17 abril 2011

ato primário






O corpo dele murcha após o ato. Velho teatro nosso. Eu aprendi a converter mentiras. Acredito que você me ame tanto quanto ama seus carros em miniatura. Vou à cozinha e estanco na frente da TV. Chico César diz que a indústria cobra do artista mais produção e menos qualidade. Lembro de seu corpo ainda impávido colosso sobre a cama. Será que ando cobrando demais? Cansada, ultrajada, apenas uma mulher beirando o limite da paciência. Farta. Estou farta e não me diga que sorri tranquilo seus dias comuns. Eu não acredito naquele que se diz feliz e relaxado, nunca estressado e também não acredito nos demais que defendem suas opiniões em tom de ironia. Não acredito na mulher que não trai. Mentirosas, em seus amores acuadas, são tão fulanas que me cansam. O retrato no criado mudo é gente de minha família. Você, murcho e ainda me querendo, fala de sua família também. Casei, descasei e não surto porque o tarja preta é tão forte que me fracassa. Você entende coisas pela metade porque vive tudo pela metade. Estou tentando viver a vida de outras pessoas há dias. Sou o vizinho, sou meu irmão, sou a cunhada e sou a simplista que ganha flores e acredita que o dia termine fechado em pacto de satisfação. Não há quem seja feliz sob efeito de rejeição. E o que rejeita? Meus medos, ansiedades e assisto Woody Allen para rir de minha própria cara. Sou vazia que nem me vejo no espelho. Trabalho em pleno sábado e chego em casa torta de tanto fingir alegria. Grande parte da população sofre sem motivo. Mulheres competem por homens em imensas filas de mão única. Eu não sou grande parte da população. Sou pequena. Nunca serei única. E dor maior é saber que igual a você há mais de milhares. Suas ideias geniais são as mesmas ideias geniais que passam pelas cabeças de todos os outros. Não ser novidade é ruim. Leio filosofia, leio jornal, sinto arrepios quando penso em sexo, mas calo. Ninguém gosta de compartilhar verdade. O bom é ter rede social e espalhar vitalidade, exibir fotos de passeios, sorrisos e ficar de lá pra cá vendo quem engordou, enfartou ou teve seu comentário difundido. Deito ao seu lado e assumo minha postura bestial. De boca calada, escancarada em pura vontade, aconteço ao ato primário. Eu acasalo enquanto pessoas gozam ao vazio manifesto de suas verdades cheias de defeitos de fabricação.






Image by Juan

14 comentários:

Eder Asa disse...

Eu concordo, você É farta!
Sempre tocante.

Tiago Hist disse...

Farta e forte, Lê.

A Escafandrista disse...

adorei principalmente as ultimas palavras, a ultima frase do texto. bjs e boa semana.

Du disse...

Quase um manifesto, um protesto... e nunca canso de repetir que tu tens um jeito único de escrever. Raro.

Beijos n'alma!

Letícia Palmeira disse...

Du,

Bom te ver por aqui. Ando ausente de você. =)

Flor com Espinhos disse...

sabe, sempre ti leio, mas nunca sei o que comentar...só sei sentir teus escritos...e eles me afetam.

MOISÉS POETA disse...

Poético e contundente , esse eximio manuseio das palavras... !

um beijo !

Ale Crol disse...

Olá, Boa Noite, Paty....
Tudo bom, tenho adoradado as verdades que escreve, as tuas, as nossas verdades...
E hj, triste como estou... Me ví aqui neste seu Insight... Tão eu! E poe incrível que pareça hj escrevi sobre traição, a minha, a nossa ou sei lá de quem....
Gostei tanto dessas letra, que gostaria de pedir permissão para você de copiar esse post e colocar os devidos créditos, e claro, se me permitir... senão tudo bem.
Meu e-mail alecrol@gmail.com
BLOGs:

Quotidiano e quimeras
E
Ácida

Ps: Ainda estou no começo, ensaio, não escrevo também quanto você, mas estou teinando....
De qualquer maneira, lhe parabenizo, agradeço e sigo!
Beijão

Alê Crol disse...

Olá, que falta grave a minha... Sorry Letícia, é que a descoberta da traição me deixou em sincope.
Bjssssss

Vera Lúcia disse...

Eu entro no teu blog e fico sem ter o que dizer porque há tanta verossimilhança que chega a ser desconcertante. Também te parabenizo por conseguir dizer o que é necessário.

Andressa disse...

Também assisto Woody Allen para rir de minha própria cara.

Cristiane Moreira disse...

Oi Letícia, eu te mandei um email a respeito do teu livro, quando tiver um tempinho me responde.

Parace que hoje eu não sou a única pessoa que vai comentar no teu blog pela primeira vez mesmo ele já sendo leitura diária e "obrigatória".

Na maioria das vezes que leio os teus textos eles falam comigo de uma forma tão intensa que minha única reação é ficar de boca aberta e te agradecendo de coração por escrever aquilo que está na minha alma e que eu não encontrei palavras pra expressar.

Muito obrigada.
Beijos e até mais.

Zélia disse...

Pois é. O problema pode estar nessa "verdade com defeito de fabricação". Mas isso acontece porque cada um quer a sua verdade e não a verdade do que é. A verdade dos fatos. A verdade é uma questão que dá muito pano pra manga, sim. No entanto, há uma verdade que diz que ela é mais simples que o que vêmos como verdade. Toda a complicação está em nós.

Nos dias de hoje "ser feliz e relaxado, nunca estressado" é impossível. Ser feliz, sentir felicidade não. Não se pode acreditar, também, em quem se diz infeliz e triste o tempo todo. Que disperdício é esse? Que vida é essa? Sai pra lá! Ninguém merece! Gosto de de rir, de ser e estar feliz mesmo com todos os "baixos" da minha vida. Não é loucura. Pensando bem, que seria do mundo sem a loucura?!

Quanto à mulher e traição, mais pano pra manga...

Um brasileiro disse...

oi. estive por aqui a dar uma olhada. muito interessante. gostei. apareça por la. abraços.