04 março 2011

violeta putrefática





Violeta, exausta e derrotada por sua necessidade de limpar a casa, percebeu-se louca. Era dia e muito cedo quando Violeta sentiu, através de suas dilatadas narinas de bicho farejador, um cheiro que, além de perturbador, era insuportável aos ares de Violeta. A mulher tomou posse de si, sacudiu-se da cama, vestiu um roupão por cima de seu corpo alvo e besuntado de hidratante, e saiu Violeta a caçar o terrível odor que ousava ameaçar sua existência aromática floral. Piso brilhante em cada cômodo. Uma maravilha. E vai a louca neurastênica checar de onde poderia estar vindo tamanho mau cheiro. Cheira daqui, cheira acolá, abre a geladeira e verifica se todos os potinhos estão devidamente lacrados para que a comida não se torne a imundície azeda que despudoriza a vida de qualquer um. E debanda Violeta pela casa, pelos quartos, cheira as toalhas, respira o ar da rua, inspeciona ralos, sanitários, vasos, flores, gavetas, sapatos e Violeta sente desgosto por ter em sua casa medonho odor espalhado na atmosfera que sempre fora cuidadosamente neutralizada contra qualquer espécie maléfica de sujeira. Violeta sente-se tonta, furiosa, e, chocada, culpa o marido, seus filhos, os vizinhos. Violeta culpa deus por ter criado o fungo, o musgo, o putrefato, o fel que dilacera todas as belíssimas coisas. A mulher sente o mal irrigar suas veias, invadir sua clara essência de limpeza, e, no ápice do esguicho de sua fúria, Violeta encontra a fonte de seu pavor. A podridão. A lascívia que entorta as vigas de seu santuário. Violeta surpreende-se ao ver o reflexo no espelho. A fenda cospe o pútrido amarelado do plasma da bactéria. Lá estava a raiz de toda sua dor. Um enorme furúnculo explode sob o nariz de Violeta que, exausta e derrotada por sua necessidade de limpar a casa, percebe-se imunda feito um rato morto e entregue ao chão.









Image by wholba

6 comentários:

Zélia disse...

Alguém esqueceu de mim. Mas, aqui estou. Não guardo mágoas. 8)

Precisa dizer que está perfeito? Enquanto eu lia, pensava se haveria necessidade de dizer o óbvio. A novidade, o que eu teria a dizer do texto, veio a minha cabeça logo que iniciei minha leitura. Pensava não ser necesário dizer o óbvio. Mas, ao chegar ao final do texto, senti vontade de dizê-lo. Talvez, eu esteja um tanto redundante hoje...

Perfeito!

Tenho meus dias de Violeta.

Letícia Palmeira disse...

Alguém não esquece ninguém. É só a rotina que desvia a gente.

...

Lots of love.

R.B.Côvo disse...

Raio de odor nauseabundo. Coitada de Violeta! Um bom texto mais uma vez. Abraço e bom carnaval.

Ribeiro Pedreira disse...

violeta violada. o cheiro do ralo que vinha de dentro do próprio olfato.

Eder Asa disse...

Sua criativadade está descontrolada! E eu adorando essa nova onda de postagens...

Um Passarinho Azul disse...

rsrsrsrsr adorei o texto! Muito bom!