08 maio 2011

homérico






Ora isto que preciso mudar de vida. Mariposa que era triste, agora muda e, insistente, se apavora ao ver os caminhões. Tombadilhos dessa vida e há mudanças inesperadas. Onde mora a mulher exata? Aquela que xinga em pensamento, usa anágua e, recalcada, sabe seu lugar? Mulher assim não existe. Vê a imensidão. Isto que se sente ao deslizar da noite e durante filme reprisado? Cruza as mãos e reza. Pede pela moeda, pelas roupas do rei e aproveita um tiquinho de tempo e pede por mim também. Ando baqueado, me sinto enjaulado e falo alto que é pra todo mundo ouvir. Mas tenho é medo. O Freitas disse que medo é coisa de repressão. Sou auto-repressivo então e, garanto, não valho mais que outro. Não valho mais que a mentira enxuta dos velhos jogando xadrez. E foi nesse dia que acordei tentando mudar meu destino. Água e terno, beijei minha cara no espelho e rezei mais que obreira e pagador de promessa. Lembrei do filme. Ator bronzeado, com cara de sofrimento, cruz no lombo e lá se foi. Fez sucesso, mas não me fez exaltar. Preferi o livro. É sempre assim. Queremos o edifício e não isto. Isto é coisa de todo dia e é fácil que nem morar em casa com vista pro mar. Saí por aí a ir e insistir. Algo que faço questão é manter minha insistência. O mundo não é nada contra mim já que sou todo mundo e ainda trago mudo no peito e na boca a voz de toda a família do país. Café sem açúcar no botequim, mais passos, calçadas e chove. Molha o terno a chuva e vou. Isto é que é acreditar em vão. Vou feito louco cantando música de cantor americano e, por volta do corpo, roupa nova com marca falsa de grife francesa. Isto sou eu, sem bigode na cara e alma lavada olhando o turbilhão de mentirosos passando num trem. Ainda ontem recebi visita. Freitas e família foram pregar lá em casa. Disse o Freitas que o diabo andava por lá, me rondando. Disse eu que o diabo tinha mais o que fazer. Eu ri. A mulher do Freitas franziu a testa e tapou os ouvidos da filha. Menina bonita. Quase mulher. Freitas se sentou comigo e passou a ler o evangelho. Assenti. Você tá certo, amigo. Deus anda de mal comigo e isto é verdade comprovada. Vou rezar por você. Freitas tem mania de ajudar e eu tenho mania de ir contra. Logo, presumo que nos completemos. E hoje Freitas me arranja algo pra fazer. Chego, subo escada e penso em Deus que é bom. Entro e não marco hora, nem nada e vejo Freitas fazendo sacanagem com a secretária. Óbvio? Creio que não. Óbvio seria encontrar o Freitas rezando, a secretária trabalhando e o mundo prático obedecendo. A gente só aprende vivendo. E eu sorri.




7 comentários:

A Escafandrista disse...

Adoro vir aqui. Beijos, Lê. Bom dia das mães pra ti e tua família.

CARLA STOPA disse...

Seus escritos me fascinam...Beijoca.

Thales disse...

Muito legal! Às vezes a internet me surpreende com bons conteúdos. Isso acontece quando me deparo com blogs assim, como o seu. Parabéns.

Eder Asa disse...

Quisera eu que Freitas fosse exceção... Mas como diz um amigo, "existem duas opções na vida: ou ser hipócrita ou ser um pária."

Perfeito!
Beijo, Letícia!

Zélia disse...

Texto para mim é imagem. Vidrei na imagem do beijo no espelho. Quando criança, beijava espelhos com outra intenção. Hoje, beijo espelhos porque "eu me amo!" kkkkkkkkk

Detalhe:

"A gente só aprende vivendo."

Só aprendemos vivendo. Mas nem todo mundo tem a capacidade de aprender assim tão desenvolvida... Eu tenho repetido para a minha mãe: a vida é para os fortes. Nem todo mundo pode viver deitado em pétalas de rosas. A maioria absoluta tem que aprender a deitar em espinhos. E nem por isso a vida não vale à pena...

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia, obrigado pela visita e pelas palavras lá no Verseiro...
Juro que li todo o texto, mas reli o final várias vezes, pois o final é uma constatação de que somos gente, carne e osso...tentações, erros e acertos...somos humanos, assim feito o Freitas
A gente só vive aprendendo...
E eu continuo sorrindo o meu sorriso valente, teimoso
Por isso continuo...por isso vivo...
Um abraço na alma

Beijo

Don Mattos disse...

Caralho, Mendiga, como eu gosto da tua letra, de como juntas tuas consoantes às vogais, daí formas palavrinhas, juntas umas as outras e, shazam, mais um texto que eu queria ter escrito.

Tenho inveja de ti, e tal qual a personagem do texto de cima, tenho uma vizinha que me apurrinha a mente, logo, não faz parte dos meus planos me penitenciar pela inveja que confessamente alimento com todo amor e carinho do teu enorme talento. A vizinha já é minha penitência, e é tanta penitência que tenho um puta crédito para te invejar mais e mais.

Escreva mais, quero te invejar mais um bocado de tempo ainda.