15 abril 2011

ladainhas




E da violenta disputa entre o laço e o anzol,
Vence o verme de lábios pequenos.
Criatura de melancólica estatura,
Trajando singular feiura,
Que tanto ria de nós.



Se a poesia vingará, decerto que também vingarei. Pois que de poesia sou feita, de mel e madeira, e das sementes de um baobá. Sou peça de colecionar. Obra parideira cujo ventre sofre ao nascer de acordes e há em mim o suspiro de deus. Venho em mar aberto, em decretos despertos, e pernoito em cada casa por onde passo e deixo meu desembaraço que um dia me fez mulher. O que antes fora menina, agora ensina que da letra vem a voz ou o reverso, a ladainha ou o deserto, a oração ou o cálice de amargo remédio. O silêncio de uma borboleta que se aninha em lâmpada acesa e que, ingênua, sonha em caminhar. Sou alma violenta quando silencio e sou morte ao dobrar dos sinos que boquiabertos se espantam à pálida nudez da fêmea errante que me tornei. Ordenhada pelas horas, busco a palavra exata que encerre a rima de verso armada, a vida de sorte anulada, a deusa sem mistificação. E ainda interrogam-me se vingará o minúsculo fruto que sou. Coro ultrajada, boneca de volta à caixa, e sangro pelos meus botões. Pois nada em mim é de minha autoria. Criminosa embarco na poesia e o intertexto me denunciará. Sou sujeitada de outro discurso e, plantada em morna terra, onde bate o sol e arqueja o vento, interpreto o dia de hoje e celebro atenta meu humano vislumbramento.








Image by Shyvo

13 comentários:

claudio rodrigues disse...

Letícia, que força, que vigor na sua sutileza. Bárbaro ler vc.

Elcio disse...

Vindo de outras paragens chego à sombra dessa "Palmeira" e, antes mesmo de bater a poeira de letras q teimam tentar ser poesia (em mim) permito q as meninas - dos olhos meus - coloquem-se a correr. Lá vão elas por entre Ladainhas, Relâmpagos, mulheres desatinadas. Enfim, de Norte a Sul sempre a contemplar as imagens q mudas, n falam mais q mil palavras. (deus permita q a turma dos semióticos n me ouça).
Apeei de meu cavalo. Dei-lhe de beber...tb a minha sede agora é finada, afinal sacie-me nas sombras dessa "Palmeira"; oásis q tanto busquei. Agora qdo o Leste voltar a chamar-me levarei a certeza de que tenho de voltar a esse "Grande Sertão: Veredas.

Eder Asa disse...

"Pois nada em mim é de minha autoria."
Plagia muito bem, então!

O mais espantoso, ou digno de admiração, não sei, é essa maneira de conduzir a prosa em eu-lírico feminino e englobar o índivíduo, independente do gênero, entede? rs
Acho que Lispector te inveja HAHA'

Beijo!

Letícia Palmeira disse...

Elcio,

Estou lendo Grande Sertão: Veredas e é um livro que nos leva sem pressa de ler. Olá de volta, amigo. E vamos seguir sempre juntos.

Beijo para todos (Cláudio, Elcio, Eder e mais).

Leonardo B. disse...

[diante da raiz, tronco e copa de palavra acontecida em poema, deixo um silêncio,

rendido!]

um imenso abraço, Letícia

Leonardo B.

Adriana Alves disse...

Não tenho dúvida, a poesia já venceu nestas lindas palavras. Abraços, Adriana.

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia...quanto tempo...
Hoje li com o ritmo das poesias a sua posa poética...aqui só as cores do blog é que mudaram
O conteúdo como sempre demonstra o seu talento nato com as palavras
Parabéns por mais uma bela criação...
Um abraço na alma
Beijo

A Escafandrista disse...

lindo, letícia. e os comentários deixados aqui tbm. bom final de semana pra ti. bjs.

Letícia Palmeira disse...

Elcio,

Pensei que o Elcio lá de cima fosse você. Isso é que dá minha mania de não clicar em links.

Mas valeram todas as palavras. =)
Beijo para todos.

Marcello disse...

Letícia, quanto mais te leio, mais me apaixono pelos seus textos, pela sua força...

Todos os seus textos mexem comigo, de uma maneira singular.

Beijos querida.

NDORETTO disse...

Noossaaaaaaa, que coisa linda!
Fiz até leitura dramática dele ! Lindérrimo o texto!

Abraços,escritora: =) =) =) aplausos, etc ,etc____________

Ana Claudia disse...

E diante daquilo que não é nosso, mas nos integra, vamos manifestando nossos deslumbramentos, que às vezes inspiram vislumbres.

Um beijo

Silvia disse...

Letícia, que bom conhecer este espaço de palavras mágicas. Obrigada!