20 abril 2011

nero e afrodite



Hoje tudo não passa de um mero evento. Mera coincidência. Mero falar para preencher o tempo. E discutir relação. Enquanto narigudos falam que o mundo está acabando, pacifistas brigam por seus motivos, políticos são caçados e, meteorologicamente, estamos todos perdidos, nós discutimos relação. E eu estou com saudade. Talvez seja mera invencionice do meu inconsciente. Ou mera idiotice. Ou Nero apaixonado por Afrodite. Imagina se eu fosse uma dessas coisas que acontece de súbito? Uma onda gigante, uma escada atrapalhando o tráfego ou chuva forte em dia de fazer festa em jardim? Mas não sou. Formiga escondida atrás do botijão de gás. Estou errada? A verdade não é bem a verdade depois do quinto andar e fico estranhamente chateada quando esse torvelinho de imagens me cruza o caminho. Sua mãe vestindo roxo e eu divinamente dividida entre olhar minhas mãos e ficar tímida mesmo que risse. Eu ria. Eu estava nua de tanto rir. Ocasiões especiais merecem medidas extremas. E eu sempre escolho um bom vinho como companheiro. Bebi que me excedi. Família e uma fila de quadrúpedes bebendo água. Plantei essa imagem na minha cabeça e nunca mais esqueci. Assim demarco os dias. E não esqueço. E não consigo. Por Deus, por Nossa Senhora de Fátima, aquela outra santa das causas impossíveis, por todas as imagens que a Bíblia condena, não consigo esquecer você. Escancarada está a porta da rua, tenho comigo o velho trocado para dar garantia e dou de ombros e não choro na frente de estranhos. Eu faço coisas ao contrário e acabo dando meu corpo e alma e já vendi até meus discos de vinil para pagar dívida. Ando ruim esses dias. Novidade. Talvez seja manchete de jornal. Mas não é ruim da cabeça. É ruim de estar dormente, falando sozinha, vendo coisas, tomando excessivas doses de egoísmo e solidão não passa de dois pares de sapatos deixados no canto do quarto e uma escova de dente que logo me será esquisita. Vou olhar tanto a tal escova que vou começar a estranhar a existência dela em minha farmacinha. E quem inventou de chamar armário de banheiro de farmacinha? Que tanto há nessa gente que inventa nome em cima de nome e ninguém descobre uma cura para o que sinto, cura para os aflitos, cura para as pessoas que leem livros de auto-ajuda e ainda acreditam? É mera ocupação. Seria simples. Alguém chegaria e diria exatamente o que sinto, quem sou, o que devo fazer e que fim devo dar aos planos que não chegam a dar certo. Mas ninguém pode ter respostas assim, de forma tão fácil. É sempre a mesma regra. Duas quadras da rua onde moro, supermercado, sorriso falso e homem que chega elogiando quando, na verdade, ele sempre tem outro pensamento. Ou não. Talvez seja exagero meu. E estou lendo. Um monte de livro. Leio muitos para entender tudo ao mesmo tempo ou nada. Sou exagerada. E logo estou misturando ensaio, artigo, poema e prosa e falando de forma estranha que nenhum amigo meu consegue me entender. Um dia fiz uma síntese de Rubem Fonseca com Otto Lara Resende e ainda falei a respeito da abolição da escravatura. Resultado: Acabei dançando na rua e elogiando um amigo que me trouxe pra casa. E até beijei na boca. De língua e dente e tudo. Meus excessos são os grandes culpados. Rod Stewart tem culpa e também aquela tal Carly Simon. Todos eles me encheram de ilusões infantis, débeis, cor de rosa bebê. Sem falar nos filmes que destruíram minha visão racional das coisas. E vou declarar imposto de renda e declarar também total sanidade mental porque aguentar a vida é simples. São dois pra cá, um copo cheio de mágoa, mais uma dose e um cigarro por mês. E vou trocar os móveis de casa e esquecer que existi enquanto você existia, enquanto sonhava mais que vivia e vou contar a história até ficar cansativa e que eu não aguente mais uma palavra a seu respeito. Vai ficar feito quadro que se vê todo dia e perde a graça. Ou vai terminar como eu, que me embaralho repetida, dando uma de prosa e poesia quando, na verdade, não passo de uma mera alegoria.







Image by MisOtrasCosas

7 comentários:

CARLA STOPA disse...

Prosa, poesia ou mera alegoria? Todas bem-vindas...Lindo...Beijo.

Alê Crol disse...

Boa noite, minha querida Letícia, vim aqui lhe agradecer por sua imensa generosidade em me emprestar o seu texto e o seu talento. Muito obrigada! Estou naquele texto totalmente, tão eu em tudo.... Não tenho o seu talento, mas posso compartilhar com você!
Passa lá no Blog Quotidiano e Quimeras
Beijos no seu coração e bom feriado!

Curto muito teus textos!

Cristiane Moreira disse...

Mais um texto incrível...
Rod Stewart e Carly Simon também me enchem de ilusões, mas sem ilusão a vida não teria a mesma graça.

Beijos Letícia.

:)

Ana SS disse...

Manchete de jornal acaba com qualquer um. Pior que ela só a vida, que não cansa de matar.

Mas você faz viver, de algum modo, que sei lá como é.

Eder Asa disse...

O "mera" fica por conta da modéstia.

Sei que gosto de ficar nu de tanto rir. Gosto do vinho e gostei extremamente deste aqui. Voltarei para (re)ler, com certeza!
Beijo, Letícia!

Roberta Mendes disse...

Ser o inescapável, o vórtice, a simples pedra. Desde que no meio do caminho. Ou nos contornam, que é uma forma de dar por nós. Ou tropeçam no inesperado.

Germano Xavier disse...

Eu te amo, Branca.