17 março 2011

mudez atônita da verve






E nada mudou. Sempre espero, de ingenuidade que sofro, que algo de novo aconteça. Que portas se abram de forma mais obesa — exageradamente escancaradas. Porque, de frestas, já basta a vida que espanca a rotina que dela nasce criança e cresce adulta a caducar. Ainda vejo praças e o caminhar da gente. Chafariz ateando água em meu fogo e que sufoco viver do lado oposto onde nada acontece e tudo que fora vivo fenece de poeira e esquecimento. Quisera eu viver ao vento. Ser poeta ou enamorado das coisas de simples aspecto. Mas adoeço todo dia desta agonia de ser complexo. E novamente à espreita. A vida não nos respeita e canso de falar. Amarguras tantas sofro e calcifico minhas devotas multidões de mim. Caço à margem dos simbolismos minha identidade que fora tão minha e nunca furtada e é verdadeiro o medo de cada um. E alcançou-me a mudez atônita da verve. Enclausurado não é somente aquele que adormece entre quatro paredes e grades em pequena janela de onde o sol ensaia humilhar. Sou também prisão de órbitas e minhas poucas e parcas alucinações não me fazem mundo. Apenas solidão. Se me demora a alegria que é dita pela vida, a tristeza vem a mim forte tenaz feito pássaro de voo raso que me faz mergulhar fundo ainda mais em meu deserto. De olhos maciços o exército vem ao meu encontro. O confronto não é brutal, embora ecoe em mim aversão que se nutre de minha vertical masculina fonte. Debruçadas nos degraus de minha casa elas se armam. Sorridentes entre meus pertences elas me ameaçam ofuscar. Penitentes de tantos santos oram minhas vidas antigas que me fazem vivo enquanto existo. E se aproximam a me esnobar. Acordo em grito de flagelo, abraço a mulher que tenho e meus filhos dormem no segundo andar. Essas memórias de ontem me inquietam e não vivo do presente porque glória não há neste tempo de agora. Minha mulher não entende a vida que um dia deixei passar. A vida que tentei sufocar de tanto tentar esquecer. E me julga louco? Portanto, declaro óbito de minha lucidez e ainda à espreita a vida a me desgovernar.







Image by pesare

4 comentários:

Casa de Mariah disse...

realmente...não há glórias nesse tempo de agora.
mas esse tempo é o agora, e é o único tempo que me resta.
o passado é foto amarelada e o futuro pode não passar de uma promessa não cumprida.
sempre adoro te ler.

NDORETTO disse...

_______Mas também não exageremos porque sem esperança ninguém vive. A vida é agora, daqui a pouco e amanhã cedo também! Futuro e literatura se dão bem. A Ficção é prima deles.

Amei,escritora( quero mais estórias da "vendedora então" e do fim do "trombone"...eheheh....pode pedir bis,né?

A Escafandrista disse...

ai que lindo, letícia!!! "Ser poeta ou enamorado das coisas de simples aspecto. Mas adoeço todo dia desta agonia de ser complexo. " uma das melhores partes. adorei.

Zélia disse...

É vero! Não há prisão maior que aquela que criamos para nós. Daí vem a idéia de atribuir a vida, ao mundo o infortúnio que nos acomete. A vida, o mundo não têm nada com o que nos acontece. É tudo fruto da semente que, um dia, alguém plantou.

Working too much? :))