02 maio 2011

hortaliças





Rufem os tambores, senhoras e senhores. A cena é a mesma de anteontem. Ele sai do banheiro equilibrando o peso de seu objeto identificado causador de belos males. Homem pelado é um traste. Olha quanto pêlo. Olha a simetria descombinada. Elvira pensa enquanto o homem caminha em sua direção. Lingerie apropriado para ocasiões, abajur meia luz, palpita o coração e lá está Elvira deitada esperando seu pepino. Mulher templo divino. E começa a jornada. Um-contra-um-igual-a-poucos. Ele deita sobre a mulher que sorri envaidecida. Obrigada, meu deus. Este homem é meu. Elvira se movimenta que é uma beleza. De lado, de cabeça pra baixo, escoando pelo ladrão. Olhe para mim, Elvira. Isso, Elvira, você acertou. Aplausos para Elvira que, após tanto treinamento, finalmente conseguiu engolir a melancia. Um sobe e desce, entra e sai e nada de música porque música vicia, Elvira. Gire os quadris, Elvira. Isso. Elvira se arrebenta de raiva quando ouve pronome demonstrativo empregado em tão simples contexto. É demonstrativo ou interjeição a comando de voz? Vamos, amor. Amor? Elvira conspira contra palavra. Desde quando sou amor? Elvira cogita razões e pensa em sua irmã Marília que está com problemas hormonais. Preciso ajudar Marília. Hormônios podem destruir alguém. Marília tem 50 anos e se diz feliz. Marília tem bigode. Eu já aconselhei Marília a fazer depilação a laser. Marília não ouve ninguém. Marília cansativa que adora anunciar seus aumentativos insuportáveis: lindérrima, gostosérrima, chiquérrimo e belíssimo. Eu odeio Marília. Irmã desgraçada. É sempre o mesmo abacaxi. 45 minutos e segue o torneio. Ele acerta a caçapa, mede o peso do taco e se apavora. Ele não pode chegar antes de mim. Respira forte no ouvido de Elvira que já nem sente mais seu corpo. Tanto fogo para pouca palha. De quatro agora, meu bem. Vamos. Rema remador. Elvira lembra de ter esquecido de comprar panos para suas mangas. E agora o homem é bailarino. O que é isso que ele está fazendo? O homem agita o corpo de forma que Elvira não sabe se chora ou se tenta ajudar o marinheiro a retirar a âncora presa ao chão. Uma posição eclética. Homem sábio é aquele que fomenta algo e responde com decisão. Um golpe de esquerda, um de direita, chave de braço, depressa, Elvira, estou quase lá. Lá aonde? Irá o homem descobrir o segredo do universo? Elvira conseguirá abrir as pernas sem rasgar-se feito papel? O homem realmente foi à lua ou terá sido montagem para enganar a população? Elvira está rubra de tão descascada. Uma flor. Esfolada, mal passada e, feminina, consegue arrancar gemidos de seu apicultor. Elvira, tente outra posição. Vamos, Elvira. Não quero ainda, Elvira Amor. Ele está romântico. É uma benção. 57 minutos de vai e vem, esconde e mostra, morde e assopra e Elvira está contente porque, de tão cansada de quebrar a lei da gravidade, decide usar a manobra final. Ela sabe que ele não se manterá firme. Planejada a vencer, ela sabe os caminhos para o precipício. Elvira beija o homem apaixonada, diz tudo falando nada, e cede o corpo acelerado e úmido em sua última tentativa de vitória. E o juiz apita o final da partida, senhoras e senhores. O homem ejaculou feito louco, rosnou feito cachorro e tombou seu corpo ao lado de Elvira. E, dias depois, o mesmo homem arruma as malas e vai embora dizendo que precisa de mais espaço, de mais vida, de alguém que o ajude, de alguém que se mostre mais companheira. Elvira sofre seus lamentos. Chora por alguns dias, ajuda sua irmã com seus problemas hormonais, conhece outro homem na fila do caixa eletrônico, namora fruta vaidosa, se afoba romântica e segue sua rotina cega de chorar pitangas e ninharias em meio às imensas plantações de hortaliças.





Image by TierraL

11 comentários:

Eder Asa disse...

Se mamãe tivesse aqui se sentiria feliz e orgulhosa de ver como essas hortaliças me agradam! HAHA'
Essa imagem é uma das melhores aqui do blog! Em excelência, só perde pro texto mesmo...

Beijo, Letícia!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Leticia...caramba...to rindo aqui..rs...saudade amiga
Algumas expressões ficaram demais...mas não vou destacar nenhuma delas pois o conjunto da obra ficou perfeito, rir já de manhã faz bem...rs
Bom...eu como torcida vou descendo as arquibancadas...a prorrogação eu deixo para nossa amiga Elvira...rs
Um abração na alma...
Boa semana
Beijo

Ribeiro Pedreira disse...

se vira, Elvira, que o mundo é cão... e rosna!

Mary disse...

Lindo, adorei o texto.
Passei aqui para retribuir sua visita, volte sempre que puder.
Um abraço

Nel disse...

Parabéns pelo excelente blog, Letícia! Essência e conteúdo não faltam. Desejo-lhe sucesso e prosperidade.
http://nelsonsouzza.blogspot.com

Zélia disse...

Houve um tempo em que eu dizia não querer saber de homem peludo demais. Hoje, eu durmo com um urso... kkkkkkk

Alê Crol disse...

Lê,
Você se supera á cada dia, inconfundível. Não tem como ser mais que perfeito, senão seus textos seriam...
Beijão e ótima semana!

Bruno Ribeiro disse...

Muito bom, você escreve muito bem, gostei do blog e dos textos. ;)

NDORETTO disse...

Deixo aqui a exclamação sincera e simples : LINDO !!!!.....eU GOSTO TANTO do seu lado romântico....assim:

"Elvira beija o homem apaixonada, diz tudo falando nada, e cede o corpo acelerado e úmido em sua última tentativa de vitória."....... Puxa, me lembrei de outro texto seu que cita alguma coisa humana: que essa raça só ama na desgraça...."

Fã de carteirinha,escritora
Beijos

Renata Bittes disse...

É bem a imagem da vida msm. Adorei!

Anônimo disse...

Já faz tempo que leio e não digo nada porque da última vez não fui feliz. Você dá um nó na minha cabeça com tudo que escreve. Escreve muito e ainda me faz querer ler mais. A sua prosa amadurece a cada dia. Agora que tenho seu livro, vejo a forma como constrói pessoas que são de verdade. Essa mulher poderia muito bem ser minha irmã vivendo a vida dela. E o homem pode até ser o meu marido. Você não cria personagens que distanciam o leitor. É como se você escrevesse aquele que te lê. Elvira me fez lembrar de amigas que tenho e essa é a grande sacada.

Um abraço, Letícia e fiquei muito feliz com a dedicatória que me escrevestes.