15 maio 2011

futuro do pretérito





― Padre, me perdoa porque pequei.

― Sozinha ou acompanhada, minha filha?

― Acho que foi em grupo, padre.

Frei Hermano sorriu e me passou uma lista contendo minha penitência. Peguei a lista, enfiei no bolso da calça e deixei a igreja sem bigorna alguma nos ombros. Decidi caminhar e pensar a respeito de minha decisão. Não poderia deixar passar de novo minha oportunidade. Eu precisava falar com ela, expor minha insatisfação. Não é sempre que acordo decidida a mudar a mobília. E fui caminhando pelas ruas. Olhava o céu e olhava também o meu reflexo nas janelas dos carros estacionados ao longo da avenida. Chegaria rápido em casa. Não apertei o passo. Eu queria vivenciar aquele momento: rua, carro, pavimento. Meninos jogavam bola em um terreno ao lado da padaria. Não havia mendigos. Mulheres guiavam seus antigos carrinhos de feira entulhados de frutas e verduras e um casal beijava romântico beirando o sexo perto do sinal. Que alegria. Volta e meia uma pedra surgia no caminho. Decidi pular as pedras. Se há algo na terra que me permito é não ter de enfrentar obstáculos. E também não aceito compromisso. Quero somente o dia servido em fatias. Mas quando chega a hora de fazer algo, é preciso que seja feito. E eu faria.

Futuro meu pretérito na ponta da língua.

Parece que pensar a respeito do problema me fez andar mais rápido e chegar antes do previsto. Fiquei feliz. Admito. Giro a chave na fechadura da porta principal, entro em casa, entorno água pela garganta. Estou ansiosa que faz pena. Mas é preciso. Fito-me ao espelho.

Pálida feito Jocasta ― Santa feito Jordão.

O coração parece querer saltar pela boca. Sinto vontade de fazer xixi. Agora não, violão. Contenho o fluxo. Chego ao jardim de casa permitida a falar. Ensaio duas ou três palavras. Básica para não assustar. Me aproximo do muro que divide nossas casas e ela, em sua cadeira de plástico, frigindo pensamentos, sopra as unhas para o esmalte secar. Em seu colo, uma revista que exibe fotos de homens sem trajes sumários. Que tipo de pessoa lê estas revistas? Espanto minhas questões preconceituosas para me focar somente em meu objetivo. Segundo ensaio para travar comunicação. Ciranda – cirandinha. Encontro cara a cara o objeto de meu conflito. Ela está vestida de forma esquisita: pantalonas e uma boina enfeitando a cabeça. Eu nunca havia reparado em sua forma de vestir. Minha cegueira me delata e meus crimes são todos primários. Ela percebe minha presença. Eu me encolho feito caramujo. Ela levanta de sua cadeira. Eu já não sei o motivo de estar ali, parada, patética, peremptória congelada por tão miudo objetivo. Decido enfrentar o fato que segue. Uma vez escolhendo a guerra o soldado não deve recuar. Ela se debruça por cima do muro. Nos olhamos. Já é hora, penso armada. E é então que dou com os burros n’água. A mulher abre sua boca enlatada de boa convivência, diz que sempre sentiu vontade de conhecer meu jardim e elogia minhas flores de forma que me sinto comum feito um rádio de pilha. E ela se desmancha a falar de sua vida, de seus dias, fala a respeito do vigia da rua, das últimas fofocas entre os moradores e era exatamente isto que eu buscava evitar. Não queria amizade ou troca de conhecimentos gerais. Eu a buscava somente para dizer da infiltração de sua cozinha que já se espalhava pela parede de minha área de serviço. Era tudo muito simples. Sem rodeios eu alcançaria o alvo. Talvez ela cuidasse de consertar a infiltração e logo estaríamos novamente distantes sem a obrigação de todo dia cozinhar ovos de futilidades. E, enquanto fala a vizinha, enfio a mão no bolso da calça, pego a lista de penitência dada por Frei Hermano e penso, em alto e bom som, que todas as minhas dívidas estão quitadas. Ao ouvir aquela mulher ouriçada por suas ocupações mundanas percebo que não cometo pecado algum. E a tarde durou o dia inteiro de conversa a respeito do que não creio e de um mundo do qual me esquivo para que não haja atrito entre o que não sou e o que por direito me permito.





Image by Anne-Julie 

8 comentários:

Alicia disse...

Delícia de leitura.

Odeio pagar penitências, seja lá qual a forma que ela aparecer.

Mas sempre me pego buscando-as.

Eder Asa disse...

Se tenho prehuiça das pessoas, dos vizinhos nem se falam rs (como se vizinhos não fossem pessoas... e às vezes não são mesmo).

Maravilha, Letícia! Li_teratura com gosto...
Beijo!

A Escafandrista disse...

A tua linguagem às vezes acessível, às vezes subjetiva, a fala e as imagens do cotidiano, são deliciosas de ler/ver, parece que aproxima o leitor de ti. Bjs.

claudio rodrigues disse...

Que mulher chata essa vizinha, heim! É muita penitência. Não há pecado diante de vizinhos assim. E não há como fugir. Ah, esse futuro do pretérito é tão condicional! kkkk

CARLA STOPA disse...

Vc me surpreende sempre...Beijos, amiga.

Zélia disse...

Engraçado como pessoas são superficiais em suas leituras - estou naqueles dias em que não me permito calar. 8)

"... um mundo do qual me esquivo para que não haja atrito entre o que não sou e o que por direito me permito."

Aí está a chave de tudo. Se vivo o que não sou, na verdade, não estou vivendo. Estou apenas existindo e passarei. Como passarinhos em qualquer jardim...

;) The job is nice!

Letícia Palmeira disse...

Ou talvez haja uma vida paralela, Zeliawski. Ou ainda seja aquela coisa de viver o que o outro vive. Viver da expectativa do que o outro tem a nos dar. E por aí vai.

Sonhadora disse...

Delícia é poder escolher qual vida viver...
Sempre sou a favor das paralelas.
As vizinhas não aceitam isso, querem que você seja 'normal', pateticamente normal, e assista novela à tarde.

Luv u, coolmadre.

=)