta Bethânia como se fosse flor aberta com outra flor aberta fazendo com que ela tome consciência de que sou sua mulher.









Image by nsca

7 comentários:

NDORETTO disse...

De tirar o fôlego.Bom demais. Putaquepariu,comadre!

bjs,Neusa

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia, alguns trechos despertaram imnha atenção...ess ´um deles...
Marli explica para si mesma a simplicidade do ato de ficar de quatro, de cinco, de nó ou ao contrário. Marli adora sexo e nunca passa fome. Porque é mulher aberta. Sabe se dar. Mulher nasceu para se abrir. Feito Flor. E nem precisa de jardim. Lembrei de Nelson Rodrigues...mas o final foi melhor ainda na minha opinião...porque de certa forma completou esta primira observação de Marli...
Quanto aos poemas-canção...podem sim virar, no meu caso depende mais do meu irmão...el é qum faz as transformações, de uns tempos pra ca tenho também transformado as canções dele em poemas...esse compartilhar tm nos feito bem, nos aproximou ainda mais...
Um abraço na alma
Beijo...kd o endereço ou o tel do Itaú? rsrs

Marcello disse...

Oi moça.

Como é bom ficar um tempo longe e depois ser arrebatado pelos seus textos, pela sua prosa requintada.

Marli sabe das coisas, não é ? rs

Lerei todos mais de uma vez, me inspirando e aspirando um dia escrever como você.

Beijos, saudades de você.

R.B.Côvo disse...

Oi! Mais uma vez aqui. Sempre venho aqui quando quero ler alguma história singular. Gostei muito. Abraço.

CARLA STOPA disse...

Mulher feito flor...Na medida do amor...Adoro estar aqui...

Zélia disse...

Gato e sapato: uma combinação perfeita!!!

Elza Magna disse...

Muito bom conhecer o seu blog, Letícia. E ainda mais lendo este conto tão inspirado e bem trabalhado. Sei o quanto é difícil entremear narração e falas com clareza e naturalidade sem destacar as passagens com a pontuação convencional.

Voltarei com mais tempo, para ler mais coisas suas.

Bjs