18 março 2011

hormônio intacto





Pensar em excesso entorpece os sentidos. E, de instante, torno-me fria, calculista, radical em exagero ao deparar-me com amigos e já não faço parte das conversas de comum acordo. O poeta bem disse: "Pensar é estar doente dos olhos". Acredito não existir alma neste mundo que esteja pronta para enxergar o fato, o putrefato, o micróbio que se alimenta de nós. Eu estou doente há séculos de minutos. Nem à missa me permito porque sinto zombarem de mim o padre, os discípulos, a mãe, e a trindade com suas histórias de perdão e humildade. Eu tenho me preparado para o combate. Admito, em fina voz de hormônio intacto, eu tenho me preparado. Tento, sem muita energia, coagular o sangue que inferniza as veias para poder, com maestria, alegrar estranhos e estar sempre de acordo com as leis que aprisionam meu comportamento. Eu que sou mulher que posso fazer diante de um mundo-homem senão chacoalhar minha calda e exibir a vergonhosa vagina que serve de fonte? Devo freqüentar salões de beleza e conversar asneiras com as burras que amamentam suas futilidades? Devo inflar meus seios para provocar libido e atenção? Não há respostas. Uma vez tendo decidido servir de abrigo as palavras e enxergar de olhos bem abertos, tanto o céu quanto o inferno, que não me venha a cegueira hibernar meu juízo. Não me basta o leviano embalsamar de meu corpo em alfazema para diluir-me fêmea. Pois há um embrião de mágoa e sede incorporado ao útero que toma de mim a suavidade herdada por minha sorte. Sou mulher. Não sou uma fenda que serve apenas de depósito à oferenda seminal que rege meu gênero sem talento, sem tato, sem biológica característica para o disfarce. Leio poesia em tom abrasivo de constante rebeldia. Há quem leia um poema e queira recitá-lo. Há quem leia um poema e queira lamentar-se. Há quem leia um poema e queira incendiar-se. Esta é minha opção. Não tenciono agradar, pois minha pele sofre de repulsa alérgica a qualquer ato de resignação. Compactuo com a vida da mesma forma que registro palavras em letra cursiva. Não rastejo. Não vibro. Não celebro. Apenas observo o sapo engolir formiga que engole açúcar que devora a vida que poliniza o feto.









Image by Snyder

12 comentários:

Zélia disse...

Bem disse o poeta, filha minha. Quanto mais se pensa mais doente dos olhos se está. Já não é de hoje, estou preferindo ver apenas. Se para agradar tenho que me juntar aos mesmos, ficarei só. Só com meu rebanho...

E estamos todos doentes!

A Escafandrista disse...

como diriam os espanhois: precioso! forte, crítico, reflexivo, bem pontuado, desciritvo. poderia passar o resto da noite aqui falando sobre os teus textos. adoro-os. abraços.

NDORETTO disse...

Fortíssimo:

" Há quem leia um poema e queira incendiar-se. Esta é minha opção. Não tenciono agradar, pois minha pele sofre de repulsa alérgica a qualquer ato de resignação."

E pensar que diariamente nascem bobas da corte !!!

Por aqui tem porrada e boa leitura ...rsrsr!!

Abraço
Neusa

Eder Asa disse...

"há séculos de minutos"
é sublime, é belo, é genial...
Concordo com a Neusa, aqui há porrada!

CARLA STOPA disse...

Em constante rebeldia leio poesia, leio a vida, leio...E releio...Lindo estar aqui...Vc é fantástica amiga...Parabéns mais uma vez.

Emoções disse...

No fundo de cada alma há tesouros escondidos que somente o amor permite descobrir.

evandro mezadri disse...

Belíssimo texto, Letícia!
Forte, crítico, social, político, reflexivo, inteligente.
Virei fã e seguidor.
Grande abraço e sucesso!

Letícia Losekann Coelho disse...

Chará, falando sério... Tu escreve tão bem que fico totalmente sem palavras!
Meus aplausos para ti!
Beijos

C. disse...

Linda semana e belo Outono ;)
Beijos, Flores e Luz

que lindo seu blog :)

Pê Sousa disse...

Hormônios instigantes, eu diria.
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Continuemos...

Pê.

C. disse...

seus textos me deixa sem ar :S
lindos

ieda mendonça disse...

me identifiquei!
ganhou uma leitora fã.