12 abril 2011

desatinada





O papagaio de minha vizinha ainda não morreu. Ele acorda cedo e me assombra com seu modo de falar. Na verdade, acredito que ele esteja treinando para se tornar um pato. Ele, sem dúvida, não é um papagaio comum. Dia desses pensei em olhar por cima do muro e encarar o papagaio. Tentar deixá-lo envergonhado ou mudo de vez. Mas desisti. Por que aperrear a pobre ave? Deixo que ele resmungue. E chove como nunca. O terraço está todo molhado e as plantas nunca estiveram tão aliviadas quanto agora. Passa um homem vendendo cuscuz. Ele tem um apito. Deve ser bom cuscuz no café da manhã. Mas eu não como pela manhã. Encho minha cara de café e planos. Não chego a resolver nada, mas, pelo menos, faço planos. Já é metade da caminhada. Dia desses, enfezada que estava, decidi ir à igreja. Nossa Senhora do Rosário fica a dois quarteirões de casa. Fui caminhando para respirar melhor com meus pensamentos. Eu estava decidida a fazer confissão do tipo que se fazia antigamente. Eu preciso me confessar. Estou abarrotada de coisas para dizer. Eu preciso falar. Chegando ao templo, uma igreja enorme repleta de belas pinturas barrocas no teto e diversas imagens douradas e coloridas em altares, percebi que ainda havia a antiga cabine para se confessar. Será que ainda se usa isso? Minha avó é católica, minha mãe também e eu não sei fazer o ato de genuflexão. Entrei na igreja e fiz o sinal da cruz mais vagabundo que já se viu. Olhei ao redor para ver se alguém tinha visto meu desacato religioso. Mas ninguém me notou. Percebi que algumas pessoas conversavam perto do altar e pedi informação. O padre está? Uma senhora com cara de ranzinza foi logo dizendo que sim, que o padre estava, mas era hora do café da manhã e o padre estava comendo. Tudo bem. Eu espero. Sentei em um grande banco de madeira e esperei. Enquanto esperava fiquei observando as imagens e são todas muito tristes. Por que as imagens não podem sorrir? É isso que afasta os seguidores, entende? É preciso ter mais graça, mais sorriso, mais comédia. Porque a vida anda pesada em excesso. Suspirei sabendo que as imagens sempre serão tristes. E entra o padre. Olá seu padre. O homem, mais ou menos 60 anos, cabelo branco, calça marrom e um par de franciscanas nos pés, toma um susto ao me ver. Cabelo preso no topo da cabeça, calça jeans e uma camisa com os dizeres "Woodstock 4 ever". Me senti patética com aquela camisa. O padre me olhou de cima a baixo, fez um gesto para que eu o esperasse, falou uma ou duas coisas com a senhora que ornamentava o altar e, só então, veio ao meu encontro. Pois não? Bom dia, seu padre. Bom dia. Entrei de sola no assunto. Preciso me confessar. O padre aparentou surpresa. Ninguém mais se confessa, minha filha. A confissão é feita só em datas especiais. Mas venha à missa do domingo. Nós sempre fazemos a confissão comunitária. Mas eu estou cansada de comunhão, seu padre. Eu quero me confessar só para mim mesma, entende? Eu sei que não é hora de confissão. São apenas 8 da manhã, mas sou filha de Deus e preciso de ajuda. O padre, sentindo-se culpado (acredito eu), mandou que eu o esperasse, entrou por uma porta gigante, saiu vestindo sua batina e apontou para o confessionário e me mandou segui-lo. Fiquei feliz por ter um padre só para mim. Ele entrou, fechou a cortina e eu também. Estar, lado a lado com Deus é uma dádiva, pensei. O homem disse algumas falas protocolares e eu não sabia o que dizer. O padre ficou esperando e, finalmente, disse: em que posso lhe ajudar, minha filha? Era cena de filme. Finalmente eu poderia tirar o peso que carrego nas costas. Seu padre, eu não sei se é pecado, mas sinto vontade de mandar todo mundo às favas. Claro que não é bem assim. Eu penso em mandar todo mundo tomar no cu. O padre pigarreou e me pediu para moderar o vocabulário. Afinal de contas, eu estava em uma igreja, na presença de Deus e de seu sacerdote. Modere-se, minha filha. Tudo bem, seu padre. Mas há algo de errado com o que sinto? Você sente essa vontade muitas vezes por dia, minha filha? Sinto, respondi. Agora mesmo estou sentindo. Mas por que tanta raiva, minha filha? Seu padre, acontece que sou ruim. Um amigo me disse que sou o diabo de ruim. Não respeito família, não gosto de trabalhar, penso muito em sexo e tenho medo de amar. E o padre só pigarreava. Percebi que ele estava esperando que eu falasse mais. Falei desatinada. Olha, seu padre, eu me envolvi com um cara que fez isso e mais aquilo. Mas eu também não sou flor que se cheire. Acredita que este homem encaminhou uma mensagem enviada a mim para diversas mulheres, seu padre? Ele encaminhou a mensagem e eu descobri da pior forma possível. Descobri através da internet, seu padre. Ele usou as mesmas palavras com outras mulheres. Estava lá o dito "Abril aberto em tons, nuvens macias ditando a música dos raios e etc e etc". Acompanhe meu raciocínio, seu padre. O cara encaminhou a mensagem que era de amor para várias outras mulheres e me senti estranha como se ele tivesse encaminhado uma carta escrita só para mim que, no fundo, não foi só para mim. Isso é como encaminhar um orgasmo, seu padre. É uma puta sacanagem, entende? O padre pigarreou forte e pediu novamente moderação em meus comentários. Minha filha, modere-se. Tudo bem, seu padre. Estou moderada. Mas não aguento sacanagem. Não sei conviver com isso. Adoro pornografia, foto de gente pelada fazendo coisa, amo beijar na boca e choro muito ao ver pessoas sofrendo. Dou até minha casa para abrigar pessoas que não têm onde morar. Mas não aguento sacanagem, seu padre. Entende? Entendo, minha filha. Você deveria ler mais as escrituras. Conhece as escrituras? Busque salvação. A hora está chegando e virá o juízo. Continuar agindo dessa forma apenas a distancia de Seu Criador. Seu padre, eu rezo. Rezo muito. Mesmo depois do sexo, eu rezo. Rezo e peço perdão por não ter contribuído com instituições de caridade, por ter desligado o telefone quando percebi que era minha mãe, por não conseguir ser gentil o tempo todo, por mentir, por desejar o homem da próxima, por não pagar os 10% do garçom, por aniquilar pessoas mais fracas que eu, por enganar, por comprar quinquilharias que não preciso, por fumar, por querer mandar todo mundo tomar no cu, por querer que todo mundo morra. Eu peço perdão o tempo todo. E ainda peço a Deus que me livre de gente idiota. Eu não suporto viver com gente idiota. E eu admito que já pensei em matar o papagaio da vizinha. Fiz todo o plano. Pensei em dar estricnina para ele comer e babau. E depois pediria perdão a Deus por ter matado o pobre coitado do papagaio que tem dupla personalidade. Ele pensa que é um pato. O padre disse que entendia. Só isso, minha filha? Que eu me lembre, seu padre, por hoje é só isso. O padre pigarreou como se limpasse a garganta para fazer algum discurso. Prendi o fôlego a espera de minha penitência. Aquele minuto durou uma eternidade. Foi então que o padre me mandou pensar mais na vida, ler mais a bíblia e perguntou, em tom de ironia, se eu não sentia vontade de compartilhar minhas questões com outras pessoas. Escreva um blog, minha filha. Assim como você, há muitas almas que sofrem sem motivo algum. Compartilhe sua vida porque o mundo está cheio de pessoas vazias como você. E procure um analista. Há profissionais para o seu caso. Eu não sou psicólogo e igreja não é hospício. Aqui é a morada de Deus. Tenha mais respeito para com Seu Criador. O padre abriu a cortina do confessionário e, antes de me largar ali sozinha a ver imagens, me passou um folheto com o endereço do site da igreja e me pediu para contribuir com causas humanitárias. Você se cadastra no site, entra na sessão Doações e faz sua parte. Aceitamos cartão de crédito. E saiu. Mas será que nem um padre consegue ser humano neste mundo? Nem Deus? Saí da igreja ainda mais entojada do que entrei e, ao chegar em casa, fiz a tal doação, peguei uma escada e escalei o muro para olhar aquela desgraça de papagaio na cara e pagar por minha boca suja de quem vive caindo em tentação.








Image by Vegas Vixen

4 comentários:

Alicia disse...

Pqp, menina!
Como você escreve bom de ler.

Lembro-me de um episódio que eu confessava ao padre, quando pequena, que...

bem, aqui não é confessionário, nem é meu blog, né. talvez eu faça um post sobre isso.

por ora, digo que sou cada vez mais sua fã - e menos dos padres.

B. disse...

Eu me vejo em tudo que vc escreve, Lelê. [pqp²].

Tiago Hist disse...

Estou com você. Vamos mandar todo mundo tomar no, na, onde for.
Beijo, Lê.

NDORETTO disse...

Muito legal.......quantas vezes por dia?! kkkkkkkkkk...

Salve seu humor maldito!!! Adoro!

Abraço,escritora