01 março 2011

pavio curto





A gente é cativo de si mesmo.
E o mundo é um só.



Manoel de Barros, amarra com força os cadarços, lápis e península, mão no bolso e nada de cigarro entre os lábios. Trafega entre uma linha e outra e, descafeinado, o tempo me olha. Se eu fosse criança um dia bem que poderia entender todas as coisas que não existem. O belo de tudo que não existe. Mas nada. Adulteraram todos os planos de ser para sempre infantil e ainda espero a velha reunião de família. Sorriso de avó e manda lembranças ao resto do povo todo. Hoje estou solidária e desejando sorte. Ligaram do trabalho. Ando faltando demais. É gripe, sinusite, ovo mal passado e sempre me esqueço de pegar atestado médico e já cortaram meu ponto dezenas de vezes. E cortam meu dinheiro também. Aos solavancos. Vida desprotegida que não aceita renúncias. E chove mais e eu me encolho no tempo que não está frio. Lembro de minha última viagem ao Rio. Quase morri de calor. Ipanema é um bairro caro, bonito, cheio de gente pelas calçadas e adorei as lojas. Só de estacionamento paguei preço de pecado e ainda fiquei arrependida porque estava em péssima companhia. Mas é preciso dar a cara pra ver. Não se vive a vida sem passar por certos atos trágicos e aguentar gente que só olha o caminho da frente é parte da romaria. E já chega de ser propícia. Não sei se estrada de ferro ou avenida. E ando a fazer terapia. Tanta conversa e o fio da meada é mais longo que a Avenida Paulista. Cruzes, Ave Maria e me vejo no espelho porque preciso analisar minhas atitudes. Fiz um esboço de minha vida e me diagnostiquei. Meu calibre não tem limite, minto tanto quanto exibo meu riso e acordo e durmo de pavio curto. Minha língua ardida passeia em minha boca feito vingança na mente de um bandido e quero mais é andar na contramão do que exibir vitalidade e não esqueço meus ares de bestialidade. Já chega de ser só minha. Horas são, amar em vão e eu entro em desacordo com a tal calmaria que não me acaricia. Vou de encontro ao estrondo porque quero o absurdo de tudo e, sob o excesso que o tempo esconde no pó de café de ontem, caduca minha pseudo-tentativa de evolução.









Image by Rome

7 comentários:

Beto Canales disse...

Estranho...

R.B.Côvo disse...

Gostei especialmente de algumas frases. Abraço.

CARLA STOPA disse...

O caminho da frente, o caminho de trás...Romaria que nos constrói, faz...

Letícia Palmeira disse...

Faltou você dizer "esquisito e bizarro", Beto. =)

Bom te ver de vez em quando.

Bjo, Escritor.

Beto Canales disse...

Achei mesmo é estranho... Bom, mas estranho...

Eder Asa disse...

Manoel de Barros ficaria orgulhoso... Aliás, acho que quem canta nessa Palmeira nao é um sabiá, é um joão, que primo do manoel, é de barro!

Zélia disse...

O mundo é um só e nós somos todos iguais. Pior que é assim mesmo. Melhor se fosse diferente. Eu não entendo como uma procisão inteira não consegue olhar para os cantos. Olhar cego e hipnotizante faz a gente caducar.

Ando na contramão. E, embora, me reconheça só, às vezes, sigo adiante!