13 março 2011

hermália





Hermália, datilógrafa e balconista, sabia muito bem o que queria da vida: sossego. Não se importava com homem, com dinheiro, com nada. Hermália queria apenas trabalhar e ficar em casa deitada de banho tomado com os pés na frente do ventilador pra sentir o ar fresco tomando conta de seu corpo. Hermália era solitária desde cedo. Nasceu como nasce qualquer um. Saiu da mãe e herdou do pai os olhos, os cabelos e os ombros largos. Hermália sempre soube de si como mulher forte, batalhadora, órfã logo criança e comedora de fígado acebolado para não ficar anêmica. Ela vivia em paz. Mas acontece que a vida não dá descanso a ninguém, e Hermália viu-se, um dia, importunada por carta de gente distante. Alguém havia partido: uma tia, ou tio ou alguém que nunca havia conhecido. Logo, Hermália, datilógrafa e balconista, teve de fazer viagem por pedido em carta: Compareça à leitura do testamento. E ela foi. Seguiu longa viagem para Araçagi. Nem sabia que cidade era aquela. Mas foi. E lá dando as caras Hermália conheceu a desgraça. Ela tinha família. Uma ruma de gente que nunca tinha visto. Gente que sabia de sua mãe, de seu pai, de como Hermália vivia e de sua mania de viver sempre distante. A datilógrafa surpreendeu-se com tal fato, pois fazia o máximo do impossível para não ser encontrada. Chegando ao cartório, local onde seria dito da herança de seu falecido tio, Hermália sentou-se de vestido e unha feita e esperou impaciente porque só queria ir embora e descansar antes de enfrentar trabalho no dia seguinte. A parentada, toda unida pra saber quantos grãos cada um iria receber do falecido, falava cochichando que o tio era rico e isso e mais aquilo. Disseram até que o velho era sovina. Hermália só pensava que aquela gente era ruim, que nada tinha deles e que não queria contato com tanta gente feia que mal sabia respeitar o tempo de luto e já fazia partilha de bens. Chega então um advogado que passou a ler o que o velho tinha escrito. E era tanto ó e á que o povo dizia que Hermália não via a hora de sair daquele lugar infestado por sua recém-conhecida família. E houve surpresa grande. O velho havia deixado o bem mais valioso para Hermália ― o que é bastante óbvio em dada narrativa. Porém, entretanto, todavia, o óbvio nem sempre é fidedigno. Hermália herdou do velho tio um belo e acobreado trombone antigo.







Image by Nacho Tamez

6 comentários:

Eder Asa disse...

Há uma decepção tão necessária HAHA'
O blog deveria se chamar Orgasmos literários, porque é o que tenho, cada vez que venho aqui!
Beijo!

Tiago Hist disse...

Concordo com o Eder. Eu vibro demais com tuas histórias, Lê. Sem falar que a cada dia você se supera.

NDORETTO disse...

kkkk_____Muito bom!!!!!...pensei que la fosse ficar milionária!!...imagina o resto da família como era pobre...judiação......ô dó........
abraço,linda!
Neusa

Adriana disse...

Adorei seu texto. É impossível não torcer por Hermália.

Abraços,

A Escafandrista disse...

eu adorei a sugestão do nome, orgasmos literários. hehehe

Zélia disse...

kkkkkkkkkkkkk

Family! What to say?!

Nice text.


Still trying to get used to backing to work. ;)