09 fevereiro 2011

poema enlatado









Poema enlatado de vasto vinhedo amotinado armazenado em barril de carvalho sempre perde o sabor. E envelhece o sentimento que ardia e não mais haveremos de ter. Diante dos olhos fere a bela estrada que teima em reconciliar os lábios que não mais se encontram, e, confusas, nossas mãos buscam o rosto em outro gosto que talvez seja similar. Amor não há de se igualar. Conto dias na ponta dos dedos. Fevereiros, páscoas, cortes de luz. E conto segredos. No entanto, calo a boca das imagens da TV e nem ao menos sei o que fazer quando visto pijamas e penso, sou louca varrida, mas não irei causar rebelião. O parapeito é estreito e faz tempo que não abuso de minha insanidade. De defeituosa alquimia nossos gênios crescem em quinas de outras moradas e nossas vozes engolem tímidas outras palavras. Eu falaria de amor. Imitaria a senhora cansativa que conta a mesma vida que somente ela viveu. Talvez eu devesse usar um período mais fúnebre e declarar ponto final. Mas sinto a necessidade de dizer que imbecil é a gente quando acredita que beijo e cama desarrumada enganam a fome de um século. Vênus Versus Nada. Dentro de nós, intacta em datas perdidas, esconde-se a esquizofrênica beleza hermafrodita do amor que timbre e sente pudor ao despir-se diante de outros tons. Tenho vergonha de ser vista. Outra noite, eu recebi convite e saí do purgatório. Sinto-me sufocada por viver entre tantas paredes e vejo vultos ocupando espaços. Era preciso sair. Organizada, tratei de deixar as coisas em ordem: Contas empilhadas de acordo com o valor, lençóis dobrados e tirei o pó da maldita estante de alvenaria. Tanto pó, tanta relíquia. Para quê, meu deus? Pois que nada silencia o quanto amo e, da mesma sorte, almejo a morte do objeto que abandono. Efêmero está em pólo negativo ao meu. A cidade é feia. As pessoas também. Nada faz graça. Nem compras. E não me basta preencher quadrado com formato de outro valor. Eu pensava em você todo o tempo enquanto alguém tocava meu corpo. Senti desprezo ao fingir sentir prazer. E, durante as horas que estive fora de casa, continuei contando o tempo de sua distância. E agora sou seletiva. Desde que conheci sua elegante estupidez de ser único, engano a todos dizendo que não estou. Pois meu sexo em chaga ofendida despreza agora minha fêmea carnívora, e por ti, solitária, silenciosa e devastada, torno-me herbívora. E deixo uma vingança antes de desligar o telefone: Você era mais forte quando estava comigo. Detesto admitir. Você me roubou de mim e eu o roubei de você. É a velha história repetida. Você agora não passa de um poema em rimas e eu, definitivamente, termino meus dias feito crônica vazia escrita para ilustrar revista de moda feminina.









Image by amirajuli

4 comentários:

Ana SS disse...

Todo amor é um pouco cleptomaníaco. E narcisista. E patológico.

R.B.Côvo disse...

Sim, todo o amor tem um não sei o que de patologia. Um abraço.

Renata Cunha disse...

Adoro essa complexidade caleidoscópica.

Zélia disse...

Pois é... Poema é bebida que não se guarda em barril. Foi feito para renovar o seu sabor a cada dia. A cada beijo, a cada afago, a cada toque de mão, a cada troca de semém, a cada vez que desejo você por perto e você a mim...