08 março 2011

voz de retórica






Quero poesia com salada e me traga o melhor vinho para que o destino faça cumprir o tardar das palavras. Castas vastidões de minha transgressão adversa. Muda minha linha de questionadora inocência. Quero poesia e um cigarro e também o brilho frio dos metais que habitam a estante da sala. Quero poesia de bons tempos. Remotos ou não. Controlados tempos por súbitas ondas de nossa auto-afirmação. Quero poesia ao som dos ventos, tardios em colóquios de cotidiano, fazendo de tarde o que se faz à noite e beijar escandalizando as capas de vinil. Quero poesia com a vontade etílica do homem e seu copo e sentir a difusa coragem entre o salto e a textura que toca a face do alto abismo e o leão devorador. Quero poesia boca-a-boca, trovadores emancipados caindo dos céus em milagres. Quero poesia em qualquer língua, já que a arte não repele com barreiras o sentir dos palavrões. Quero poesia com café, clichê e margarina. Poesia cretina, despida, aterrorizada de vontade e uma tensão de pele e flor rasgando e calando o meu senso disperso de vulvas e formas de fêmea pecando ao ler em tom de inocência o que de mim já é adulto e sedento indolor. Quero poesia intercalada e ruborizada de tanto que fere a doçura discreta da meretriz de meigos olhos amando intenso o falso que renuncia amor de corpo e vela. Quero poesia à moda escrava, fazendo sexteto e calando segredos que tempo é tudo e amor é pouco. Quero poesia de toda cor. Quero poesia em grandes goles e sentir o êxtase de cada escritor. A plosiva poesia da rua escorrendo da língua minha e sua e de toda a rima duvidosa que dispara e recomeça as vias de correr livre em nós. Angélica poesia transversal. A voz que une as mãos em castidade e a devota linguagem dos animais.








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5 comentários:

Leonardo B. disse...

[assim querer, é licito; é querer um mundo inteiro... e o merece]

um imenso abraço, Letícia

Leonardo B.

Vanessa disse...

Letícia, faz tempo que não comento por aqui, esse texto tá show de bola. Eu tb quero poesia!

bjs

CARLA STOPA disse...

A poesia que nos dá ganas de embichecer...

Renata Cunha disse...

Assim também quero poesia...

Zélia disse...

Idem. E que seja feita a sua vontade.

;)