25 maio 2011

menarca






Era sexta. Duas em ponto. Antes alarde do que muda. Saio para procurar emprego. Com pasta e currículo em mãos, sinto-me emblemática O anúncio mencionava currículo? Não importa. É sempre bom exibir nosso pedigree. Mas, que fique bem claro: para conseguir seu emprego, vista-se de acordo. Mas de acordo com o quê? Se eu for me levar pelo calor, saio pelada. Ou então, visto mini roupa que diz tudo e enche as caras de preconceito ou tesão. Enfim, preferi me vestir como de costume: Neutra feito guarda-chuva de carola. Quase sem cor. Maquiagem nenhuma. Otimismo saltando por toda parte. Minha única preocupação era o tal currículo. Não dormi desde que li o anúncio. Passei a manhã inteira imprimindo isto: 154 páginas de experiência. Acredito que a vaga será minha. Com este histórico não há como eu não ser escolhida. Negrito nas partes mais importantes. Enfatizo tudo em negrito. E segue o tempo ao meu destino. Prédio alto, homens trabalhando na esquina e gente comendo milho cozido em enormes panelas cheias de água impura. Ninguém mais se respeita. Água suja causa doença. Diversas. A vaga de emprego é algo ligado a telemarketing. Para impressionar, fiz exercícios de voz. Agudo, meio tom, respira pelo diafragma e vai: o mundo é seu. Chego ao escritório. Um homem de meia idade me atende: Pois não? Digo a que vim. Mostro o jornal. Sem pedir licença (não tenho paciência para sala de espera) sentei-me frente ao homem que me olhava indiferente. Apenas erguia uma de suas sobrancelhas como se estivesse em dúvida. Eu também tenho dúvidas, pensei. Será que chove hoje? Devo acreditar em tudo que vejo pela TV? E são realmente certeiros aqueles testes de gravidez vendidos em farmácia? Soube de uma amiga que fez o teste e o resultado foi positivo e ela passou dois meses comprando roupas de bebê e não era bem isso. A sirene não soou. Senti pena porque ela queria tanto um filho. Eu ainda aconselhei que ela buscasse um advogado e processasse o laboratório. Mas ela já havia perdido o ânimo e, querendo ou não, quase todo esforço só nos leva ao cansaço. Ela desistiu de ter um filho e eu não dou mais conselhos. Este é o meu currículo. Entrego minha vida nas mãos de um desconhecido. Nasci em fevereiro, parei de chupar chupeta aos 7, estudei em escola de freiras e aprendi a andar de bicicleta aos 9. Tanto tombo. Quase quebrei a cara aos 10. Primeira visita ao ginecologista foi aos 11. Foi terrível. Minha mãe me acompanhou. Ginecologistas são sempre tão frios. Ainda lembro o semblante do médico: é um cisto. Não me importei. Cisto e cisco ― tudo some com o tempo. E cursei inglês em beijo de língua. Esta parte toda em negrito. Algo de rubor invadiu o rosto do senhor que nada falava. E eu fui ditando. Fase fálica, menarca, namoro no portão, viagem às Cataratas, curso de primeiros socorros, vontade louca de ser aeromoça, festas de aniversário, fase imbecil de achar que o mundo era minha redoma, porres em tempos de escola, visitas de família e, aos 15, perda da auto-estima. Aos 17, primeiro emprego: secretária em escritório de engenharia. Fui demitida porque faltei três dias seguidos. Tem esse detalhe: eu falto. Bate uma revolta e eu não apareço. Que fique claro. Somos humanos e temos falhas e precisamos de folga. Saiba o senhor que eu falto. Hora ou outra, não dou as caras. Mas, quando venho, trabalho o dia inteiro. E sem pausa para refeição. Cito mais currículo. 18 anos, universidade. Aos 20 nada de importante me aconteceu. A vida parou nesse tempo. Há momentos de recolhimento e até os acontecimentos se esquecem de nós. Concorda? O homem nada falou. Julguei que, pelo silêncio, estava certo meu novo emprego. Pois, quem cala, consente. O silêncio é a maior prova de que a verdade floresce aos borbotões. Continuo leitura exaustiva de minhas qualificações: Aos 22 tentei o cristianismo, depois budismo, depois escapismo, e veio, então, ioga, um amor ou dois, curso de acupuntura, dança de salão e equitação. Veja que grifei, à esferográfica, minha fértil imaginação. Sou dada a momentos de dispersão e anômalos pensamentos rimados e intrusivos. E faço questão de deixar isso por escrito. Eu me defendo como posso. Enquanto falo mais a respeito de meus conhecimentos gerais, o homem olha seu relógio. O tempo é finito e corre mais veloz que lixo em córrego durante as cheias. O homem levanta de sua cadeira e, obviamente, a vaga já havia sido preenchida por outra pessoa. Sinto-me tão resignada quanto o pipoqueiro que chega após encerramento de quermesse. Então percebo que é um aviso. Chegar por último me fez rever minha vida inteira. E eu, que não sabia de mim, agora me conheço. Atravesso a rua certa de que fiz o que pude e ainda celebro mais um ensinamento. Algo mais para preencher meu currículo imenso. E a vida transita mesmo em face do sinal vermelho.






Image by Sno2

9 comentários:

Antonio Siqueira disse...

A vida atravessa todos os sinais. Bárbaro!

A Escafandrista disse...

fiquei intrigada pelo título, mas qd li o texto, toda a ansiedade de receber a resposta de uma vaga de emprego voltou!
huahsuhsauhs
são tantas emoções...

Renata Bittes disse...

Muito interessante como vc usa as palavras. Lindo texto! De verdade.

NDORETTO disse...

Muito boaaaa!!!
Rachei de rir. Parecia eu. rsrsrsr

Ana C. disse...

me perco e me acho em seus textos
gosto tanto ;)

Cris disse...

Adoreeeei, é a minha cara toda estabanada, kkkkkkkkk, só fazendo coisas erradas.

Cristiane Costa disse...

Muito legal!!!

Cristiane Costa disse...

Adoreeeei, é a minha cara toda estabanada, kkkkkkkkk, só fazendo coisas erradas.

Alê Crol disse...

Amei sou eu! Risos!
Excelente semana! Beijos, querida!