11 março 2011

mal de andrade






Andrade é um sacana. Tinha nada que morrer, Andrade? Logo agora? Veja bem meu caso. Após 45 anos de vigília, morre o Andrade. E como eu fico senão assombrado por este desgraçado? Vai morrer pra outro, Andrade. Eu já tinha avisado que aquele hábito não ia dar em boa coisa. Eu tinha dito. Não dizem que quem avisa amigo é? Fui seu amigo, Andrade. A vida inteira. Sei lá quanto. Aguentei de tudo. Até sua mulher que me enchia os ouvidos com as lamúrias de ser deixada em casa. E, como bom amigo, tratei dela. Fiz bom trabalho, eu acho. Ela se acalmava quando eu passava pra conversar com ela. A mulher passou a entender. E nunca mais lhe deu canseira. Não foi assim, Andrade? Fale, Andrade. A morte engoliu sua língua ou o quê? Este meu amigo, que agora descansa deitado dentro deste caixão, nunca foi boa coisa. Mas sei lá o que dá no povo que idolatra gente que não presta. Ele era ruim. Lembro agora de uma história que ouvi. Tempos atrás. Li e lembrei-me do Andrade. "mijo gelado ― mijo de gente ruim". Seu mijo era gelado, Andrade. Quando você se esgueirava pra urinar, eu sentia o gelado consumindo tudo. Subia pelo teto aquele gelo e eu sabia o tempo todo que você era capaz de tudo pra arruinar a vida de qualquer um. Ruim que só o diabo. Andrade foi criado por Dona Maria que ralava coco pra fazer cuscuz. Ele aperreava muito a velha que, gorda que só ela, passava o dia a ralar coco e fazer cuscuz. Era uma vida desenganada de triste e ainda tinha o Andrade pra criar. Dona Maria morreu faz tempo. Sei lá quanto. Mas deixou Andrade pra acabar com o mundo. Ele costumava matar gato. E eu dizia: Isso dá azar, Andrade. Ele ria de mim. Dizia que o medo acabava comigo. Mas era medo não. Era outra coisa. Um dia você vai saber o que era, Andrade? Nunca tive medo de você. Nem de você nem de suas coisas. Eu acompanhava Andrade pra cima e pra baixo. Era feito um homem e a capanga embaixo do braço. Nunca largava o Andrade. Meu costume era ficar perto dele. Acho que era pra tomar cuidado de quem se aproximasse dele. Eu sentia que era minha obrigação proteger o mundo contra o mal de Andrade. Mas, por mais que me esforçasse, Andrade acabava com tudo. Fazia mulher chorar, batia em criança, roubava gente idosa, comprava fiado e nunca pagava e sempre fugia das dívidas. Andrade se esgueirava por cima do copo e se acabava de beber em boteco e ainda era de brigar. Houve tempo de Andrade andar armado. Era um 38. Mirava muro e atirava. Bêbado e caindo, mas nem isso abalava a maldade de Andrade. Era de berço ou quê? Dizem que ele foi se tornando assim. Dizem que era criança boa. Não lembro. Quando me dei conta Andrade já era maior que eu e só me lembro da crueldade dele. Era ruim até com ele mesmo. Soube que atropelou gente de propósito, catava mulher de amigo e comigo foi assim. Houve um tempo em que Andrade ficou bom, sei lá o que lhe deu, e passou a fazer bondade. Todo diabo tem direito de errar. E eu levei Andrade pra dentro de casa. Dei cama, dei televisão e comida. E Andrade passou tempos sem roubar, sem beber, sem arruinar vida alguma. Mas era engano. Ele ficou quieto porque ambicionava o que eu possuía. Quando dei por mim, Andrade já tinha carregado minha mulher. Era mesmo o cão dos infernos. Foi aí que me tornei ainda mais preso à Andrade. Ele levou minha mulher e isso eu não suportava. Então fiquei por perto. Minha mulher entrou na fila de querências de Andrade e eu não pude fazer nada. Admito que tinha por ele algo de grande valor. E minha mulher era boa. Disso não posso reclamar. Mas Andrade falou grosseiro com ela e mulher gosta desse tipo de tratamento. E não tive segunda chance. Chego em casa um dia e só encontro o vazio e o bilhete. Andrade levou a mulher com ele. E, como nunca fui de vingança, fiquei por perto. Mesmo sendo tratado mal por amigos e familiares, mesmo que todo mundo me chamasse de frouxo, eu não poderia deixar que Andrade ficasse longe e acabasse amando de verdade minha mulher. Andrade era ruim que só merda. Foi assim desde o começo, no beco, na casa de meus pais. Andrade me quis, eu quis Andrade e era preciso forjar a vida pra ficar com ele. Casei e me vesti de homem íntegro. Mas o fato é que eu morria de amor por Andrade a vida inteira. E hoje ele morre de ir embora e deixa clara minha viuvez de homem sério. Você não valia nada, Andrade. Mas eu sempre amei você. Não era medo nem nada. Era necessidade que não se acaba mesmo quando a gente ama um traste que morre e deixa fila de mulher tudo dependente de um homem que só conhece quem sente. Por Andrade eu engolia vergonha, vontade e toda a maldade dele. Sempre.







Image by MiquelAngel

5 comentários:

Eder Asa disse...

Poxa, é surpreendente, é integrante... e é bonito! Como pode?
E vai ver deus permitiu Andrade morrer sem ver o progresso de São Paulo, hein?

Abraço!

Zélia disse...

Mui buena obra!

Mas devo dizer que Andrade "já foi tarde".

Congrats! ;)

A Escafandrista disse...

Oi, Leticia. Não há de que, acho seu blog excelente e sempre indico aos amigos. abraços.

Felipe disse...

Grandioso!

Beijo...Fê

NDORETTO disse...

Eita,mundo véio sem porteira,hein....e pensar que existe amor pra tudo nesse mundo....até pro lazarento do Andrade que matava gato e roubava mulher dos outros...ô,eu mato um bicho desse !!!


Muito bom, como sempre!!!
Beijos,escritora