10 fevereiro 2011

lado b





Todas furadas. Todas elas. O conhaque transborda no copo de geleia. Tão maltratado vive um homem, assim, desmantelado. Sobe e desce de escada em busca da melhor cara pra ir dar com ela. Ruim de tudo isso é ter que ir. Ela vai inventar conversa e ele, sem falsete algum na voz, vai discutir com ela. É sempre assim. Briga em cima de briga e nada se resolve. E, irritante, ela vai pedir aquele café. Ele odeia a forma como ela diz: Um latte, please. Ele percorre os lábios dela enquanto ela fala. Toda sinfônica. Harmônica a boquinha dela se curvando pra fazer discurso. Vai dizer que ele não se cuida. Tenho certeza. Vai dizer, com aquela boca que não sei por onde anda, que não me cuido, que minha barba mal feita é sinal de abandono ou de sujeira. E, assim que ela disser toda a bobagem a respeito de tomar cuidado com a saúde, de prontidão, feito soldado, ele vai acender um baita de um cigarro e baforar bem na cara dela. Vou deixar-te esta lembrança, minha querida. Teus cabelos coloridos de vermelho, a ruiva imaculada, tu vais engolir fumaça. Que tanto ela espera? Já dei tudo. Doei paciência e amor. Era pouco? Que mais tu queres, mulher? Ele observa as roupas já escolhidas em cima da cama. Camisa azul e jeans. Ele bebe do conhaque e sente a roupa dizer: Eu não sirvo para ela. O quarto parece ecoar: Que receio é este de não querer vê-la? As mãos trêmulas do homem o amparam de uma queda. Pior é esta realidade que me ausculta. Feito médico. Não importa o quanto eu finja, que eu demonstre ódio ou indiferença, que eu a encontre apenas para desfazer-me de sua imagem ao dizer que ela engorda e se torna velha. Amor é como inveja. Cega o olhos, mas não adianta a fuga. Ele está. Feito médico. Ele sabe. Feito câncer. Ele cresce. Mesmo no silêncio da solidão que aprecia um homem. Por tantos anos eu desejei pisar no chão sem que os pés daquela mulher me seguissem. Eu quis todas as outras e não a quis. Mas é feito médico. Sabe o que sinto. O que escondo. Ela foi embora porque eu a decepcionei. Seria o auge de nossa conversa. Mas ela não diz. Só me culpa e me chuta em palavras com aquela boca de batom vermelho que não sei por onde anda. Mas é imenso o desejo ainda. Agora que se distancia a mulher que fora minha, eu a desejo. Veste suas roupas, homem. O mundo diz. Vai de encontro a ela, covarde. Toma coragem ao conhaque e diz que sem ela não se faz feliz o solitário que despenca em toda cama em busca da mesma mulher e nunca a encontra. O idiota está vestido. Eu estou vestido. Meias furadas?, ela dirá. Hoje iremos nos deitar. Deitarei ao lado dela em cama de qualquer hotel e faremos sexo. Do que sinto falta? Ela tem sorriso de arfante. Perde o ar. Ela dança sobre meu corpo e eu a decepcionei quando? Não tocarei no assunto. Hoje não tocarei no ponto. Hoje farei contragosto de minha vontade externa e direi que a amo. Meus músculos todos a desejam. No entanto, minha mente diz que não. Sigo sem raciocínio rua abaixo. Compro flores? Fumo cigarros? Que faço? Serei feliz? Coração parece saltar. Porque sou tolo. E ela estará de riso em brasa querendo vingança. Em pensamento, ela já está desarmada de suas palavras de mulher berrante e certa de tudo. Eu calo tua fala com o que beijo, mulher. O homem sabe o que quer. Caminha veloz, arfa o peito de coragem, hálito forte de conhaque e ele chega. Mas nem tudo sai como se planeja. Por minha sorte, ela não veio.







Image by Boyko Kolev

6 comentários:

Zélia disse...

A pessoa quando muito maltrata o outro é porque ainda há "amor". Já disse um certo poeta algo como "se lembro que não te esqueci é porque, de fato, não te esqueci"...

And so it is!

R.B.Côvo disse...

Gosto da sua forma um pouco diferente de escrever e de algumas tiradas, como esta: "Amor é como inveja. Cega o olhos, mas não adianta a fuga." Um abraço.

CARLA STOPA disse...

Lindo...

Usui de Itamaracá disse...

Adoro esse perspectiva dele de se imaginar por fora, como talvez outro visse sua situação...

No "eu não sirvo pra ela" fui ao êxtase...

Ana Cristina Cattete Quevedo disse...

A coragem diante de tantos inevitáveis nãos, me toca.

Ana

Jéu disse...

Parabéns pelo talento que tens. Um dos melhores lugares por aqui.