05 abril 2011

mimético




"─ A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante."

(Machado de Assis)






A voz quer contar história. Mas cala. Ainda é de café da manhã o dia. Caminham os pés em direção à máquina. De lavar é a hora. De gozar é a tara. De esquecimento é a fera enlatada que sufoca a humana face que enfrenta a linha branca ainda vazia de língua. Atrasa um pouco a história. Mas há pressa. Urgência de falar. Mas não é a voz que conta. São as mãos, os olhos, a fome. São estes os elementos que narram. A voz está muda de medo, sem nome, sem credo e sem lar. Vasculho trágica o dramático estado em que repousam as letras. Meio copo d’água para enganar o berro imoral que sangra por restos. Meto as mãos em meu rosto cansado e a fome lateja o ferimento intacto de ainda não dizer. Já não sei se é arte ou flagelo. Escondo-me do vão de cada mistério que invento. Ou reinvento. Não há novidade. É só vaidade, é só validade, à sova da idade. É tudo parte de livro que li, de gente que passa e do excesso de observação. E fere a anestesia para depois anestesiar. Estou imensamente inchada de autores, de passagens, de críticos e minha prole sobrevive aos cacos ao passo que meus pares são imensamente certeiros. Há regras, há farpas, há bocas em demasia falando em romaria que assim é a arte e nada mais é liberdade. Conversa inútil e do que se faz a vida? Há tempos não sei. Bocejo languidamente e não recordo se acordo ou se amorteço quando abro os olhos. Chove e, antes que se exponha a chuva ao meu olhar em demonstração, antes que os homens amanheçam certos em suas marchas, não admito que me despertem as pálpebras ao calor do dia que ainda nasce. É preciso, antes de seguir vivendo em aritmética rima, encontrar um lugar em que nada mais aconteça. Um lugar silencioso onde somente eu me veja, me contemple ou me assombre. É preciso encontrar este lugar dentro de mim onde eu seja somente quem verdadeiramente sou e que se destaque, sem cálculos adestrados, minha prima essência. É preciso ser simples. Cavalgo entre as mudanças temáticas do produzir absoluto. Há várias cores, no entanto, há limitações. Chove ainda e já me desperta de meu sono consciente o pássaro que não dorme, o despertador de timbre áspero, as palpitações que emitem o coração. É preciso mais tranquilidade para que se viva por completo a loucura da cidade repleta de incertezas e crueldades. Hoje é moda a morte, a fadiga intensa, o tom cosmopolita dos metrôs, o mau humor das senhoras que se preparam robóticas ao lampejo de suas obrigações e o sexo sem preliminares é tão veloz quanto o raio que o parta nossos dias santos. Há mais necessidade de artigos e gêneros e tudo despenca específico para que seja cada ponto compreendido. Porém, há várias cores e nos devastam as limitações. Eu tento me enquadrar aos círculos dos influentes que absorvem da arte apenas o que é superfície. Tão triste ver um cisne caducando de velhice. É preciso encontrar um lugar que neutralize efeitos e que nada mais seja dito além do que é sentido. Um estado natural que se erga de mim ao soluçar do silêncio das origens como se nada ainda transpirasse criação. Como se nada estivesse por vir à tona. Um lugar onde homem não fosse nada mais que homem, nada mais que ser, nada mais que um e tantos. Um lugar remoto onde nada mais possa influenciar o diverso encontro entre o tema e a voz que o intensifica a cada desvio de pensamento. Sento-me à mesa e, desiludida, eu escrevo. O mundo é todo torto, todo errado e há gente demais para pouco espaço. E não há bicho mais medonho do que este disfarce ao qual me retrato quando sou tantos e nunca sou eu o que sou de fato.






Image by pesare

7 comentários:

Casa de Mariah disse...

"Um lugar onde homem não fosse nada mais que homem, nada mais que ser, nada mais que um e tantos."

...que não fosse o seu último IPhone, ou sua última viagem a Nova York, ou seu MBA...
...também ando a procura desta mesa de café (que pode ate ser de coador de pano) onde as pessoas sejam tão simplesmente as pessoas...

Tiago Hist disse...

Muito lindo isso de "o soluçar do silêncio". O título deveria ser esse.

Zélia disse...

Voltarei porque minh'alma não me permite dizer apenas "belo". Esses dias, minha cabeça está suspensa na prateleira... /)

A Escafandrista disse...

Gosto de ler-te em voz alta, acreditas?

Eder Asa disse...

O tic-tac ensurdece!
Eu também gosto de ler-te em voz alta. Quanto mais alta... pra mais pessoas ouvirem rs

Germano Xavier disse...

Um texto para ser lido e discutido em minha próxima aula de filosofia.

CARLA STOPA disse...

É a tara de gozar...E viver preliminares eternamente delirantes que nos levam ao gozo supremo, pois viver é isso...Tara e urgência...Em tudo.Delícia isso...Beijo, minha amiga linda.