18 maio 2011

drama à inglesa





Logo eles irão passar. Em seus carros cheios de adjetivos, irão falar de suas viagens e finanças. Quanto você ganha? Minha voz não acontece à revelia. À noite, talvez, ela aconteça. Sensata feito dama inglesa, eu falarei. Mas não agora. Iolanda canta enquanto cozinha. Ela gosta de Roberto Carlos e eu gosto de ouvir. Meu corpo contra a cama e um travesseiro entre as pernas. Deitada que nem criança, choro em canção de ninar. A maturidade ainda não aconteceu. Me sinto tão rebelde quanto um elefante cruzando a estrada. Os cartazes dizem para não sofrer. O noticiário diz que há inflação na Europa. Alguém toma banho e não percebe meus soluços. Melhor assim. Explicações nem sempre funcionam. E não somos tão mecânicos a ponto de acreditar que tudo que é dito é verdadeiro. Estou chorando porque falar cansa. Chorar é contar segredos. Eu guardo segredos de muitos anos e os protejo como quem protege as senhas de um cofre. Há um filete de luz de um sol insolente, curioso, prepotente este sol que invade o quarto. Iolanda vem e traz o chá. Digo que não estou doente. Ela insiste e diz que é preciso. Há vida lá fora e você aqui dentro trancada. Levanta. Iolanda abre a janela e o sol se debruça dentro do quarto. A luz é intensa e eu bebo o chá feito por Iolanda que, há poucos minutos, cantava. Iolanda me faz rir. Pergunta se quero conversar. Digo que não. Com a cabeça. Não estou tão mal assim, Iolanda. Conversar aumenta a penalidade de qualquer crime e tudo que digo pode ser usado contra mim. Iolanda sorri e diz que não sei nada da vida. Não sei da vida porque tudo que vivi foi de regra dosado. E, quando me veio o completo sopro de um amor inadiável, eu fali. Meu cofre arrebentou no estrondo. Perdi todos os segredos. Ou quase todos. Digo a Iolanda que é preciso nomear tudo senão a gente se perde no emaranhado das coisas. Tudo precisa de um nome, Iolanda. Tudo que existe precisa existir de forma que haja um nome. O som entre o tijolo e a queda tem um nome. O café fumegante na xícara também tem nome. Mostro a Iolanda um pequeno parafuso perdido entre o armário e a cômoda. Aquele espaço entre o parafuso e os móveis, ele tem um nome. Até o que eu sinto tem nome. Iolanda espera resposta. Sorrindo eu digo que este é meu último segredo. O que eu sinto só eu consigo entender. Só eu preciso saber do segredo que permanece forasteiro entre o passado e outro tempo que de meu calendário se perde. E agora a veste é curta e o relógio tem ponteiros. Antes eu me sentia como se fosse uma roupa apertada que em ninguém caberia. Um cordão de aço. Um nó. Um ponto final sem linha. Agora estou sabida. Porque o trem já é partido e, de mãos vazias, outro dia chega e refaz toda e qualquer vida. O fim, porém, é irremediável.








Image by arghavan

4 comentários:

Flor com Espinhos disse...

este escrito confortou uma alma que não sabe dá nome aos bois...

Eder Asa disse...

Como prometido: "pode parecer "puxação de saco", e de fato é, porque além de talentosa, você se mostra super legal, mas as vezes você escreve algumas coisas, que sabe?, são minha idealização de literatura... Não é inofensivo... É belo, mas está sempre pronto para um contra-ataque."

Beijo, Letícia!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Letícia

Pois então amiga, não é que ainda existem pessoas fazendo esse tipo de previsão doida...e tem gente que acredita, vende tudo...rsrs...enfim
Bom mesmo é não saber se dia 22 estamos aqui ou não...dilúvios, terremotos, tsunamis...e sei lá o quê mais nos espera nesse mundão de tantas tragédias naturais, mas também de Iolandas cantantes e da Letícia, artesã das palavras, pois o fim...ahh...como você bem coloca no texto...irremediável
Ahh...enquanto estivermos por aqui...vamos que vamos...que venha o dia 22...rs

Obrigado pela presença no Verseiro...gostei muito dessa expressão

Antes eu me sentia como se fosse uma roupa apertada que em ninguém caberia.

Um abraço na alma amiga...parabéns sempre pelo seu talento...

Beijo

NDORETTO disse...

Tudo isso porque falamos e somos esse ser barulhento. Linda a crônica. Toca fundo.
Beijos
Neusa