25 fevereiro 2011

o imaginário






Foi morte de raspão. O homem quase que não morria. Como é isso, menino? Como que se morre de raspão? A mãe e o menino conversavam na fila do supermercado, e, enquanto a mãe colocava os produtos na esteira do caixa, o menino falava. Foi sim, mãe. Eu vi. Fiquei de pertinho olhando. Eu já disse pra você não inventar conversa, menino. Mãe, não é conversa não. O homem quase não morre. Foi tudo de raspão. E foi por causa de um sem querer que houve com a polícia. Como é isso, menino? Que é isso de sem querer? E, no meio da conversa, passa caixa de sabão, papel higiênico, pano de pia, escova de dente (quem botou esse chocolate, menino? Foi você? Já disse que não vou levar coisa cara. Isso não é comida). E o menino ia que ia falando da morte de raspão e do sem querer entre o homem e a polícia. A moça do caixa, muito bem humorada, dizia que o filho da mulher era esperto. Garoto esperto. Vai ser estudioso. Eu aposto. A mãe dizia que o menino gostava de inventar conversa. Se você der trela, ele inventa tua vida inteira. É mesmo? Foi dizendo a moça do caixa enquanto checava preço de pacote de macarrão. O menino saltou pra frente da mãe e da moça do caixa e continuou. Eu vi. Fiquei parado na esquina e vi tudo que aconteceu. Primeiro chegou a polícia, depois o homem saiu, aí começou uma conversa muito alta (como quando a senhora me manda tomar banho, mãe) e o homem disse que não ia. Eu acho que a polícia deveria ter esperado, mãe. Acho que o homem ia acabar tomando banho mesmo. Menino, polícia não manda ninguém tomar banho. Mãe, a polícia é igual à senhora. Gosta de dar ordem e com a mesma cara e o olhar brabo parado na gente. A senhora já foi polícia, mãe? A moça do caixa riu e apertou um botão e pediu pra um rapaz de patins checar o preço de um pote de doce de leite. A mãe do menino sempre compra doce de leite pro pai do menino. A senhora tem sorte. É bom ter filho que conversa com a mãe. A mulher retruca: tu já tem filho? A moça diz que não. A mulher continua: então você vai ver o que é bom quando tiver o seu. As duas riem cúmplices de uma piada sem graça. Mulher gosta de dizer que é fértil e que tem filho e marido. Principalmente quando encontra outra mulher que ainda não tem filho que é pra matar a outra de inveja. Esse menino aqui já me deu muito trabalho. A mulher passou a contar vantagem das noites não dormidas, do leite no peito, dos remédios e a moça do caixa ouvia e dizia Jesus Cristo e Ave-Marias. E o menino continuava falando. Foi lento, mãe. Ouvi um outro homem dizer. De raspão e lento. A polícia chegou e pá. Que é pá, menino? É barulho de arma, mãe. E você ainda com essa conversa, menino? Me passa aí o coador de café. O menino se estica no carrinho de feira e ajuda a mãe com os produtos. A moça do caixa vai passando a compra, a mãe finge que ouve o menino e o menino quer contar o sem querer de raspão. E teve gente gritando, mãe. Me pediram pra sair de perto. Que aquilo não era coisa pra criança não. Menino, pare com essa história de polícia. Eu não quero mais ouvir. Mas a senhora precisa ouvir, mãe. E a moça do caixa pedia pra mãe deixar o menino contar a história. Tadinho. A mãe ameaça permitir que o menino fale. E ele fala. Aí o homem levantou as mãos e a polícia perguntou coisa. Um monte de coisa. E pá. Pá e o homem morreu? Foi assim? Diz a mãe já alterada de olho na tela que diz o preço da compra e checa na bolsa pra ver se tem o dinheiro e ainda bem que hoje eu trouxe suficiente. A moça do caixa fica impaciente porque o rapaz de patins não vem com o preço do doce de leite e a fila aumenta e um mundaréu de gente começa a reclamar da demora e a mãe do menino diz que sem doce não pode ficar porque o marido adora aquele doce. O menino ainda fala do sem querer da polícia e mãe, a senhora foi entrando no ônibus e me chamando. Devia ter me deixado lá pra ver. Por que não me deixou lá pra ver? Menino, cala tua boca. Não vê que estou ocupada com a feira? E teu pai deve estar achando que estou batendo perna e moça, cadê o rapaz com o doce de leite? A moça aperta o botão de novo, vem gerente de supermercado, vem outra moça de uniforme (checa o preço na lista, menina). Mas o produto não está listado, diz a moça do caixa. E a mãe se impacienta e a gente da fila começa a dispersar, outra gente fala alto, reclama da demora e é quase uma multidão quando o menino puxa de leve a saia da mãe e diz que hoje ela não precisa levar doce de leite que o pai não vai comer. Foi de raspão, mãe. Eu disse pra senhora que a polícia matou o pai sem querer. Ele quase fica vivo. E a senhora não parou para ver. E, no meio disso, chega tranquilo o rapaz de patins com preço de doce e se alegra porque hoje fica de folga e não vê a hora de deitar na cama e murchar de preguiça seu corpo de trabalhador.









Image by Sayada Ramdial

6 comentários:

Zélia disse...

Realmente, as orelhas são grandes. Assim como os olhos e os dentes... seprados. Mas, indubitavelmente, há poesia na foto. ;)

Quanto ao texto, eu ri - ele é cômico. Me aborreci - pensando naquele menino que não parava de falar. Pensei...

A vida é cheia de contradições porque nós as criamos. Chocolate não é comida mas doce de leite é. Quem disse?!

E eu achei o texto "muito ótimo"!!! :D

Letícia Palmeira disse...

Eu adorei a imagem.
Tão lúdica.

E adorei a questão que você levantou, Zeliawski. ¬¬

R.B.Côvo disse...

Cada vez melhor! Abraço.

NDORETTO disse...

É......protegendo o marido,meu bem, doce de leite pra ele!!

Muito legal o texto, gostoso, engraçado.
Coisas de gente,personagens de supermercado. Vc já pensou em escrever tudo que rola na cabeça da gente enquanto faz compra?!

Beijos,Neusa

Ana SS disse...

Puxa vida! (pra não dizer palavrão).
Como vc escreve bem!
Quando eu for menina grande, quero escrever assim como vc.
Que bom-humor pra falar da realidade do imaginário.

Camilla Tebet disse...

Letícia no seu melhor sobre dia a dia.