25 abril 2011

sequelas





Caetano ainda é chato, eu calço outros sapatos, acredito em luz no fim do túnel e bonança pós-temporal. Faço terapia, ioga, massagem, descanso em fina almofada em clínica de estética, depilo à cauterização o buço e ergo meu busto em farpado sutiã. E, vez por outra, sofro de amor. Mas não é amor o que me arde. Amor acontece em falsete como em voz de tenor. Amor lubrifica e depois resseca feito massa de modelar. É o intervalo de cigarros, de espasmos e de um orgasmo sentido em miúdos segundos consecutivos. Amor é o baldio. E eu ainda contento meu paladar ao ver pessoas como se olhasse vitrines. São bonitas silhuetas que passam por minha retina deixando marcas, ora deixam nada, ora se distraem. Eu trato bem os animais. Acasalo obrigatória enquanto a cortiça curte o vinho na geladeira, segunda prateleira, ao lado dos vegetais. Ao veneno de uma taça eu traço muitos planos em teus caminhos. Ao tarô edifico vidas vazias, necessitadas de uma dor maior, traídas e desoladas me despertam compaixão. A dor ensina. E não há meio termo ou lição de cartilha. É vida. É deus dará. Eu aposento agendas, diários, notas de um tempo outro, vago sem luz entre cômodos e nunca cedo à palmatória minha mão aberta de repulsa ao vislumbrar o que de mim é culpa e nunca será redentor. Acalmo vermes que, tão breves quanto a pele, irão contrair os dias e se tornarão relíquia de toda memória acumulada em solidão. Apago rastros de erros, meus enganos todos têm endereço e, no cartório, uma certidão pré-datada. Termino dias em linha reta, fecho portas e janelas e durmo intranquila de uma dor urbana, bruta de tão humana, e, aos trens e passarelas, vivo silenciada de uma sede indiscreta que logo me será vertigem, talvez assombros de uma aquarela, ou então se partirá aos prantos minha existência sucumbida por tantos prazeres, diversos azares e imensas sequelas adquiridas.







5 comentários:

Bárbara Queiroz disse...

Olá,

Adorei o blog, repleto de textos extasiantes.

Sandrio cândido. disse...

Intrigante.

CARLA STOPA disse...

Sequelas...Tenho algumas...Meu abraço.

Tiago Hist disse...

Mais uma bela amostra da sua força poética!


Sequelado estou eu.
Beijo.

Cafundó disse...

É como se a poesia estivesse entranhada em suas veias.