28 abril 2011

falha trágica






Olívia está de volta. Chove forte no dia de sua chegada. Do aeroporto ao bairro onde mora, Olívia observa ruas de forma analítica como se quisesse aprender de novo uma lição antiga. Olívia mudou por dentro e por fora. Engraçado como ausências causam mudanças. Ela sorri displicente enquanto o carro passa veloz pelas praças e avenidas. Nada muda na cidade. Eu mudo, pensa Olívia. Feliz e abobalhada, louca para chegar a sua casa e ver suas coisas, seus objetos, seus móveis, seus pertences e, talvez, receba boas vindas. O corpo de Olívia vibra de excitação ao pensar que talvez receba visitas. Talvez alguém tenha preparado festa e terá vinho e amigos questionando novidades. Olívia contará tudo de sua viagem. Dirá da grande experiência e das pessoas que conheceu. Provavelmente irá inventar detalhes, colocar adjetivos em seus devidos lugares, soberba exibirá fotografias que ilustrem seus passeios e grande será o fingimento ao dizer que conheceu alguém que mudou sua vida para sempre. Olívia dirá que conheceu um mundo extraordinário enquanto esteve ausente. Mentir faz a gente viver mais contente. É como se a invenção acontecesse quando a despertamos de nossa imaginação. Eu crio um mundo diferente no qual eu possa andar indiscreta e ainda ser eloquente sem dar uma palavra. E agora chove e Olívia se encanta ao ver pessoas buscando abrigo sob portas de lojas, telhados, árvores. Todos buscam proteção. É impressionante como somos todos iguais. Pensativa, Olívia sequer percebe a água invadir as ruas deixando os carros mais lentos devido a um imenso engarrafamento. É tempo de pensar. Pensa tanto que acredita que terá mesmo festa e sabe que ao chegar ao seu prédio dará de cara com o porteiro ouvindo no rádio transmissão de jogo de futebol. Sabe que irá saudar o homem e dirá bom dia e encontrará crianças brincando no play e terá de cumprimentar senhores no elevador. A vida é contínua, curva sempre em linha reta e nunca sai da ordem rotineira de sua política. Olívia encolhe seu corpo no banco de trás porque sente ternura, afeto, vontade de viver infinito cada dia que virá. Ela tornou-se tão otimista que jura não mais entrar em combustão por seus pequenos problemas de tempos atrás. Sequer os relembra. Sabe apenas que sentiu necessidade de um tempo para si mesma e foi, de pé na estrada, buscar esquecimento. E agora está de volta. Olívia desce do carro em frente ao prédio onde mora. Malas estão sempre prontas para serem desfeitas. Ela observa a cena. Crianças brincam risonhas estridentes, o rádio do porteiro é impertinente, velhos capengam na porta do elevador e, do alto, no oitavo andar, seus amigos acenam da varanda para receber Olívia de portas abertas para sua vida. Mas algo corrompe o enunciado. Olívia entra no carro, pede ao motorista que a leve para longe daquela gente e some feito folha solta em água corrente. Ainda não estava pronta para ser a mesma mulher de ontem. E assim é a vida, confusa acrobata desinibida, muda itinerários, recria personagens e decide não mais remontar velhos cenários. 








7 comentários:

NDORETTO disse...

Muito louco!!! É assim mesmo, quando todos os movimentos se dirigem para a boa conduta......de repente,UM ÚNICO e inesperado pontinho...dissolve tudo e não era nada daquilo.Adorei,escritora!
Abraço
Neusa

Luini Nerva disse...

MUITO bom!

Beto Canales disse...

bom, acho.

Eder Asa disse...

Pois é, mas acaba que o texto também prevê onde o segundo ato ocorre, o ator também é o mesmo, acaba que não adianta mudar o cenário se não houver uma boa interpretação! Sabe, né? rsrs

Beijo Letícia!

Thomaz Ribeiro disse...

Nessas horas ninguém é capaz de dizer o que é certo: viver a vida do jeito que ela é (prova do maior estoicismo)ou então fugir dela de uma vez.

O Impenetrável disse...

Muito bom o seu conto! Descobri o seu blog do nada e gostei de muita coisa que li por aqui. Grande abraço!

Zélia disse...

"Mentir faz a gente viver mais contente."

Olívia sabe que não é assim. No encontro dela com ela mesma, ela sabe que não é assim e se entristece. Olívia tanto sabe que não é assim que decide não remontar cenários. A vida (bem) vivida pede um cenário novo a cada dia. A vida (bem) vivida faz de Olívia, faz de mim ou de qualquer um ator que alcança um novo degrau a cada dia. Ator que carrega do personagem de ontem apenas o necessário para o personagem de hoje. Encenar não é, necessariamente, mentir, fingir. E sim, desempenhar um papel (certo) para cada ocasião. Respeitando o espaço, tema e outros atores para que todos tenham suas "deixas". Na vida, o filme é real. Não podemos esquecer...