09 março 2011

alegórica






Perdoa se falo Drummond, mas o fato é que a vida estancou. Parou de funcionar. Arrebentou tudo quanto foi coisa e o saldo alegórico é crítico. Bateu vontade e liguei pro terapeuta. Alô daqui, alô de lá. Pedi algumas informações. Eu só precisava saber de algumas coisas que me travam a compreensão. Conversei por hora e meia com a doce voz do terapeuta que me ouvia e tentava respostas. E ele me disse pra ter calma, pra cuidar do andor, do santo de barro. E eu não havia dito nada. Eu estava bem. Parece que é preciso estar mal, doente, triste. Eu não estava triste. Eu só queria respostas. Por que calçar sapatos em quem já morreu? Resultado foi que a doce voz ao telefone deu sermão existencialista citando parábolas freudianas que não combinam com minha fantasia. Só pode ser um complô. E acho que esta palavra deriva do Francês. Mas achar não significa estar certo. Vide palavras cruzadas. Então peguei uma nesga de papel e escrevi um poema:

Amor é feito cartão de crédito
Tem limite, cobrança e data de vencimento.

Isto não é poema. São apenas dois períodos. E gostei muito da nesga de papel. Dá vida ao inanimado. Percebo agora que somos aquilo que parecemos. Bom slogan. Você é o que parece. Desliguei o telefone e decidi me enfrentar ao espelho. Mulher, seios, mãos e a coisa malcriada que não entra em extinção. Sou vulcão em erupção? E fazia tempo que não varria o oitão. Peguei vassoura, chuva caindo com força e eu lá, varrendo o oitão. O chão ficou limpinho. Molhado, mas limpo. E chegou a hora do café. Solidão não mata. Pode endoidar alguém. É uma verdade. Porém, doideira não mata. Há quem faça uso de sua loucura para coisas bem úteis. Vide enciclopédias. Eu, por exemplo, fico louquinha observando aviões. Quem poderia imaginar que um dia poderíamos voar em toneladas de alumínio? Risada frouxa de pés no chão e camisa quadriculada. Entra o homem. Como foi de carnaval? Não fui. O carnaval quem veio. E ainda carregou meio mundo com ele. Mais de duzentos. É muita gente, muita cama vazia e muita missa pra rezar. O homem sentou, perguntou coisas de mim, muita trivialidade, falou em trabalho e depois desatinou a falar que eu te amo e que sentiu saudade. Eu disse apenas que muita coisa perde efeito quando da soma se faz subtração. E, daí em diante, a conversa interrompeu-se abrupta e partimos pra luta. Porque a violência é grande da fome passada a pão e água e de abstinência não morro. Posso até desvairar lunática. Mas dessa coisa me farto, me infarto, me torturo, e, toda dúvida se dissipa quando o corpo exercita o que a mente maliciosa e indecente acumula.







Image by arttauta

9 comentários:

A Escafandrista disse...

Letícia, eu indiquei seu blog para receber um selo, dá uma olhada lá no escafandrista. Bjs

Fabro disse...

Muita coisa perde efeito quando da soma se faz subtração.
_____________________ BRAVO!

Eder Asa disse...

É redundante dizer a perfeição, mas que fique claro que é a terceira vez que volto aqui para ler este!
E esse seu dom raro de ornar o texto com a imagem mais completa que se podia ter?
É perfeito!

Formas do Dizer disse...

Linda e forte sua escrita!

Ribeiro Pedreira disse...

VIDE VERSO!

Tiago Hist disse...

Eu não me canso!
Nunca!

Não tem saída. Sempre me vejo aqui e ali. Hoje sou o cara que chega e fala asneiras. Leio sua prosa porque me faz pensar e ultrapassar a linha da lógica que delineia a minha vida.

O texto é bom. Sempre é. Um caleidoscópio de imagens bonitas e ternas. Placas tectônicas, terremotos, vassouras, espelhos e por baixo flui silencioso o magma, quente e denso.

Beijão pra ti.

Um Passarinho Azul disse...

Gosto dos textos que você escreve!

NDORETTO disse...

"___O carnaval que veio e e..ainda carregou meio mundo com ele!"....Menina, sabe que eu não tinha pensado nisso? No efeito-carnaval? Verdade,quando acaba o carnaval vem um sentimento de desfalque...que essa festa toda levou muita gente com ele...Que coisa forte o carnaval._Mas eu gosto dele,sempre gostei________________"

Beijo, escritora
Neusa

Zélia disse...

Quesito Alegoria: 10!

De cada texto, um ponto. Talvez, dois. Senão, meu comentário vira um tratado.

Lembrei de minha avó com seu "oitão". Palavra esquisita de origem latina (significando "parede alta" ou "muro lateral") que a gente acabou usando com outra conotação. Não se varre muros nem paredes. Mas, o oitão da casa da minha avó eu varria bem direitinho. Era assim que ela gostava.

E o poema, está em qualquer lugar e pode ser o que eu quiser...

;)