05 março 2011

um weekend com você





Final de semana entre amigos e um namorado no fio da meada. Arrumamos mochilas, levamos comida (Algo que fosse de fácil preparo ― sanduíche com patê de atum, pipoca, salgadinhos, e, para beber, refrigerante e a maldita garrafa de Martini). Pior bebida não há. Mas fomos. Ficaríamos em uma casa na Praia tal, esquina com o mar e assim por diante que o ônibus anda. Marcamos de nos encontrar na lagoa. Todo mundo com cara de vamos fazer e acontecer. Meu namorado já estaria lá, na casa, a espera, a espreita, com cara de desespero. Um amor. Lindo mesmo. Menino, 17 anos, carinha de propaganda de iogurte. Minha amiga reparou: Você fez depilação? Corei. Fiz. Um mundaréu de risada porque depilação e final de semana com namorado só dá naquilo: Jogo de xadrez, diálogos inteligentes e muita citação boboca que não chove nem molha. E lá fomos nós, ruas adentro, à casa da praia. Final de semana inteiro de muita música e bebida. Chegamos, disse um amigo que estava conosco. Percebi que ele estava com medo que algo acontecesse. Algo estranho pode acontecer entre quatro pessoas bêbadas trancadas o final de semana inteiro em uma casa de praia: Jogo de baralho, responder questionário e tomar leite condensado no furinho da lata. Bobagem ter medo disso, pensei. Estamos todos seguros. A casa era grande e quase pequena. Sofá, janela, quadro mofado, mesa faltando cadeira. Ou seja, típica casa de veraneio: quase abandonada, empoeirada e a geladeira vazia. Mas tinha gás. Podemos cozinhar, alguém disse. Eu não cozinho nem juízo e estava muito apaixonada para pensar em comida. Chegou então a hora de começar a curtir. Música, Martini e salgadinho Elma Chips de consolo aos solitários amigos que estavam na sala, enquanto, sorrateiramente, meu namorado e eu fomos ao quarto. O que faz um casal de namorados adolescentes, febris e cheios de ideias, sozinhos dentro de um quarto com cama de casal e tudo? Resposta: cooper. Deitamos e a vergonha tomou conta de nossas caras. Eu nunca tinha visto você assim. Eu nunca tinha visto você assado. E, no meio da conversa cheia de nada, um beijo de romance e bactéria, nos fez tirar tudo que nos aprisionava: Tênis Nike, samba canção e o escapulário do pescoço porque Deus não permite pecado. E a música atolava meus amigos que estavam na sala. Soube, tempos depois, que eles muito discutiram a respeito do preço de certos produtos, contaram algumas desventuras sofridas em dias de aula e falaram a respeito de carteira de estudante e cobradores de ônibus. Eles estavam se armando de cultura e eu e meu namorado estávamos verificando se a cama era realmente resistente. O colchão era bom. Ao menos isso. Aí começa o idílio. O namorado, lindo que só deus, beijava, sorria, contava até três, inspirava, prendia o ar no diafragma, expirava e começa de novo todo o processo. Beija, faz aquilo, conta até três, inspira, diafragma, expira e conta até três, beija, coisa a coisa, inspira, diafragma, expira e conta até três e coisa mais a coisa e diafragma expirado e beija mais a coisa e, neurótica com tanta conta, decidi perguntar o que era aquilo. O namorado explicou que era comum porque, do contrário, ele poderia ficar com dor desviada. Sou atleta e sei me exercitar. É bem melhor assim. De apaixonada, tornei-me, em um minúsculo segundo, uma pista de corrida ou ginásio de esporte ou esteira de academia de ginástica. O cara estava se exercitando em cima de mim. Depois de encerrada a longa série de exercícios e respiração boca-a-boca, eu queria tudo, exceto o belo namorado perto de mim. A vida não deveria começar assim. Eu não deveria estar aqui. E, enquanto meus amigos entediados sorriam na sala, o rádio dizia as horas, meu namorado tomava uma chuveirada, eu, de bruços e calada, olhava a lua da janela e pensava: Não era bem assim que o filme se passou enquanto eu sonhava. Voltamos daquele final de semana com a barriga cheia de fome, a cara cheia de nada e nunca mais falei sobre isso. Sorri ao reencontrá-lo anos depois. O belo ex-namorado agora vende carros, exibe ainda o mesmo sorriso de encrenca, mas não pude deixar de notar que sua barriga tornou-se imensa e mal cabe no aperto da camisa de botão. Acredito que ele deixou o cooper de lado e esqueceu-se de beijar e inspirar diafragmático como fez um dia em uma casa em certa praia ao céu azul de mais um dia de verão.








Image by Aaron Jasinski

3 comentários:

Zélia disse...

Blitz? kkkkkkkkkkkkkk

Eu já disse que eu gosto de textos quando eles parecem comigo.

Tive meu fim de semana na praia.

Adorava tomar leite condensado no furinho da lata até que, um dia, meus lábios ficaram presos e eu achei que ia ficar sem eles. Um dos piores momentos da minha life!

Uma época eu tomava Martine. How could I?!

E "eu não deveria estar aqui", vez por outra, é meu lema!

:D

VELOSO disse...

Um texto para ler sem inspirar gosto do seu estilo vamos que vamos muito solto bem voo livre! Parabens um ótimo Carnaval e um antecipado Feliz Dia internacional das Mulheres.

CARLA STOPA disse...

Impulsos e suas marcas...Implícitas ou explícitas...